O que é a paisagem na História da Arte?

Na História da Arte, a paisagem é muito mais do que uma representação do ambiente natural. Ela é uma forma de pensar a relação entre o ser humano e a natureza, uma construção cultural que reflete modos de ver, habitar e sentir o mundo. O conceito de paisagem surge quando a natureza deixa de ser apenas espaço utilitário e passa a ser objeto de contemplação estética, um marco que transforma a maneira como o homem se vê no mundo e como traduz sua experiência através da arte.

O termo “paisagem” (do holandês landschap) aparece na Europa entre os séculos XV e XVI, inicialmente associado à pintura. Antes disso, a natureza era compreendida como parte do todo divino, uma unidade inseparável. Filósofos como Georg Simmel e Joachim Ritter explicam que a paisagem só nasce quando o olhar humano recorta e isola uma porção da natureza, reconhecendo nela uma experiência estética autônoma.

Segundo Ritter, é a contemplação desinteressada – isto é, a observação livre de finalidade prática – que dá origem à paisagem. A partir do momento em que o homem passa a ver a natureza não apenas como recurso, mas como espetáculo sensível, nasce o sentimento moderno da paisagem.

O Dicionário do Patrimônio Cultural do IPHAN (2010) amplia o conceito, associando-o à dimensão social, histórica e simbólica. A paisagem deixa de ser apenas estética e passa a incluir as relações de pertencimento, memória e identidade:

“A paisagem é o resultado da interação entre a natureza e a cultura, expressa nos modos de vida, nas transformações do território e nos valores atribuídos pelos grupos humanos.”
(IPHAN, 2010)

O IPHAN propõe entender a paisagem como testemunho material e imaterial das relações entre sociedade e território. Ou seja, cada paisagem é uma forma de memória coletiva, que reúne tanto elementos físicos (rios, montanhas, cidades) quanto simbólicos (histórias, afetos, práticas sociais).

“O conceito de paisagem no campo do patrimônio cultural é dinâmico, reconhecendo não apenas o aspecto natural, mas também os sentidos, memórias e identidades que os grupos atribuem aos lugares.”
(IPHAN, 2010)

Da natureza à paisagem: uma construção estética

Para Simmel, a natureza é uma “cadeia sem fim de formas em transformação”. Já a paisagem é o resultado de um ato de síntese do olhar humano, que unifica os elementos dispersos da natureza em uma experiência significativa.

A paisagem, portanto, não existe por si só: ela é construída pela percepção. É uma invenção cultural, ligada à capacidade humana de atribuir sentido e emoção ao espaço. A pintura teve papel fundamental nesse processo: artistas do Renascimento e do Barroco, como Pieter Bruegel, transformaram o território em imagem, e a Terra passou a ser vista como espetáculo contemplado.

Ao mesmo tempo, geógrafos como Augustin Berque e Jean-Marc Besse mostram que a paisagem é tanto uma realidade física quanto simbólica: ela se forma entre o mundo natural e o mundo humano, entre matéria e cultura.

Paisagem e modernidade: o distanciamento da natureza

Com o avanço da modernidade e da urbanização, o homem se afasta da natureza, como um “divórcio”, nas palavras de Simmel. A natureza passa a ser explorada, transformada em objeto e mercadoria. Diante disso, a arte assume o papel de resgatar a essência perdida da natureza, recriando-a no campo sensível e simbólico.

No século XIX, com o Romantismo e o desenvolvimento da pintura de paisagem, a natureza volta a ser vista como refúgio espiritual. Artistas como Caspar David Friedrich traduzem esse novo sentimento de comunhão estética entre sujeito e mundo. Já no século XX, movimentos como a Land Art e a Art in Nature levaram a paisagem para fora dos museus, propondo uma interação direta com a Terra, como nas obras de Robert Smithson e Andy Goldsworthy, que tratam o ambiente como matéria viva e transformadora.

A paisagem na arte e na arquitetura contemporânea

O conceito de paisagem também se expande para a arquitetura e o urbanismo. Jardins renascentistas, parques públicos e intervenções ecológicas transformaram o modo como a sociedade habita o espaço. No Brasil, artistas e paisagistas como Roberto Burle Marx e Fernando Chacel incorporaram a biodiversidade e o ecossistema nativo como forma de expressão artística e ambiental.

Burle Marx via o paisagismo como arte total, uma pintura tridimensional viva, enquanto Chacel propôs o conceito de ecogênese, recriando ecossistemas originais em áreas degradadas. Ambos reforçam a ideia de que arte e paisagem são indissociáveis e de que o olhar estético pode ser também uma prática ecológica.

Uma leitura fenomenológica: paisagem como relação

A fenomenologia, especialmente a de Merleau-Ponty e Husserl, ajuda a compreender a paisagem como relação entre sujeito e mundo. Não se trata apenas de observar um cenário, mas de estar dentro dele, de perceber-se parte do mesmo. Assim, cada paisagem é também uma construção afetiva e coletiva, aquilo que os gregos chamavam de genius loci, o espírito do lugar.

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Ver a paisagem é, portanto, habitar o mundo sensivelmente, reconhecendo que cada gesto humano transforma e é transformado pelo ambiente.

Na História da Arte, a paisagem é um espelho do pensamento humano: revela a forma como cada época enxerga sua relação com a Terra. De espaço sagrado a recurso produtivo, de cenário pictórico a campo de experimentação ecológica, a paisagem permanece como instância estética e política, onde se cruzam arte, filosofia e natureza.

Compreender o que é paisagem é entender que não olhamos apenas o mundo, o mundo também nos olha. E é nesse encontro que nasce a arte.

Linha do tempo conceitual da paisagem

PeríodoCompreensão da paisagemFonte principal
Antiguidade e Idade MédiaNatureza como criação divina, indivisível do todo cósmico. Não há ainda o conceito de “paisagem”.ARAÚJO, 2018
RenascimentoO olhar humano se separa da natureza. Surge a ideia de contemplação estética: o mundo se torna imagem.ARAÚJO, 2018
ModernidadeA paisagem se torna representação artística e símbolo cultural. O homem observa a natureza à distância.ARAÚJO, 2018
ContemporaneidadeA paisagem é vista como mediação entre natureza e cultura, espaço de memória, identidade e valor simbólico.IPHAN, 2010

Citações:

ARAÚJO, Andreia Maria Bezerra de. Paisagem e arte: uma relação indivisível. Paisagem e Ambiente: Ensaios, n. 41, p. 59-82, São Paulo: FAU-USP, 2018.

“Falar sobre paisagem se mostra polêmico na medida em que se busca uma definição para o termo ‘paisagem’. Sob a perspectiva geográfica, a paisagem acontece sobre um suporte biofísico e é influenciada por fatores geomorfológicos e climáticos, responsáveis por sua conformação ao longo do tempo.”

“Em suma, quando a natureza serve apenas a um fim utilitário, não contemplativo, deixa de ser paisagem. Para tal, é preciso que o olhar se volte à sua contemplação […]. Tudo se torna belo, grande, sublime, se torna objeto estético, paisagem.”

“A paisagem acontece ‘entre’ sujeito e objeto, a mediação entre o homem e o ambiente.”

“Pudemos ver que a natureza participa integralmente da concepção da paisagem, e que esta, enquanto local de contemplação, reflete as ações do homem baseadas nas motivações e influências da sociedade, do momento em que se vive.”

“A paisagem reflete uma relação íntima com a arte, pois é através da mediação estética da natureza, ou seja, pela arte, que surge o sentimento da paisagem.”

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Paisagem. In: ______. Dicionário do Patrimônio Cultural. Brasília: IPHAN, 2010. Disponível em: https://portal.iphan.gov.br. Acesso em: 5 out. 2025.

“A paisagem é o resultado da interação entre a natureza e a cultura, expressa nos modos de vida, nas transformações do território e nos valores atribuídos pelos grupos humanos.”

“O conceito de paisagem no campo do patrimônio cultural é dinâmico, reconhecendo não apenas o aspecto natural, mas também os sentidos, memórias e identidades que os grupos atribuem aos lugares.”

“As paisagens culturais revelam a interdependência entre a ação humana e o meio natural, configurando-se como testemunhos materiais e imateriais das relações entre sociedade e território.”

“A paisagem deve ser entendida como construção cultural e simbólica, expressão das relações históricas entre o homem e o espaço.”

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