Publicado em 2001, o livro Arte Contemporânea Brasileira é uma coletânea de textos organizada por Ricardo Basbaum que reúne reflexões centrais para entender a produção artística no Brasil nas últimas décadas do século XX. A publicação se destaca por articular diferentes pontos de vista sobre crítica, instituições, linguagem e prática artística, compondo um retrato complexo das transformações no campo da arte no país. Abaixo, destacamos cinco ensaios que oferecem chaves fundamentais para pensar questões ainda urgentes no debate contemporâneo.
1. “Histórias”, de Adriano Pedrosa
Neste texto, Adriano Pedrosa propõe uma reflexão sobre o papel das histórias na mediação entre a obra de arte e sua recepção. Ele defende que a arte contemporânea exige a construção de narrativas como condição para sua circulação e compreensão. A “história” se apresenta tanto como recurso curatorial quanto como estratégia de produção, sendo mobilizada por artistas, críticos, curadores e instituições.
Pedrosa analisa como essas histórias se constroem a partir de dispositivos específicos, como exposições, textos críticos e entrevistas, e aponta para a multiplicidade de perspectivas que uma obra pode conter. O ensaio também levanta a questão da legitimidade e da autoridade na construção dessas narrativas, sugerindo que o sistema da arte é atravessado por disputas de sentido em torno da produção discursiva que envolve a obra.
- A arte contemporânea depende cada vez mais de narrativas para sua recepção e circulação.
- A construção de histórias é um recurso curatorial e também uma estratégia dos próprios artistas.
- Essas narrativas são mediadas por textos críticos, entrevistas, exposições e instituições.
- A história da arte não é linear; ela se fragmenta em múltiplas versões, interpretações e disputas.
- O sistema da arte valoriza obras que “contam bem uma história”, ainda que o conteúdo seja ambíguo.
- Existe uma tensão entre a autonomia da obra e as camadas discursivas que a acompanham.
- A crítica, a curadoria e a instituição desempenham um papel ativo na produção de sentido das obras.
2. “Contra a arte afluente: o corpo é o motor da ‘obra'”, de Frederico Morais
Frederico Morais apresenta uma crítica incisiva à arte institucionalizada e mercadológica que, segundo ele, afasta-se da vitalidade expressiva do corpo. O autor retoma experiências artísticas brasileiras dos anos 1960 e 1970, como os happenings e as ações performativas, para defender uma arte engajada com o cotidiano e com o corpo como centro motor da criação.
Ele propõe a ideia de uma “arte pobre”, não no sentido de precariedade, mas como oposição à opulência e ao distanciamento da chamada arte afluente. Para Morais, o corpo é agente criador e meio de ruptura com as estruturas de poder que sustentam o mercado de arte. O texto reivindica uma prática artística que recupere o gesto, a presença, a ação e o improviso, desmontando as convenções formais que separam arte e vida.
- A arte afluente é identificada com o mercado, o excesso formal e a passividade política.
- Em oposição, o autor defende uma arte que parte do corpo e da experiência direta.
- O corpo é o motor da criação artística: é gesto, ação, pulsão e presença.
- O texto valoriza práticas experimentais e performativas dos anos 1960 e 70 no Brasil.
- A “arte pobre” não se refere a recursos limitados, mas à recusa do luxo e da neutralidade estética.
- A crítica institucional é um aspecto fundamental da arte como forma de enfrentamento político.
- A vitalidade da arte está em sua capacidade de agir no presente, com e sobre os corpos.
3. “A instauração: um conceito entre instalação e performance”, de Lisette Lagnado
Lisette Lagnado propõe o conceito de “instauração” como uma chave para compreender práticas que operam entre os campos da instalação e da performance. A instauração, segundo a autora, marca o momento de ativação da obra, em que espaço, tempo e corpo se articulam em uma experiência única e irrepetível. Diferente da instalação tradicional, que tende à fixação espacial, ou da performance entendida apenas como ato corporal, a instauração é uma proposta que exige a presença do público e ocorre sempre no intervalo entre acontecimento e percepção.
Lagnado discute exemplos de artistas brasileiros que trabalham nesse limiar e propõe que o conceito de instauração permite deslocar o foco da obra enquanto objeto para o processo como obra em si. É uma forma de pensar a arte em seu tempo, abrindo espaço para práticas sensíveis, relacionais e temporárias.
- A instauração é proposta como categoria que ultrapassa os limites das classificações tradicionais.
- Trata-se de um evento efêmero, situado entre a instalação e a performance, ativado no tempo.
- A obra só se realiza plenamente na presença do público, no instante de sua ativação.
- O conceito desloca a centralidade do objeto para o acontecimento e a experiência sensível.
- Instauração é processo: sua lógica não é a do produto acabado, mas do acontecimento vivo.
- A ideia propõe um novo entendimento da temporalidade e espacialidade na arte contemporânea.
- A obra instaurada dissolve fronteiras entre artista, público e espaço expositivo.
4. “Crítica: a palavra em crise”, de Fernando Cocchiarale
Fernando Cocchiarale analisa o papel da crítica de arte diante das transformações ocorridas no campo artístico contemporâneo. O autor parte da constatação de que a crítica atravessa um momento de crise, em que sua função tradicional, descritiva, avaliativa e legitimadora, perde força frente à multiplicidade de discursos que envolvem a arte. Ele observa que, com o fortalecimento de instâncias como a curadoria e os discursos institucionais, a crítica perde autonomia e passa a disputar espaços com outros agentes de mediação.
Cocchiarale não propõe o fim da crítica, mas aponta para a necessidade de reconfiguração do papel do crítico, que deve assumir uma postura mais reflexiva, aberta e atenta às novas formas de produção e recepção da arte. A crise da palavra crítica é, para o autor, também uma oportunidade de repensar sua função dentro de um sistema em constante transformação.
- A crítica de arte tradicional perde centralidade no contexto da arte contemporânea.
- A multiplicação de discursos (curatorial, institucional, midiático) enfraquece a autoridade do crítico.
- A crítica é desafiada por uma arte que já se apresenta discursivamente complexa.
- O papel avaliativo da crítica é posto em xeque diante da arte conceitual e processual.
- A crise da crítica é também uma crise da linguagem diante da fluidez da arte atual.
- A crítica precisa se reinventar como prática reflexiva e não apenas normativa.
- É necessário repensar a função crítica em um cenário marcado por hibridismos e deslocamentos.
5. “Uma dinâmica da arte brasileira: modernidade, instituições, instância pública”, de Sônia Salzstein
Sônia Salzstein propõe uma análise das dinâmicas que moldaram a arte brasileira a partir do entrelaçamento entre modernidade, instituições culturais e a instância pública. A autora parte do pressuposto de que a modernidade artística no Brasil foi profundamente marcada pela mediação institucional, o que a distingue de outros contextos. Ela discute como a formação de museus, bienais e políticas culturais moldaram o campo artístico, e como a atuação dos artistas se construiu dentro e, às vezes contra, essas estruturas.
Salzstein propõe que a arte brasileira opera numa tensão constante entre experimentação formal e demandas por legitimação institucional, e que a noção de “instância pública” permite pensar o espaço onde a arte se inscreve como prática política, discursiva e simbólica. O texto oferece uma leitura histórica e crítica sobre o modo como a arte brasileira se construiu enquanto campo autônomo, mas sempre em relação com os dispositivos de poder que a sustentam.
- A arte brasileira moderna se constituiu em forte relação com instituições e políticas culturais.
- Museus, bienais e sistemas públicos foram decisivos para consolidar o campo artístico.
- A instância pública é vista como espaço simbólico onde a arte se legitima e atua socialmente.
- Há uma tensão entre a autonomia do artista e a mediação institucional que viabiliza a arte.
- O texto propõe que o moderno no Brasil nunca foi autossuficiente, sempre mediado por estruturas.
- A arte contemporânea segue operando nesse jogo entre liberdade formal e exigência pública.
- A noção de instância pública ajuda a pensar a arte como prática cultural inserida em disputas sociais.

