Properzia de’ Rossi (c. 1490–1530) foi uma das poucas mulheres reconhecidas como artista no Renascimento italiano. Nascida e atuante em Bolonha, ela ficou conhecida por sua extraordinária habilidade na escultura — um campo quase exclusivo dos homens em sua época e por sua história marcada tanto pelo talento quanto pelos obstáculos que enfrentou.
Esquecida durante séculos e resgatada tardiamente pela história da arte, Properzia foi a única mulher descrita por Vasari na série emblemática de livros Vida e Obra dos Grandes Pintores e Escultores. Ainda assim, foi representada de maneira ambígua por Giorgio Vasari, ora exaltada como artista talentosa, ora reduzida a uma figura dominada por paixões e fragilidade emocional.
A ambiguidade com que Giorgio Vasari trata Properzia de’ Rossi está no modo como ele combina admiração pelo talento técnico da artista com uma narrativa que a submete a estereótipos de gênero, marcadamente românticos e emocionais. No texto de Vasari, Properzia é apresentada como uma mulher excepcional por dominar a escultura — uma arte considerada “masculina” por envolver força física e trabalho com mármore. No entanto, ele rapidamente associa sua criatividade e sensibilidade artística a uma paixão amorosa não correspondida, sugerindo que sua inspiração teria vindo do sofrimento por um homem.
Por um lado, Vasari reconhece seu talento, chegando a incluí-la em seu livro Vite, onde pouquíssimas mulheres aparecem. Por outro, atribui sua genialidade não à formação, prática ou intelecto, mas a uma emoção “feminina”, como se fosse um desvio da racionalidade.
Biografia de Properzia de’ Rossi
Properzia nasceu em uma família burguesa de Bolonha, cidade que, diferentemente de outras regiões italianas, oferecia às mulheres algum acesso à educação. Seu nome apareceu com destaque no célebre livro Vite, de Giorgio Vasari — uma raridade, já que a obra reunia apenas nomes masculinos. Mas Vasari a apresentou de modo ambíguo: exaltou seu talento, mas a retratou como figura passional, movida por desilusões amorosas — uma narrativa que a encaixava nos estereótipos femininos da época. Properzia de’ Rossi foi uma artista que superou as limitações atribuídas ao “gênero” da mulher e à sua suposta fragilidade, dominando um dos materiais mais árduos da escultura: o mármore. Trabalhou em uma época em que mulheres raramente tinham acesso a formação técnica ou reconhecimento público.
Uma das primeiras obras atribuídas a ela é uma miniatura em caroço de pêssego, esculpida com cenas da Paixão de Cristo — uma façanha de precisão e engenho. Mas sua obra mais conhecida é a escultura de José e a mulher de Putifar, realizada para a Catedral de San Petronio, em Bolonha. A escolha do tema é simbólica: representa um homem injustamente acusado por uma mulher — narrativa que pode ser lida como um espelho invertido da própria artista, constantemente julgada e rotulada em razão de sua condição feminina. Na obra, Properzia revela domínio técnico e sensibilidade emocional, compondo uma cena dramática com forte tensão corporal, expressão psicológica e refinamento formal. Sua escultura alia virtuosismo e potência narrativa — elementos que a colocam entre os grandes nomes do período, mesmo que pouco mencionada.
Properzia de’ Rossi é um símbolo da exclusão histórica das mulheres na arte, mas também uma figura de resistência. Sua presença no cânone — mesmo sob uma narrativa distorcida — permite hoje repensar as formas de narrar a história da arte. Recolocá-la como protagonista significa revisar os critérios que definiram quem merece ou não estar nos livros, nos museus e na memória coletiva.

