O mercado de arte no Brasil em 2024: principais achados e interpretações

O mercado de arte no Brasil nunca foi simples de medir. Marcado por contrastes entre tradição e inovação, centralização geográfica e tentativas de descentralização, informalidade e crescente profissionalização, o setor reúne dinâmicas próprias que nem sempre aparecem nos indicadores oficiais da economia. A 7ª Pesquisa Setorial do Mercado de Arte no Brasil, publicada em 2024 pela Act Arte a pedido da ABACT em parceria com a ApexBrasil, surge como um dos estudos mais abrangentes já realizados sobre esse universo.

O levantamento combina dados quantitativos (com base em mais de 100 galerias de todo o país) e qualitativos (entrevistas em profundidade com colecionadores, consultores, curadores e representantes de feiras e leilões). Juntas, essas informações oferecem uma radiografia rara sobre como funciona a engrenagem que movimenta artistas, galerias, colecionadores e instituições no Brasil.

Entre os achados mais relevantes, destacam-se o crescimento de 21% do mercado em 2023 (mesmo diante de um cenário global em queda), a predominância de vendas em faixas de preço até R$ 50 mil, a dependência do público comprador nacional e o papel central das feiras de arte como motor do setor. Ao mesmo tempo, o relatório aponta entraves persistentes: altos custos logísticos e tributários, burocracia na exportação, concentração do mercado em São Paulo e Rio de Janeiro e a necessidade de maior diversidade de gênero entre artistas representados.

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Mais do que números, a pesquisa permite interpretações sobre tendências que podem moldar o futuro do setor. Do avanço da digitalização ao potencial da sustentabilidade e da diversidade como diferenciais competitivos globais, o estudo mostra que a arte brasileira tem espaço para crescer e se consolidar, desde que enfrente seus desafios estruturais com estratégia e cooperação.

1. Crescimento expressivo, mas ainda desigual

  • Valor do mercado em 2023: R$ 2,9 bilhões (US$ 580 milhões), alta de 21% em relação a 2022.
  • Comparação internacional: enquanto o mercado global caiu 4%, o Brasil cresceu.
  • Esse contraste mostra a resiliência do mercado brasileiro, mas também sua volatilidade. Crescemos rápido, mas ainda sem a estabilidade estrutural que garante previsibilidade a longo prazo.

2. Forte dependência do mercado interno

  • 77% das vendas são para compradores nacionais.
  • Apenas 15% vêm de colecionadores estrangeiros.
  • O peso do público local garante sustentabilidade, mas limita a internacionalização. Para expandir, as galerias precisam enfrentar barreiras logísticas, tributárias e cambiais.

3. Exportações em recuperação

  • Crescimento de 24% em 2023, mas ainda abaixo dos níveis pré-pandemia.
  • EUA, Suíça, Reino Unido, França e Bélgica concentram 90% do destino das obras.
  • A concentração em poucos países sugere prestígio em mercados centrais, mas também alta dependência. Diversificar destinos pode reduzir riscos.

4. Estrutura das galerias: equipes pequenas e custos altos

  • Média de 9 colaboradores por galeria.
  • 48% dos custos médios vão para feiras e folha de pagamento.
  • O setor opera de forma enxuta e aposta alto nas feiras como motor de visibilidade. Mas a dependência desses eventos gera vulnerabilidade financeira.

5. Concentração de receita em poucos artistas

  • Os 3 artistas mais vendidos representam, em média, 51% das receitas.

6. Faixas de preço e perfil das vendas

  • 59% das obras vendidas custam até R$ 50 mil.
  • Apenas 9% do total de vendas envolvem obras acima de R$ 300 mil.
  • O mercado brasileiro é mais “democrático” que o global, com predominância de faixas de preço intermediárias e acessíveis. Isso pode atrair novos colecionadores, mas limita a presença em segmentos de alto valor.

7. Digitalização em avanço

  • Vendas online passaram de 8% em 2018 para 20% em 2023.
  • O digital não substitui o presencial, mas já é um canal consolidado. Ainda assim, compradores de maior poder aquisitivo parecem preferir a experiência presencial.

8. Feiras como motor do setor

  • 42% das vendas acontecem nas galerias físicas, mas feiras nacionais representam 25% do total e internacionais 9%.
  • Além do volume de vendas, feiras são estratégicas para networking e posicionamento. O desafio é equilibrar o alto custo com o retorno de longo prazo.

9. Desafios estruturais

A pesquisa aponta barreiras que dificultam o crescimento sustentável:

  • Tributação elevada e instável (ex.: fim da isenção de ICMS em feiras como a SP-Arte em 2024).
  • Custos logísticos e burocracia para exportações, que podem levar até 60 dias.
  • Concentração geográfica (82% das galerias estão no eixo Rio–São Paulo).
  • Baixa diversidade de gênero (63% dos artistas representados são homens).
  • Interpretação: superar essas barreiras exige políticas públicas, incentivos fiscais, descentralização e maior inclusão de artistas.

10. Oportunidades estratégicas

  • Valorização da diversidade cultural e de temas ambientais em escala global cria espaço privilegiado para artistas afrodescendentes, indígenas, mulheres e LGBTQIA+.
  • Sustentabilidade e digitalização aparecem como diferenciais competitivos de médio prazo.
  • O Brasil tem potencial único de se posicionar como mercado inovador, desde que saiba integrar suas particularidades culturais às exigências globais de transparência, profissionalização e responsabilidade ambiental.

Cruzamento de dados para refletir:

1. Concentração de receita vs. diversidade de artistas representados

  • O estudo mostra que os 3 artistas mais vendidos respondem por 51% da receita das galerias.
  • Também mostra que 63% dos artistas representados são homens.
  • Se o modelo de receita das galerias é altamente concentrado em poucos artistas e a maioria representada é masculina, há grande chance de que a concentração de renda esteja reforçando desigualdades de gênero. Isso abre espaço para discutir como a diversidade não é apenas uma questão simbólica, mas também econômica.

2. Dependência do público nacional vs. faixas de preço

  • 77% das vendas são para brasileiros.
  • 59% das obras vendidas custam até R$ 50 mil.
  • O mercado interno é majoritariamente responsável pelas vendas e concentra-se em faixas de preço intermediárias. Isso sugere que o colecionismo no Brasil está mais associado a uma “classe média alta cultural” do que a grandes investidores de arte. Ao mesmo tempo, reforça o potencial da internacionalização para explorar segmentos de maior valor.

3. Custos com feiras vs. digitalização

  • 48% dos custos médios vão para feiras e folha de pagamento.
  • As vendas online já representam 20% do total.
  • As galerias continuam investindo pesado em feiras físicas, mesmo com o digital ganhando força. Isso mostra uma possível contradição: enquanto o online cresce de forma constante, os gastos mais altos permanecem atrelados ao modelo tradicional. Um insight seria pensar se parte desse investimento não deveria migrar para estratégias digitais mais sofisticadas, com melhor retorno sobre o investimento.

4. Exportação vs. concentração geográfica

  • 90% das exportações vão para apenas 5 países (EUA, Suíça, Reino Unido, França e Bélgica).
  • 82% das galerias estão em São Paulo e Rio de Janeiro.
  • A concentração geográfica interna se reflete em uma concentração externa. As galerias do eixo Rio–SP estão majoritariamente conectadas a poucos polos internacionais, o que limita a diversificação de redes globais. Isso indica que incentivar a descentralização do mercado brasileiro pode também ampliar o leque de relações internacionais.

5. Perfil das vendas vs. riscos de dependência

  • 9% das vendas estão acima de R$ 300 mil.
  • 51% da receita vem dos 3 artistas mais vendidos.
  • Há um risco duplo aqui: o mercado de alto valor ainda é pouco explorado, e dentro dele as receitas dependem de poucos nomes. Se esses artistas saem da galeria ou mudam de prestígio, há um vácuo difícil de preencher. Isso pode explicar por que tantas galerias têm dificuldades de estabilidade financeira.
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