A atuação coletiva em arte contemporânea tem se apresentado uma estratégia clara para enfrentar desigualdades estruturais ligadas a gênero, raça e classe. Coletivos formados por mulheres, negritudes e grupos marginalizados atuam em rede para expandir visibilidade, ocupar espaços públicos e redefinir narrativas dominantes. Essa forma de organização compartilhada fortalece agendas de equidade, abrindo oportunidades de produção, difusão e presença institucional para suas participantes. O foco em identidade e justiça social, apoiado em trocas colaborativas, gera dinâmicas capazes de produzir impacto cultural com significado político. A seguir, são apresentados alguns desses coletivos, que articulam ação estética e transformação a partir da prática conjunta.
Instituto Artistas Latinas
O Instituto Artistas Latinas é uma organização sem fins lucrativos dedicada ao mapeamento, divulgação e educação voltada à produção de mulheres artistas visuais latino-americanas. Criado em 2019, o instituto opera por meio de coleções, conteúdos e projetos que conectam agentes do ecossistema artístico, com o objetivo de construir redes de circulação e aproximação institucional.
O trabalho inclui criação de acervos digitais, realização de eventos, publicações e programas educativos. Atua ainda em articulações colaborativas com parceiros culturais, viabilizando espaços de exposição e discussão. A iniciativa permite que artistas descolonizem olhares hegemônicos, revelando novas histórias possíveis via produção visual feminina latino-americana.
Piscina
A Piscina é uma plataforma sem fins lucrativos que desde 2015 se dedica à pesquisa e divulgação de práticas artísticas desenvolvidas por pessoas que se identificam como mulheres ou não-binárias. Fundada por Paula Plee, Ana Luiza Fortes e Nataly Callai, e atualmente coordenada por Paula com colaborações de Ana Roman e Victor Lacerda, a iniciativa opera prioritariamente no ambiente digital, consolidando-se como referencial para arte feita por essas identidades no Brasil.
A plataforma atua em múltiplas frentes: pesquisa e produção de conteúdo sobre artistas mulheres e não-binárias, curadoria de exposições, projetos editoriais e mediação entre artistas e oportunidades profissionais. Além disso, promove a consolidação de redes com galerias, coletivos e instituições, facilitando a criação de novos diálogos e fomentando eventos culturais que evidenciem a produção dessas artistas.
Comadre
O Comadre é uma plataforma independente, sem fins lucrativos, que desenvolve projetos voltados para arte contemporânea crítica e justiça social. Seu foco é articular diálogos sobre temas atuais, atuando em rede com artistas, curadores e ativistas que produzem ações culturais de intervenção e cuidado.
Promove exposições, oficinas, residências e ações de captação para ONGs, reunindo agentes interessados em articular arte e transformação social. A proposta é fomentar reflexões coletivas a partir de linguagens contemporâneas, estabelecendo interseções entre produção artística, comunidade e prática política.
Levante Nacional TROVOA
TROVOA é um coletivo nacional fundado em 2017 por artistas visuais e curadoras racializadas, articulado por mulheres de diversos estados brasileiros. Sua proposta é atuar de forma territorializada, contemplando múltiplas vozes e experiências, promovendo visibilidade para artistas negras e não brancas.
Entre as ações, desenvolveu o “Censo Nacional TROVOA” (2021) para mapear artistas, curadoras e educadoras racializadas e organizou exposições e mostras regionais. Estruturado em rede, busca fortalecer presença institucional, legitimação curatorial e remuneração justa para essas artistas.
Mó Coletivo
Mó Coletivo é um grupo de pesquisa e experimentação em artes visuais e performance, com perspectiva periférica e feminina. O coletivo atua com performance, processos curatoriais coletivos e pesquisa sobre colonialidade e vivência urbana.
Realizou eventos como o Festival Margem Visual e exposições no SESC Duque de Caxias (2022), reunindo artistas periféricas em reflexões sobre identidade, corpo e espaço. A prática curatorial e artística visa dar centralidade à subjetividade de mulheres negras de favelas, questionando estruturas institucionais da arte.
WOW (Women on Walls)
Women on Walls (WoW) é uma plataforma global dedicada ao reconhecimento e desenvolvimento profissional de mulheres nas artes visuais . Oferece diretório, mentorias, fóruns, masterclasses, editais e vagas de trabalho, conectando artistas, curadoras e produtoras de conteúdo.
A iniciativa subsidia a carreira de criadoras por meio de ensino e financiamento colaborativo, incentivando igualdade profissional. Estimula a circulação de trabalhos, o diálogo interdisciplinar e o apoio mútuo entre mulheres visuais, com alcance internacional .
MOTIM
MOTIM (Mulheres Organizadas por um Teatro em Infinito Movimento) é rede de artistas feministas, com atuação em performance, dramaturgia e pesquisa . O coletivo se dedica a performances colaborativas e investigações sobre mito, rito e cartografias feministas no campo da dramaturgia.
Entre os projetos estão ações públicas e reflexões sobre linguagem, riso e corpo, com base em modelos relacionais e processos de criação coletiva. O trabalho de MOTIM articula ativismo teatral, feminismos e práticas devocionais contemporâneas .
Ateliê TRANSmoras
O Ateliê TRANSmoras é uma associação envolvendo travestis, transexuais e pessoas trans, incluindo mulheres cis negras, indígenas e de origem periférica . Fundado em 2013, combina residências artísticas com formação em costura, moda sustentável e ativismo, criando redes de autonomia produtiva.
Oferece oficinas, programas de ativismo trans e assessoria técnica, buscando enfrentar as barreiras no mercado formal. A prática é articulada por meio de moda, arte e empreendedorismo em rede, visando fortalecimento econômico e simbólico desses corpos .
Rede NAMI
A Rede NAMI é uma organização sem fins lucrativos, criada em 2010 pela artista Panmela Castro, que atua por meio de arte urbana, educação e mobilização contra violência de gênero . A rede promove grafite, arte pública e atividades formativas orientadas para antirracismo, feminismo, inclusão LGBTQIA+ e direitos humanos.
Suas ações incluem formações, intervenções artísticas, campanhas e apoio a lideranças feministas negras. A atuação se dá em espaços urbanos, buscando alterar simbologias da cidade e ampliar representatividade na arte de rua.
Projeto Afro
O Projeto Afro funciona como uma plataforma de mapeamento e difusão de artistas negros, negras e pessoas negras LGBTQIA+ no Brasil, com foco em ampliar a visibilidade dessas produções artísticas. Seu acervo digital – organizado por estado – reúne informações sobre centenas de artistas, suas trajetórias e obras, permitindo uma pesquisa acessível e colaborativa. Além disso, o projeto realiza exposições, publicações e formações, atuando como manifesto contra o apagamento histórico e institucional enfrentado por essas identidades.
A iniciativa articula diálogo com instituições culturais, oferecendo espaço para curadorias mais pluralizadas e iniciativas de produção. Por meio de sua plataforma digital, promove o protagonismo de artistas negros/as/es ao apresentar narrativas diversas, fomentando uma revisão crítica das estruturas que sustentam o mercado de arte brasileiro. O Projeto Afro usa a rede colaborativa para transformar a visibilidade em reconhecimento e em presença real dentro de espaços formais da arte.
Duo Paisagens Móveis
O Duo Paisagens Móveis é formado por Bárbara Lissa e Maria Vaz, artistas que unem formação em Letras e Artes Visuais para investigar memória individual e coletiva por meio de poéticas visuais e trabalhos ecocríticos. Atuantes desde 2017 e vinculadas à UFMG, elas exploram processos de esquecimento e preservação em paisagens urbanas e ambientais, estabelecendo conexões entre passado e presente através da imagem, texto e instalação. Suas obras são resultado de pesquisa contínua sobre as relações entre natureza, cultura e narrativa.

