Modernismo tardio: entre rupturas e permanências na arte do século XX

O modernismo tardio, também chamado de modernidade tardia, designa um conjunto de expressões artísticas, culturais e arquitetônicas que surgem após o auge do modernismo, muitas vezes em continuidade, outras vezes em crítica ou reinvenção. Ele abrange obras que, mesmo fora do período considerado “clássico” do modernismo (1900–1945), ainda exploram seus princípios, como a experimentação formal, a crença na racionalidade e a busca por novos modos de ver e representar o mundo.

Mas o modernismo tardio não é apenas um prolongamento. Ele é também um espelho de sua crise: um tempo que herda as promessas da modernidade, mas já lida com os seus limites, contradições e esgotamentos, especialmente num mundo fragmentado, desigual e atravessado por disputas políticas, coloniais e culturais.

Na arquitetura: entre técnica, espetáculo e racionalismo

No campo arquitetônico, o modernismo tardio antecede o advento do pós-modernismo e se manifesta na persistência do Estilo Internacional, com linhas limpas, estruturas modulares e o uso de concreto, vidro e aço. A partir dos anos 1960, ganha força a chamada arquitetura high-tech, marcada por:

  • Exposição dos sistemas técnicos e estruturais
  • Uso de cores vibrantes e acabamentos metálicos
  • Estética industrial e racionalidade funcional

Aqui, a modernidade é celebrada com vigor, mas já beira o espetáculo. Há uma ambiguidade entre a crença no progresso tecnológico e o início das preocupações com a sustentabilidade, que se intensificariam nas décadas seguintes.

Na literatura: racionalidade, forma e inquietação existencial

Na literatura, o modernismo tardio dá continuidade ao “alto modernismo”, mas com outras inflexões. Escritores dessa fase continuam a explorar o trabalho formal, o rigor técnico e a complexidade subjetiva, mas agora em um contexto marcado por guerras, ditaduras, tensões ideológicas e avanço do existencialismo.

No Brasil, a chamada Geração de 45 é um exemplo marcante: nomes como João Cabral de Melo Neto ou Clarice Lispector oferecem linguagens refinadas e inovadoras, cada um a seu modo. Enquanto Cabral investe na contenção racional e estrutural, Clarice mergulha no fluxo interior do ser: dois caminhos possíveis dentro de uma modernidade em revisão.

Na arte e cultura: um moderno periférico, múltiplo e politizado

A partir da década de 1940, a arte moderna ganha novas formas em diversas partes do mundo, especialmente fora dos centros europeus. É nesse período que a América Latina protagoniza expressões singulares de modernismo, com artistas que retomam elementos locais, questionam modelos europeus e incorporam crítica social e política às formas modernas.

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Enquanto os EUA dominam o circuito internacional com o expressionismo abstrato e o minimalismo, países latino-americanos como Brasil, México, Argentina e Cuba constroem vanguardas próprias, como:

  • Neoconcretismo e Tropicália no Brasil
  • Muralismo e arte conceitual política no México
  • Arte cinética na Venezuela
  • Abstrações críticas no Chile e Argentina
  • Hibridismos afrocubanos em Cuba

Mesmo dentro de regimes autoritários e contextos coloniais, a modernidade tardia é reapropriada como forma de resistência, reinterpretação e construção de identidades próprias.

Um mundo fragmentado: identidades e estilos de vida em disputa

Se o modernismo clássico era marcado pela crença na razão universal, o modernismo tardio já se dá em um mundo mais plural, mais crítico e menos estável. A figura do indivíduo moderno passa a conviver com identidades concorrentes, estilos de vida diversos e culturas híbridas.

A arte, a literatura e a arquitetura desse período são atravessadas por:

  • Reflexões existenciais e subjetividade inquieta
  • Conflitos geopolíticos (como a Guerra Fria e as ditaduras latino-americanas)
  • Críticas ao progresso irrestrito e aos impactos ambientais do desenvolvimento
  • Releituras de tradições locais e cosmologias periféricas

Ou seja: a modernidade tardia é ao mesmo tempo crítica e expansão da modernidade, não mais ingênua, não ainda superada.

Um moderno em crise, mas ainda em movimento

O modernismo tardio é o tempo em que o moderno começa a se esgotar, mas ainda não se desfaz. Ele resiste em novas linguagens, em novos territórios e em contextos antes marginalizados. E talvez por isso seja tão importante revisitá-lo: porque ele revela que os ciclos da arte não se encerram com datas ou manifestos, mas se transformam em espiral, incorporando conflitos, memórias e urgências.

Na América Latina, especialmente, o modernismo tardio deixa marcas fundamentais: não como uma cópia atrasada da Europa, mas como um campo fértil de invenções, revisões e reexistências.

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