Andrea Giunta, historiadora da arte argentina e referência incontornável nos estudos latino-americanos, publica Contra el canon como uma tomada de posição crítica frente à persistência de narrativas dominantes que estruturaram a história da arte. O livro é menos um manual e mais uma intervenção: busca desestabilizar hierarquias que naturalizaram um conjunto restrito de artistas, obras e discursos como universais, enquanto marginalizaram produções de mulheres, dissidências sexuais, artistas racializados e perspectivas do Sul global.
Giunta define o cânone como uma seleção histórica que, em vez de neutra, foi constituída por disputas de poder: escolhas institucionais, de críticos, curadores, colecionadores e museus. Esse processo consolidou um repertório de nomes (na maioria homens, brancos, europeus ou norte-americanos) que passaram a simbolizar o que seria “a arte” em sua forma mais legítima. Estar “dentro” ou “fora” do cânone não depende apenas do valor estético, mas de mecanismos de legitimação que moldam a memória coletiva.
Ir contra o cânone, para Giunta, não significa destruí-lo ou substituí-lo por outro repertório fechado, mas abrir fissuras que permitam leituras plurais, instáveis e atentas à diversidade. É um gesto político, ético e metodológico.
Crítica ao universalismo moderno
Giunta aponta que o universalismo moderno se construiu sobre uma base profundamente eurocêntrica, que tomava a produção europeia como parâmetro absoluto para definir o que era ou não arte de vanguarda. Nesse processo, a narrativa da “vanguarda universal” operou como um mecanismo de exclusão, invisibilizando práticas artísticas que aconteciam em outras geografias de modo simultâneo ou até anterior às experiências consagradas pelo Norte global. O discurso modernista consolidou assim uma linha evolutiva única, que naturalizava a centralidade da Europa e dos Estados Unidos enquanto atribuía às demais regiões o lugar de derivação, atraso ou imitação.
Essa crítica se enraíza na trajetória de pesquisa da própria autora, que ao longo de décadas vem demonstrando como a arte latino-americana não pode ser reduzida a um reflexo periférico. Ao analisar movimentos, artistas e obras do Cone Sul, Giunta revela como eles produziram respostas originais e específicas a seus contextos políticos, sociais e culturais. Em Contra el canon, ela amplia esse argumento para afirmar que as genealogias da arte devem ser plurais, reconhecendo tanto a especificidade local quanto a conexão transnacional. Essa abordagem recusa a lógica binária centro-periferia e coloca a América Latina como um espaço de experimentação próprio, com temporalidades que não se alinham de forma subordinada ao eixo europeu.
A crítica ao universalismo moderno, portanto, não é apenas teórica, mas também política. Ao mostrar que o discurso da “vanguarda universal” apagou a multiplicidade de experiências artísticas, Giunta denuncia como esse apagamento contribuiu para a manutenção de hierarquias coloniais e de gênero na história da arte. Reescrever essa história implica não apenas revisar cronologias e ampliar repertórios, mas também questionar os critérios que definem relevância e inovação. Para Giunta, desestabilizar o universalismo moderno é abrir espaço para uma história da arte verdadeiramente global, na qual as contribuições latino-americanas, feministas e decoloniais sejam reconhecidas não como exceções, mas como partes constitutivas do campo artístico.
Feminismos e desigualdade de gênero
Giunta evidencia como a exclusão das mulheres da história da arte não foi um acidente, mas resultado de mecanismos sistemáticos de invisibilização. Catálogos, programas acadêmicos e exposições majoritariamente privilegiaram artistas homens, enquanto relegaram a produção feminina a esferas domésticas ou secundárias. Ao trazer à tona esse apagamento, a autora mostra que o cânone foi também um espaço de gênero, construído para sustentar a autoridade masculina sobre o campo artístico. A ausência de mulheres nos manuais e nos museus não se deveu à falta de produção, mas a critérios enviesados que naturalizaram sua marginalização.
Essa análise se conecta a um amplo movimento de revisão crítica que Giunta acompanha e integra. A autora destaca o impacto das exposições feministas e de grandes retrospectivas que recolocaram mulheres artistas na cena global, como Radical Women: Latin American Art, 1960-1985. Tais iniciativas revelam a potência de pesquisas que resgatam trajetórias esquecidas, mas também colocam em pauta a necessidade de evitar que esses recortes se transformem em guetos temporários, mantidos à parte do discurso “universal” da arte. O desafio, segundo Giunta, é integrar essas vozes ao tecido amplo da história.
Assim, sua crítica feminista vai além da reparação numérica ou da inclusão pontual. O que está em jogo é redefinir os critérios de legitimidade e visibilidade, de modo que a produção das mulheres não seja apenas lembrada em exposições temáticas, mas reconhecida como constitutiva do desenvolvimento artístico. Contra o cânone, nesse sentido, significa também contra o androcentrismo estrutural que sustentou a narrativa histórica da arte moderna e contemporânea.
O papel das instituições
Em Contra el canon, Giunta enfatiza que a persistência do cânone depende da ação de instituições que o reforçam continuamente. Museus, coleções permanentes, universidades e centros de pesquisa operam como dispositivos de legitimação, determinando quais obras são preservadas, estudadas e exibidas. Essas escolhas, aparentemente neutras, consolidam uma memória seletiva que privilegia certos artistas e narrativas em detrimento de outras. O cânone é, portanto, uma construção institucional antes de ser uma verdade histórica.
Ao mesmo tempo, Giunta chama atenção para os movimentos de revisão que surgem dentro dessas próprias estruturas. Exposições experimentais, políticas de aquisição mais inclusivas e iniciativas de curadores comprometidos com perspectivas críticas vêm abrindo espaços de ruptura. A autora ressalta, contudo, que esses avanços ainda convivem com a inércia de modelos conservadores, demonstrando que a transformação institucional é lenta e marcada por disputas de poder.
Desse modo, pensar contra o cânone significa também intervir nas práticas institucionais. A crítica de Giunta propõe não apenas ampliar a lista de artistas expostos, mas transformar o modo como as instituições produzem valor e organizam sua narrativa histórica. Isso envolve desde a revisão de programas acadêmicos até a criação de coleções que reflitam diversidade de gênero, etnia e geografia, de modo a efetivamente desestabilizar a centralidade do cânone tradicional.
Colonialidade e sul-global
A crítica de Giunta também se inscreve no campo da teoria decolonial. Para ela, o cânone da arte é uma extensão da colonialidade, pois reproduz hierarquias que posicionam a Europa e os Estados Unidos como centros de inovação, enquanto tratam América Latina, África e Ásia como periferias culturais. Essa perspectiva ignora a simultaneidade e a originalidade de processos criativos no Sul Global, reduzindo-os a imitações tardias. Ao expor esse mecanismo, Giunta mostra como a história da arte se tornou um dispositivo de poder que reforça desigualdades globais.
Em sua análise, a autora aproxima-se de debates sobre colonialidade do poder e epistemologias do Sul, defendendo que a crítica à história da arte deve incorporar esses aportes. A descolonização do olhar artístico implica não apenas recuperar artistas e movimentos negligenciados, mas questionar os próprios parâmetros de valor estético que estruturam a disciplina. O cânone, ao se apresentar como universal, mascara sua origem localizada e seus interesses específicos.
Assim, contra o cânone é também contra a colonialidade. Giunta propõe um horizonte em que as histórias da arte se escrevem de forma múltipla, descentralizada e situada, reconhecendo a pluralidade de experiências culturais. Essa abordagem não busca apenas somar narrativas periféricas ao centro, mas repensar radicalmente o modo como entendemos temporalidades, genealogias e interconexões no campo artístico global.
Política curatorial
Giunta argumenta que a curadoria é hoje um campo privilegiado para disputar o cânone. Ao escolher artistas, ordenar narrativas e construir discursos expositivos, o curador pode ou reforçar as hierarquias vigentes, ou abrir espaço para outros repertórios. O livro traz exemplos de exposições em que ela própria esteve envolvida (como Radical Women: Latin American Art, 1960-1985), onde a ênfase em mulheres artistas latino-americanas buscou justamente criar uma contra-história.
Giunta ressalta o papel crucial da curadoria como espaço de disputa do cânone. Ao decidir quais artistas incluir, como organizar narrativas e quais discursos mobilizar, o curador tem poder para reforçar ou desafiar hierarquias estabelecidas. Nesse sentido, a curadoria não é apenas uma prática técnica, mas um gesto político, que pode produzir aberturas ou consolidar exclusões.
Ela exemplifica esse potencial transformador com exposições que reescrevem a história ao destacar mulheres, artistas queer e produções latino-americanas, rompendo com a lógica de periferia em relação ao centro. A mostra Radical Women é apresentada como caso emblemático de como a curadoria pode atuar como contra-história, expandindo repertórios e tensionando a narrativa dominante. Contudo, Giunta também alerta para o risco de que tais iniciativas sejam absorvidas pelo sistema sem alterar suas bases estruturais.
Desse modo, a política curatorial proposta por Giunta exige uma prática crítica contínua, que não se contente com a inclusão pontual, mas que altere as condições de enunciação da própria história da arte. A curadoria, para ela, deve ser entendida como ferramenta estratégica para abrir fissuras no cânone, produzindo narrativas plurais, mutáveis e abertas à diversidade.

