Seria possível pensar a arte como experiência é deslocá-la de um lugar fixo e fechado para uma dimensão viva, relacional e sensível? A obra deixa de ser um fim em si mesma e passa a ser compreendida como um processo que se estende para além da sua materialidade. E se torna experiência que envolve corpo, tempo, espaço, memória e afeto. Tudo junto, ou não. Para Sonia Salcedo, em Cena e visualidade: sobre o lugar da exposição de arte nos dias atuais, a arte não representa algo que está fora dela. Ela se produz na relação com o mundo e com quem a encontra.
Para a autora, curadora, a crítica de arte, como todo um processo, também precisa ser repensada. Em vez de operar como julgamento ou interpretação definitiva, ela se apresenta como um exercício de escuta e acompanhamento. A crítica se torna um campo de atravessamento, onde a linguagem é convocada a lidar com o que escapa, o que resiste e o que provoca. A escrita crítica, nesse contexto, não é neutra nem distanciada. Ela se implica na experiência e na própria criação de sentidos. E o curador se torna alguém que escuta, articula e sustenta contextos. A curadoria é também um gesto ético e político que envolve responsabilidade com os artistas, com os públicos e com os territórios em que atua.
O corpo ocupa um lugar central nesse pensamento. Ele é visto como lugar de produção, recepção e pensamento. Não se trata apenas de olhar ou de interpretar a arte, mas de senti-la e atravessá-la com o corpo todo. O gesto, o ritmo, o silêncio e a presença ganham importância. A arte ativa modos de perceber que não passam exclusivamente pela razão. A sensibilidade é reconhecida como forma de conhecimento.
Nesse campo ampliado, a arte se afirma como espaço de resistência – e abre espaço para que o conflito se apresente -. Ela é capaz de tensionar normas, questionar estruturas e propor modos outros de existência. Isso não se dá apenas pelo conteúdo das obras, mas pela maneira como elas são produzidas, expostas e compartilhadas. A arte abre espaço para o dissenso e para o imprevisto. Ela desafia o controle e a previsibilidade dos sistemas instituídos.
O foco, portanto, se desloca da obra acabada para os processos que a geram. O tempo, os encontros, os conflitos e as negociações passam a fazer parte do trabalho artístico. A produção deixa de ser linear e controlada. Em vez disso, passa a lidar com o inacabado, com o efêmero e com o relacional. A obra não é um objeto fechado, mas um acontecimento que se atualiza a cada nova ativação.
Essa perspectiva também implica a desconstrução de hierarquias tradicionais. A arte deixa de ser um campo reservado a especialistas e instituições e passa a reconhecer saberes diversos, experiências periféricas e modos não hegemônicos de criação. Isso exige a abertura de espaços para multiplicidades e o reconhecimento de práticas que historicamente foram silenciadas ou desvalorizadas.
A mediação cultural, dentro desse pensamento, é compreendida como prática situada e comprometida com a complexidade dos contextos. Ela não pretende simplificar a obra para torná-la acessível, mas criar condições para que diferentes pessoas possam construir sentidos a partir dela. A mediação é uma prática de escuta e de responsabilidade que entende o encontro com a arte como possibilidade de transformação.
Por fim, a escrita crítica também precisa ser reinventada. A linguagem não dá conta de tudo, mas pode ser convocada a acompanhar os gestos da arte. Em vez de descrever ou explicar, a escrita pode se tornar uma prática estética que se deixa afetar pela obra. Escrever sobre arte, nesse sentido, é também criar. É buscar formas que estejam à altura da experiência e que acolham aquilo que a arte nos ensina a sentir e a pensar.

