Differencing the Canon, de Griselda Pollock: o feminismo e a reescrita da história da arte

Publicado em 1999, Differencing the Canon: Feminist Desire and the Writing of Art’s Histories é uma das obras mais influentes da historiadora e teórica britânica Griselda Pollock, referência nos estudos feministas da arte. O livro propõe uma profunda reconfiguração da história da arte ocidental ao questionar o próprio conceito de cânone – o conjunto de artistas e obras consagrados como universais – e ao propor a ação de differencing, isto é, diferenciar ativamente o cânone, em vez de simplesmente substituí-lo ou rejeitá-lo.

Pollock inicia afirmando que “feminist art history is an oxymoron”, pois o feminismo se encontra estruturalmente fora da história da arte tradicional, como uma disciplina fundada em lógicas patriarcais. Essa “posição de alteridade” é, no entanto, estratégica: o olhar feminista, situado de outro lugar, torna-se capaz de desestabilizar as oposições binárias (homem/mulher, centro/periferia, norma/diferença) que estruturam o discurso histórico. O título em forma verbal, Differencing the Canon, destaca essa ação contínua de reinterpretação: trata-se de ler e reescrever o que foi autorizado como visível, revelando o que foi reprimido, mas que ainda estrutura o campo da representação.

Pollock utiliza a psicanálise, o marxismo e a desconstrução para analisar as “mitologias” que sustentam o cânone artístico, especialmente o mito do “grande homem gênio”. Segundo a autora, o poder do cânone não é apenas institucional ou social, mas também psico-simbólico, sustentado pelo prazer e pelo desejo que a cultura patriarcal investe em seus heróis e narrativas.

O livro é dividido em três partes principais: Firing the Canon, Reading Against the Grain e Heroines.

1. Firing the Canon

A primeira parte de Differencing the Canon, intitulada “Firing the Canon”, estabelece o eixo teórico e político de todo o livro. Nela, Griselda Pollock formula a crítica mais radical à estrutura da história da arte ocidental e ao modo como o cânone foi historicamente constituído como um regime de exclusão. A autora argumenta que o cânone não é um simples conjunto de obras legitimadas pelo tempo, mas um sistema simbólico de poder, sustentado por uma economia do desejo e pela produção reiterada de figuras masculinas de autoridade, o “gênio”, o “mestre”, o “criador”. O título da seção carrega um duplo sentido: firing tanto significa “atirar” quanto “incendiar” o cânone. Essa ambiguidade define a estratégia feminista proposta por Pollock: não se trata de apagar o cânone, mas de intervir nele criticamente, expondo suas bases ideológicas e abrindo fissuras para outras leituras possíveis.

Pollock parte do princípio de que o feminismo não está “fora” da história da arte, mas posicionado nas margens do seu discurso, operando a partir de um “olhar de outro lugar”. Essa ideia é central em seu pensamento: o feminismo não busca apenas incluir mulheres na narrativa, mas desestabilizar o próprio modo como essa narrativa é construída. Ao recorrer à teoria psicanalítica e à desconstrução derridiana, Pollock mostra que o cânone é sustentado por um conjunto de fantasias e identificações narcisistas que organizam o prazer estético e a autoridade crítica. O “olhar masculino” (male gaze), teorizado por Laura Mulvey e expandido por Pollock, é entendido aqui como uma estrutura cultural que define o que pode ser visto e o que permanece invisível. Assim, “Firing the Canon” propõe que o feminismo aja como uma força disruptiva que interrompe esse circuito de legitimação e cria novos modos de visibilidade.

Outro ponto essencial desenvolvido nessa parte é o diálogo entre feminismo e psicanálise. Pollock recorre a Freud, Lacan e Kristeva para mostrar como as noções de desejo, diferença e inconsciente moldam tanto a criação artística quanto a recepção da arte. A autora destaca que o “cânone” não é apenas um fenômeno institucional, mas também psíquico: ele opera através de identificações afetivas, do desejo de pertencimento e da idealização de figuras paternas simbólicas. Nesse sentido, “atirar contra o cânone” implica desarticular seus mecanismos de prazer e de investimento libidinal, deslocando o sujeito espectador e o sujeito historiador da arte de suas posições de conforto. O feminismo, então, atua como uma força de desidentificação, tornando visíveis as tensões e repressões que sustentam o campo da arte ocidental.

Por fim, “Firing the Canon” estabelece a noção de “differencing” como método: um gesto ativo e contínuo de ler o cânone contra si mesmo, revelando suas contradições e reescrevendo seus limites. Pollock insiste que o feminismo não deve buscar substituições, como trocar artistas homens por mulheres, mas transformações epistemológicas. O objetivo é alterar as condições de produção de conhecimento, questionando quem fala, de onde fala e com que desejos escreve a história da arte. Essa primeira parte, portanto, não apenas define o enquadramento conceitual do livro, mas também propõe um novo modo de operar a crítica: o feminismo como uma prática de leitura insurgente, capaz de incendiar o cânone e, a partir de suas cinzas, reinventar o que entendemos por história, arte e sujeito.

2. Reading Against the Grain

A segunda parte de Differencing the Canon, intitulada “Reading Against the Grain”, representa o momento em que Griselda Pollock aplica, de forma concreta, o gesto crítico proposto na seção anterior. Se em “Firing the Canon” o foco recai sobre as estruturas simbólicas e ideológicas que sustentam o cânone, aqui Pollock se volta para a leitura de obras específicas, sobretudo de artistas homens consagrados como Vincent van Gogh, Toulouse-Lautrec e Édouard Manet, a fim de demonstrar como a diferença sexual, o desejo e a fantasia moldam tanto o ato de criar quanto o modo de interpretar. A expressão “ler contra o grão” (reading against the grain) deriva do método desconstrutivo e indica uma leitura que resiste ao fluxo dominante do discurso, revelando aquilo que o texto ou a imagem tentam ocultar. Pollock propõe que o olhar feminista se situe nesse ponto de fricção, escavando as camadas inconscientes da história da arte para revelar seus mecanismos de exclusão e fetichização.

Ao analisar as representações femininas na pintura moderna, Pollock mostra que o modernismo, frequentemente exaltado como sinônimo de liberdade e inovação, está profundamente enraizado em fantasias masculinas sobre o corpo feminino. Em Van Gogh, por exemplo, ela identifica a figura da mulher como mediadora simbólica entre a criação e a destruição, o desejo e a angústia, a produção e a loucura, uma construção psíquica que revela mais sobre a subjetividade masculina do que sobre o feminino representado. Toulouse-Lautrec, por sua vez, é lido à luz da ambiguidade entre voyeurismo e empatia: suas imagens do cabaré e das trabalhadoras do sexo expõem a tensão entre o desejo de olhar e a impossibilidade de compreender o outro. Ao “ler contra o grão”, Pollock desmonta o mito do artista moderno como sujeito autônomo, revelando o quanto seu olhar é moldado por ansiedades de gênero e pulsões inconscientes.

Pollock também dedica atenção à leitura psicanalítica do corpo materno na formação da subjetividade artística. Inspirando-se em Freud e Kristeva, ela propõe que o modernismo se estrutura sobre a repressão simbólica da mãe, vista como ameaça à identidade masculina e à integridade do sujeito criador. A figura materna torna-se um fantasma que assombra o espaço da arte moderna: sempre presente, mas constantemente silenciada ou deslocada. Em Manet, especialmente na análise de Olympia, Pollock evidencia como a sexualidade e o poder colonial se entrelaçam na construção da diferença. A presença de Laure, a mulher negra retratada como serva, é interpretada como o ponto cego do olhar europeu, o corpo racializado que sustenta a visibilidade da mulher branca, mas permanece invisível enquanto sujeito.

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3. Heroines

A terceira parte de Differencing the Canon, intitulada “Heroines”, marca um deslocamento significativo na estrutura do livro de Griselda Pollock. Depois de incendiar o cânone e ler contra o grão, a autora se volta à relação entre o feminismo e a construção das próprias narrativas sobre as mulheres artistas. O título, no plural, já anuncia a tensão central desta seção: a figura da “heroína” é, para Pollock, tanto uma conquista quanto um risco. Se, por um lado, o feminismo foi responsável por trazer à luz nomes e trajetórias de mulheres esquecidas pela historiografia, por outro, esse mesmo movimento pode reproduzir a lógica canônica que pretendia subverter, transformando essas artistas em novos mitos isolados. Pollock propõe, então, um exercício de autocrítica dentro da própria história da arte feminista: como narrar a diferença sem torná-la uma exceção?

O ponto de partida de Pollock é a constatação de que a historiografia feminista da arte dos anos 1970 e 1980, embora revolucionária, operava muitas vezes em um modelo de “ressurreição”, como se bastasse recuperar nomes de mulheres e incluí-los na narrativa existente. Esse gesto, embora necessário, ainda permanecia preso a uma lógica patriarcal de consagração individual e genialidade. Em “Heroines”, Pollock desafia essa abordagem e propõe uma crítica às estratégias de canonização que transformam certas mulheres artistas em símbolos, descolando-as de seus contextos históricos, afetivos e sociais. O problema, segundo ela, não está em reconhecer o valor dessas artistas, mas em fetichizar suas trajetórias, transformando-as em emblemas de resistência que acabam reafirmando o mesmo modelo heroico masculino, agora revestido de um discurso emancipatório.

Entre os casos mais emblemáticos analisados está o de Artemisia Gentileschi, artista italiana do século XVII que se tornou ícone do feminismo nos anos 1970, sobretudo após a redescoberta de sua obra Judite decapitando Holofernes. Pollock reconhece a importância dessa revalorização, mas alerta para o risco de reduzir Gentileschi a uma “heroína da vingança”, uma mulher que teria sublimado, na arte, a violência sexual sofrida em sua juventude. Para Pollock, essa leitura projetiva revela mais sobre o desejo do feminismo moderno de encontrar figuras exemplares do que sobre a complexidade histórica e simbólica da artista. Gentileschi não é uma simples vítima transformada em gênio vingador, mas uma produtora de imagens situada em uma cultura visual barroca, cujas convenções, mitos e códigos de gênero exigem leitura atenta e contextualizada. A autora propõe que olhar para Artemisia é olhar para o próprio desejo feminista de reparação, e que a tarefa crítica deve ser compreender, antes de tudo, como se constrói essa necessidade de identificação.

Outro exemplo abordado por Pollock é o de Mary Cassatt, pintora impressionista norte-americana, cuja obra frequentemente é lida como representação idealizada da domesticidade e da maternidade. Pollock propõe uma interpretação mais complexa, argumentando que Cassatt produziu uma reflexão visual sofisticada sobre o espaço do feminino e a economia afetiva da modernidade. Suas cenas de mães e filhos não são simples exaltações do lar, mas composições que exploram o olhar feminino como experiência relacional. Em contraste com o olhar masculino objetificante, o ponto de vista de Cassatt constrói intimidades e subjetividades compartilhadas. Ao revisitar Cassatt, Pollock demonstra que o gesto feminista não é apenas “corrigir” a leitura anterior, mas inscrever outras formas de percepção, revelando que a obra de uma mulher pode conter modos de ver e sentir que escapam à lógica dominante do olhar patriarcal.

Pollock também examina a necessidade de repensar os próprios instrumentos da história da arte quando se trata de ler mulheres artistas. Ela questiona os modelos de análise baseados em categorias como estilo, influência e desenvolvimento individual, argumentando que essas noções foram moldadas por paradigmas masculinos de subjetividade e autoria. O feminismo, para ela, precisa inventar novas linguagens críticas, capazes de pensar a interdependência, a coletividade e o inconsciente histórico da criação artística. Em “Heroines”, a autora sugere que o verdadeiro desafio está em produzir histórias sem heróis, narrativas que não dependam da figura excepcional, mas que deem conta dos processos compartilhados e das redes invisíveis que sustentam a produção cultural. Essa proposta ecoa a ideia de que o feminismo é menos uma teoria sobre as mulheres e mais um modo de pensar a diferença como relação, e não como identidade fixa.

Nos capítulos finais dessa parte, Pollock amplia o conceito de “heroína” para além das mulheres artistas e o aproxima da figura da leitora feminista. Ao propor o termo “feminist desire”, ela reconhece que o ato de buscar e interpretar essas mulheres é também um movimento de desejo, o desejo de encontrar modelos, genealogias e continuidades em meio à história da exclusão. No entanto, esse desejo deve ser constantemente examinado, pois ele corre o risco de capturar o feminismo dentro das mesmas estruturas de poder que pretende romper. A verdadeira força de Heroines está em revelar que a diferença não é um ponto de chegada, mas um campo de tensão contínuo entre o que se quer ver e o que se pode saber.

Diferença, desejo e interseccionalidade

Pollock amplia o debate ao incorporar as reflexões de Gayatri Spivak sobre a alteridade e o pós-colonialismo, perguntando “Quem é a outra mulher?”. A autora argumenta que não há uma única experiência feminina universal: as diferenças entre mulheres – marcadas por raça, classe e cultura – também estruturam o campo da arte. Esse olhar interseccional aparece especialmente na análise de Manet e na releitura da figura de Laure, a mulher negra em Olympia, que Pollock interpreta como o ponto cego da história da arte moderna, onde se cruzam sexualidade, colonialismo e representação racial.

Pós-modernidade e o gesto de “differencing”

O livro culmina com a análise da artista contemporânea Lubaina Himid, cuja série Revenge é vista como um gesto ativo de “vingança” contra o cânone colonial. Himid reescreve visualmente a história, introduzindo narrativas diaspóricas e descoloniais que confrontam o legado da arte europeia. Pollock interpreta essa prática como o exemplo de um differencing efetivo: uma ação crítica e criativa que desmonta e reinscreve as hierarquias simbólicas do Ocidente.

Além dessas três partes centrais, o livro inclui interlúdios teóricos e ensaios que funcionam como zonas de transição, em que Pollock articula debates sobre pós-colonialismo, raça, sexualidade e diferença cultural. Textos como suas leituras sobre Laure, a mulher negra de “Olympia”, e sobre Lubaina Himid introduzem a dimensão interseccional e diaspórica na discussão sobre o cânone. Assim, Differencing the Canon não apenas aborda a diferença sexual, mas também racial e geopolítica, revelando como o olhar europeu e masculino constituiu-se a partir da exclusão e da fetichização do outro. O gesto de differencing é expandido para o campo da política cultural global, onde a reescrita do cânone implica repensar as hierarquias coloniais e epistemológicas da arte ocidental.

Ao longo do livro, Pollock combina crítica institucional, teoria feminista e análise iconográfica em um movimento espiralado: ela retorna constantemente aos mesmos problemas (o desejo, o olhar, o sujeito e a representação), mas de posições cada vez mais deslocadas. A estrutura não é linear nem conclusiva, pois o próprio feminismo é entendido como uma prática de leitura contínua, sempre em processo. Differencing the Canon é, portanto, uma construção aberta, que se move entre a história da arte e sua desconstrução. A cada parte, Pollock reafirma que a escrita feminista da história da arte não busca fechar o passado, mas abrir o campo para novas formas de ver, pensar e desejar, como um exercício de crítica permanente sobre os modos como o poder se inscreve nas imagens e nas narrativas que as sustentam.

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