Performance é uma arte viva. Mais do que um meio ou uma técnica, é uma forma de presença, uma linguagem que se constrói na ação, no risco, na energia partilhada entre artista e público. A performance é uma linguagem artística que se afirma na ação, no tempo e na presença. Diferente das artes visuais tradicionais, ela não se traduz necessariamente em objetos, mas se realiza na experiência direta entre artista e público. Seu meio é o corpo. Sua matéria é o gesto. Seu espaço é o aqui e agora.
Surgida com mais força nos anos 1960 e 70, como resposta aos limites do objeto artístico tradicional, a performance funde arte e vida, tempo e corpo, gesto e silêncio. No cerne da performance, está o corpo como matéria-prima. Um corpo que age, resiste, transforma. Um corpo que se oferece, que se expõe. Diferente do teatro ou da dança, a performance não se baseia em personagens nem em coreografias previamente definidas. Seu roteiro, quando existe, é antes um ponto de partida para o inesperado. O que importa é o estado de presença, o “aqui e agora” que se estabelece entre quem faz e quem observa.
O termo “performance”, quando aplicado à arte, refere-se a uma prática que se estabelece a partir da ação corporal do artista como núcleo do trabalho. Essa ação pode ser simples ou complexa, improvisada ou estruturada, silenciosa ou ruidosa. Mas seu sentido não está na forma do que é feito, e sim no estado em que se faz. Trata-se de uma arte que não representa: presencia. O artista não interpreta um papel, mas coloca a si mesmo em jogo, em risco, em exposição.
Corpo, ritual, transformação
A performance desloca o corpo do lugar de objeto da arte para o de sujeito ativo. O corpo do artista não apenas realiza a obra, mas é a própria obra. Ele age, resiste, se transforma e, com ele, transforma também a percepção de quem assiste. O corpo não é apenas físico, mas energético, simbólico, político. Carrega memórias, desejos, limites e contradições. Ao colocá-lo no centro da experiência estética, a performance amplia o campo da arte para abarcar o vivido, o íntimo, o social.
Performance é linguagem do limiar. Está entre o ritual e a arte contemporânea, entre o visível e o invisível, entre o eu e o outro. Essa ambiguidade é fundamental. Como no ritual xamânico ou indígena, a performance pode criar estados de suspensão do tempo, de incorporação, de transformação da consciência. O performer se torna, nesse contexto, um canal de energia, um condutor de experiências estéticas e subjetivas.
Na performance, muitas vezes, o artista se autoinicia. A obra nasce de uma entrega radical física, emocional, espiritual. Pode haver sofrimento, silêncio, repetição. Pode haver jejum, duração extrema, suspensão dos sentidos. Mas o que se busca não é o choque pelo choque: é a abertura de um espaço outro. Um espaço onde tempo e percepção se alteram. Onde o espectador também é convocado a participar, a estar presente, a experimentar junto.
Imaterialidade e presença
Diferente da pintura ou da escultura, a performance não se materializa em um objeto final. Ela é efêmera. Sua existência se dá no instante em que acontece e, por isso mesmo, desafia os mecanismos tradicionais do mercado e da memória da arte. Ainda assim, pode deixar rastros: vídeos, fotos, relatos, objetos. Esses registros, no entanto, não substituem a experiência. São apenas vestígios de algo que se viveu em tempo real, de algo que exigiu corpo, respiração, olhar.
Esse caráter efêmero não diminui seu valor estético; ao contrário, intensifica sua potência. Ao se recusar à permanência, a performance questiona o próprio sistema da arte, seus modos de circulação, validação e consumo. E propõe outro tipo de experiência: um tempo suspenso, denso, vivido em comum.
Como linguagem imaterial, a performance propõe uma outra relação com o tempo e com o espectador. Ela não representa: apresenta. Ela não imita: vivencia. Ela não conta uma história: é a própria história sendo feita no momento do encontro.
O público como parte da obra
Na performance, o público não é apenas espectador. É parte da obra. A relação que se estabelece ali, muitas vezes silenciosa, intensa, íntima, é parte essencial do gesto performático. Sem a presença do outro, não há reverberação, não há espelho, não há acontecimento pleno. A energia entre quem faz e quem observa cria o campo magnético onde tudo se dá.
Esse envolvimento pode ser literal (quando o público interage fisicamente) ou sensível (quando é convocado a estar ali, em atenção, em presença). Em ambos os casos, a performance só se realiza plenamente quando compartilhada.
Uma arte que pergunta
A performance habita a fronteira entre arte e vida. Sua história está vinculada a movimentos que buscaram romper com as convenções institucionais da arte, como o dadaísmo, o happening, o Fluxus, o body art, mas ela não se resume a um estilo ou escola. É, antes de tudo, uma postura. Um modo de estar no mundo e de criar experiências que convocam o sensível, o político, o espiritual.
Por fim, performance é uma arte que pergunta. Pergunta pelos limites do corpo, da linguagem, da arte. Pergunta pela presença, pelo tempo, pela escuta. Pergunta pelo outro. E, mais do que isso: nos convida a estar com essas perguntas, sem pressa de responder.
Num mundo acelerado, a performance insiste no tempo estendido, na escuta profunda, na presença radical. Ela nos lembra que há arte onde há encontro. E que talvez, no fim das contas, não estejamos tão separados assim entre artista e público, obra e vida, gesto e mundo.

