Moda foi feita para ser vestida, não contemplada. Essa frase, repetida em críticas e salas de aula, expõe um dilema que museus ao redor do mundo enfrentam: como expor a moda? Ao transformar uma peça de roupa em objeto museológico, algo muda. Ela deixa de estar em movimento, no corpo, no cotidiano e passa a habitar o silêncio das vitrines, entre placas explicativas, iluminação controlada e vitrines de vidro. Mas será que esse é o lugar ideal para a moda? Quais são os desafios técnicos, curatoriais e simbólicos de transformar vestuário em patrimônio?
Uma das primeiras questões ao se pensar em moda no museu é: estamos lidando com uma peça de vestuário ou com uma obra de arte? Durante muito tempo, a moda foi vista como algo inferior no universo das exposições, do “valor eterno” da arte. Peças de roupa raramente habitavam museus a não ser como parte de coleções de design, figurino, etnografia ou artes decorativas.
A partir das décadas de 1980 e 1990, grandes instituições passaram a dedicar exposições inteiras à moda, o Costume Institute do Metropolitan Museum de Nova York, o Victoria and Albert Museum em Londres, ou mais recentemente, a Tate Modern, com mostras como Sargent and Fashion. Ainda assim, persiste o dilema: quando uma roupa entra no museu, ela é arte ou é objeto? Criação estética ou fetiche de consumo? A resposta varia a cada curadoria.
Roupa viva ou peça de acervo?
Outro impasse é que o vestuário deveria ser feito para o corpo e não para o pedestal. Moda é corpo em movimento, é performance cotidiana, é ação. Ao ser retirada desse contexto e isolada numa vitrine, perde-se algo essencial: o gesto de vestir, o andar, o ruído do tecido em contato com o mundo. E há ainda a questão do uso, pois muitas peças que entram para o acervo museológico nunca foram usadas de fato. Saíram direto da passarela para a redoma. Ou então foram vestidas uma única vez por uma celebridade ou modelo e, por isso mesmo, ganharam “valor de museu”.
Isso levanta uma pergunta importante: o que diferencia uma peça de museu de uma peça de guarda-roupa? O que percebemos é que nem sempre é a qualidade técnica, nem o conforto, nem a história de uso. Muitas vezes é a raridade, o nome do designer, a carga simbólica associada à marca ou à ocasião. A lógica do valor simbólico se sobrepõe à do uso.
Valor simbólico: o que torna uma roupa “digna” de museu?
Por fim, a pergunta talvez mais incômoda: por que algumas roupas vão parar em museus enquanto outras, tão potentes, permanecem invisíveis? Não é apenas o valor monetário que determina isso, embora ele tenha peso. É o sistema de legitimação: quem assinou a peça, quem usou, em que contexto foi vista. Uma jaqueta de Billie Eilish pode ser preservada como ícone cultural, enquanto uma roupa usada por uma trabalhadora anônima nos anos 1980 desaparece sem deixar vestígios.
O museu, como qualquer instituição, opera dentro de uma lógica de poder. Expor moda é também selecionar o que vale ser lembrado e o que será esquecido. Por isso, cada exposição de moda é também um gesto político.
Conservação: o lado invisível da exposição
Conservar moda em museus é um trabalho minucioso e altamente técnico. Roupas são frágeis, suscetíveis à luz, à umidade, ao calor, ao toque. Tecidos como seda, algodão, tule ou lã podem amarelar, ressecar, perder forma ou atrair fungos e insetos. Por isso, é comum que exposições de moda usem iluminação especial, com baixa intensidade de luz e filtros UV. A temperatura e a umidade do ambiente precisam ser controladas com precisão, geralmente entre 18º e 21ºC, com umidade relativa do ar em torno de 50%.
Algumas peças precisam de redomas, vitrines climatizadas ou suportes acolchoados para manter sua forma. Outras são expostas por tempo limitado, sendo depois armazenadas em caixas neutras ou arquivos planos. Tudo isso faz parte de um sistema complexo de conservação preventiva que é invisível ao visitante, mas essencial para a longevidade da peça.
Expografia: vestir sem corpo
Expor uma peça de roupa sem corpo é um desafio expográfico. Os suportes são muitos: manequins, cabides, estruturas suspensas, etc. Outras decisões são envolvidas, como mostrar a peça aberta, fechada, de frente, de costas. Cada escolha traz uma leitura.
O uso de manequins é comum, mas pode levantar questões, se eles devem imitar a forma humana real ou serem neutros. Além disso, é necessário cuidar para evitar padronizações e reforços estéticos excludentes.
Outras opções incluem vitrines suspensas, estruturas que revelam o avesso da peça, instalações com projeções, fotos, vídeos ou trilhas sonoras. Tudo depende do objetivo da curadoria: seja mostrar a técnica, evocar um tempo, criar uma experiência imersiva. A arquitetura da exposição, o ritmo da visita, os textos de parede e a cenografia são partes do discurso.
Expor moda em museus é muito mais do que vestir manequins. É lidar com tensões entre uso e contemplação, efemeridade e permanência, corpo e objeto. É cuidar de materiais frágeis enquanto se conta uma história potente. É, acima de tudo, decidir o que queremos guardar e como queremos olhar para aquilo que já vestimos, ou que poderíamos vestir. E talvez o maior desafio de expor moda seja este: fazer o público sentir que, por trás do tecido, existe sempre uma pessoa, um tempo, um mundo.

