Beatriz Nascimento: pensamento quilombola

Beatriz Nascimento foi uma das mais importantes pensadoras negras do Brasil. Historiadora, poeta, roteirista, professora e ativista, sua vida e obra se entrelaçam como expressão de uma luta coletiva por liberdade, memória e dignidade para os povos negros. Nascida em Aracaju, Sergipe, em 12 de julho de 1942, mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro com a família, estabelecendo-se na Favela da Maré, onde cresceu em meio a desafios sociais e raciais que moldariam sua consciência política.

Foi uma das primeiras mulheres negras a frequentar o curso de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde se formou em 1971. Sua presença na universidade, em um período de forte repressão durante a ditadura militar, foi marcada tanto por enfrentamentos ao racismo institucional quanto por uma busca por novas formas de pensar a história a partir de sujeitos negros.

Ainda nos anos 1970, Beatriz participou ativamente do movimento negro unificado, aproximando-se de intelectuais e militantes como Abdias Nascimento, Lélia Gonzalez, Clóvis Moura e Guerreiro Ramos. Com base em suas pesquisas sobre os quilombos, começou a propor uma leitura radical do conceito: não como simples resistência à escravidão, mas como projeto de mundo, alternativa civilizatória e estrutura viva de organização coletiva negra.

Pensamento e militância

Para Beatriz Nascimento, quilombo é presença, território, memória, autonomia, espiritualidade e cuidado. Ela via nos quilombos uma forma de existência baseada na confluência e não na dominação, pautada pela coletividade, oralidade e ancestralidade. Em sua produção acadêmica e artística, denunciava a invisibilização das mulheres negras, o epistemicídio promovido pela cultura eurocentrada e o racismo institucional no Brasil.

Beatriz acreditava que a história oficial precisava ser desfeita para que outras histórias enraizadas no corpo, na fala e na experiência pudessem emergir. Por isso, sua escrita unia poesia e crítica, razão e espiritualidade, arquivo e vivência. “O quilombo somos nós”, dizia, recusando as tentativas de cristalizar o passado negro em categorias antropológicas fixas ou romantizadas.

Suas principais ideias defendiam:

1. Quilombo como projeto de mundo

Beatriz Nascimento resgatou o quilombo como uma categoria viva, não presa ao passado nem restrita à resistência. Para ela, quilombo é estrutura social, espiritual e política criada por pessoas negras em busca de liberdade e de um modo próprio de viver. Vai além da ideia de “comunidade de fugitivos”: é uma proposta de mundo, uma forma de existir onde a coletividade, o território e a ancestralidade são centrais.

Em vez de entender o quilombo apenas como um marco histórico, Beatriz o reconhece como sistema alternativo de organização social: um modo de viver que continua operando nas favelas, nos terreiros, nos grupos de dança, nas rodas de conversa, nos rituais e nos laços invisíveis que conectam os corpos negros ao chão que pisam. É a ideia de que, onde há afeto, partilha e autonomia negra, há quilombo.

2. Reescrever a história com mãos negras

Beatriz via a história oficial como um projeto de apagamento. Em seus textos, ela denuncia o que chama de epistemicídio: a destruição dos saberes negros promovida pelo racismo estrutural, tanto na escola quanto na academia, na política, na arte e na cultura.

Sua proposta não é apenas denunciar esse apagamento, mas reescrever a história a partir dos próprios sujeitos negros. Isso significa valorizar fontes orais, experiências vividas, mitos, músicas, saberes de terreiro, de cozinha, de corpo. Para ela, a história não está só nos arquivos, mas nos corpos e nas memórias coletivas.

“Nós não somos descendentes de escravos. Somos descendentes de seres humanos que foram escravizados.”

3. Corpo negro e território

Um dos aspectos mais originais do pensamento de Beatriz é a ideia de que o corpo negro é território. Isso quer dizer que não há separação entre o corpo e o lugar, ambos guardam caminhos, saberes e pertencimentos. A violência contra o corpo negro, portanto, é também uma tentativa de expulsá-lo do espaço, da história, da narrativa.

Ela propõe uma visão em que território é afeto, é espiritualidade, é raiz viva. O quilombo, nesse sentido, é um corpo coletivo, um espaço que cuida, protege e abriga os corpos negros que foram historicamente deslocados.

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Beatriz rejeita a visão higienista do urbanismo que vê favelas como problema. Para ela, esses espaços carregam saberes urbanos quilombolas, tecnologias de sobrevivência e resistência, modos de existência que não cabem na lógica colonial da cidade planejada.

4. Mulheres negras no centro da história

Beatriz Nascimento foi uma das primeiras intelectuais brasileiras a dizer, com todas as letras, que a mulher negra é a espinha dorsal do Brasil, mesmo sendo invisibilizada em todas as esferas: histórica, política, acadêmica, afetiva.

Ela denunciou tanto o racismo quanto o sexismo, dentro e fora dos movimentos sociais. E mais do que denúncia, trouxe visibilidade para as formas de saber e cuidado criadas por mulheres negras nas periferias, nos quilombos, nas escolas, nas casas e nos espaços informais da vida cotidiana.

Para Beatriz, a luta da mulher negra não é uma luta por inclusão num sistema racista, mas uma luta por reinvenção do mundo. Por isso, ela é estrutural, coletiva e radical.

5. A palavra como arma e herança

Em todos os seus textos, entrevistas e falas, Beatriz usa a palavra como instrumento de cura, de denúncia, de reconstrução. Ela acreditava na força da oralidade, da linguagem viva, da conversa em roda. Escrevia como quem conversa, e falava como quem escreve com o corpo.

Sua forma de produzir conhecimento não se separa da vida. Para ela, não há saber que ignore o chão de onde se fala. Reivindicava uma palavra que vem do corpo, que acolhe as marcas, que dança com o tempo, que se faz escuta.

Essa palavra ancestral é também herança: o que se transmite sem precisar estar escrito. O que passa de mãe pra filha, de vizinha pra vizinha, de corpo pra corpo.

Obras e legado

Beatriz deixou textos fundamentais sobre cultura, raça, gênero e território, muitos dos quais foram reunidos postumamente em livros como:

  • “Uma história feita por mãos negras” (Zahar, 2021) – coletânea de 24 textos inéditos e dispersos;
  • “Todas as distâncias: Beatriz Nascimento por ela mesma” (org. Alex Ratts e Bethânia Gomes) – reúne cartas, entrevistas e falas da autora em primeira pessoa;
  • “Beatriz Nascimento: quilombo na luta contra o racismo” (Ubu, 2023) – obra que articula ensaios, entrevistas e trechos de suas intervenções públicas.

Ela também atuou como roteirista e protagonista do filme Ori (1989), dirigido por Raquel Gerber, que documenta a trajetória do movimento negro brasileiro entrelaçada à sua própria história.

Morte e continuidade

Beatriz foi assassinada tragicamente em 28 de janeiro de 1995, aos 52 anos, vítima de um feminicídio racial: baleada ao tentar proteger uma amiga. Sua morte prematura interrompeu uma vida de profundo compromisso com a liberdade negra, mas sua voz permanece viva nas páginas, nos filmes, nas aulas e nas lutas que continuam.

Hoje, Beatriz é reconhecida como precursora de um pensamento decolonial afro-brasileiro. Suas ideias seguem ecoando entre intelectuais, artistas, ativistas e educadores que encontram em sua obra não apenas reflexão crítica, mas também afeto, poesia e pertencimento.

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