A inserção de mulheres no sistema artístico tem sido marcada por mecanismos sutis e persistentes de exclusão. Embora o discurso da igualdade de gênero tenha ganhado espaço nas últimas décadas, o mercado da arte ainda opera com dinâmicas estruturais que dificultam o reconhecimento pleno da produção feminina. Ana Paula Simioni, em sua análise crítica sobre esse cenário, propõe uma leitura das “tramas da visibilidade” que envolvem artistas mulheres no campo artístico contemporâneo.
A autora parte da constatação de que o crescimento do número de mulheres nas escolas de arte e nos circuitos formativos não se traduz, proporcionalmente, em visibilidade nas instâncias de legitimação, como galerias comerciais, coleções institucionais e exposições de prestígio. A questão não é de ausência de produção, mas de como essa produção é recebida, categorizada e valorizada. Muitas artistas enfrentam um enquadramento simbólico que restringe o alcance de suas obras ou as vincula a estereótipos temáticos associados ao feminino.
Um dos pontos centrais do texto é a crítica ao uso da categoria “arte feminina”, que historicamente operou como estratégia de diferenciação e de confinamento. Ainda que tenha sido importante para dar visibilidade a práticas marginalizadas, essa classificação também pode reforçar a ideia de que a produção feita por mulheres pertence a um nicho específico e separado do “grande cânone” da história da arte. A autora propõe, portanto, uma análise que leve em conta as disputas por legitimidade, mas que não se limite a reproduzir categorias já problematizadas.
A relação com o mercado é abordada como uma dimensão fundamental dessa discussão. Simioni observa que, apesar do crescente número de mulheres nas feiras e nas vendas de obras, os valores atribuídos às suas produções continuam, em média, inferiores aos dos artistas homens. Além disso, a inclusão de mulheres em coleções muitas vezes se dá de maneira pontual e não altera estruturalmente os critérios de seleção. Isso reforça o caráter simbólico das “presenças femininas”, mais próximas de gestos curatoriais de reparação do que de uma transformação real nas políticas institucionais.
Outro aspecto relevante do texto é a análise dos efeitos do neoliberalismo no campo da arte. A autora destaca que a lógica do empreendedorismo artístico, que estimula a autopromoção e a gestão individual da carreira, tende a favorecer sujeitos historicamente autorizados a ocupar os espaços centrais do sistema, geralmente homens brancos, de classe média alta, com acesso a redes de poder e capital simbólico. Nesse contexto, mulheres artistas enfrentam a sobrecarga de desempenhar múltiplos papéis ao mesmo tempo em que precisam construir trajetórias consistentes em um campo competitivo e opaco.
A reflexão final do texto aponta para a necessidade de tensionar os modos de funcionamento do sistema da arte e de repensar as estruturas de legitimação. Isso não se faz apenas por meio da ampliação quantitativa da presença de mulheres, mas pela reconfiguração dos próprios parâmetros que definem o que é visto, valorizado e transmitido como arte.
Exemplos históricos
A desigualdade de gênero no sistema das artes visuais não é recente. No Brasil, artistas como Abigail de Andrade, no século XIX, enfrentaram resistência por atuarem em um campo dominado por homens e por abordarem temas do cotidiano feminino em suas obras. No século XX, Lygia Clark e Mira Schendel, apesar de terem sido posteriormente canonizadas, não alcanaram o mesmo reconhecimento que seus colegas homens durante grande parte de suas trajetórias.
Movimentos feministas dos anos 1970 também desempenharam papel importante na visibilização de artistas mulheres, tanto no Brasil quanto em circuitos internacionais. Grupos como o Coletivo Guerrilla Girls, nos Estados Unidos, revelaram estatísticas contundentes sobre a sub-representação feminina em museus, exposições e prêmios, articulando ativismo político e crítica institucional.
Dados de mercado
Estudos recentes apontam que, mesmo com o aumento de mulheres no mercado de arte, a desigualdade de preços e representação permanece significativa:
- De acordo com um levantamento da Art Basel e da UBS (2022), apenas 5% do valor total das vendas em leilões de arte moderna e contemporânea corresponde a obras de mulheres.
- No Brasil, um estudo realizado pelo projeto Narrativas e Vozes Femininas nas Artes Visuais (2021) revelou que as mulheres representavam cerca de 20% das exposições individuais realizadas nas principais instituições públicas entre 2010 e 2020.
- Em feiras como a SP-Arte, a presença de artistas mulheres nas galerias tem aumentado, mas frequentemente com menor destaque e menor valor de mercado por obra.
Esses dados reforçam a crítica de Simioni à forma como a presença feminina é incorporada ao sistema. Não como revisão estrutural, mas como adição pontual que mantém os critérios e hierarquias originais intactos.

