O livro Conexões: Ensaios em História da Arte, organizado por Maria Berbara, Roberto Conduru e Vera Beatriz Siqueira, dentro do programa de Pós-graduação de História da Arte da UERJ, propõe um enfrentamento crítico à maneira como a história da arte é tradicionalmente escrita e ensinada. O livro busca problematizar os métodos e objetos tradicionais da disciplina e apresentar caminhos alternativos baseados em fluxos culturais, trânsitos e paralelismos.
A coletânea é composta por ensaios que se organizam a partir de dois eixos centrais: os trânsitos e os paralelos. Os textos reunidos sob o eixo dos trânsitos se dedicam à análise de deslocamentos de pessoas, imagens, símbolos e ideias no tempo e no espaço, revelando como essas movimentações impactam as construções historiográficas e os modos de ver e fazer arte. Já os ensaios agrupados sob o eixo dos paralelos propõem aproximações entre distintos contextos culturais e temporais, evidenciando tanto similitudes quanto contrastes.
Um dos objetivos centrais do livro é desconstruir a lógica centro-periferia que ainda predomina na historiografia artística, sobretudo aquela baseada em modelos eurocêntricos. Para isso, os autores se debruçam sobre casos específicos da história da arte no Brasil e em outras regiões, elaborando uma abordagem mais permeável, sensível às heterogeneidades culturais e às multiplicidades temporais. O conceito de “história da arte mundial” aparece, portanto, como uma provocação que guia as investigações reunidas no volume.
Outro aspecto importante da obra é seu caráter interdisciplinar. Os ensaios dialogam com áreas como a antropologia, a semiótica, os estudos culturais, a crítica literária e a estética, explorando também a vitalidade dos objetos e imagens analisadas. A diversidade metodológica e temática dos textos reflete um compromisso com a construção de uma história da arte situada, crítica e aberta à complexidade do mundo contemporâneo.
Por fim, Conexões inclui ainda verbetes elaborados por estudantes e egressos de cursos de graduação e pós-graduação, que funcionam como extensões dos ensaios principais ou como propostas autônomas. A obra se conclui com um posfácio de Roberto Corrêa dos Santos, reafirmando o caráter coletivo, investigativo e em movimento do projeto. A ausência de imagens, compensada por intervenções visuais de Cezar Bartholomeu, reforça a proposta editorial de priorizar a reflexão crítica sobre a reprodução visual.
Resumos dos Ensaios
Reflexões sobre história da arte mundial
Thomas Da Costa Kaufmann
O autor examina os desafios e possibilidades de uma história da arte global, reconhecendo o crescimento do interesse internacional pelo tema e a insuficiência dos modelos tradicionais centrados na Europa. Ele propõe que uma história da arte verdadeiramente mundial exige o reconhecimento de múltiplas temporalidades (heterocronicidade), a superação do eurocentrismo e o enfrentamento das dificuldades teóricas de se criar uma narrativa abrangente sem cair em generalizações. Kaufmann ainda discute a possibilidade de narrativas múltiplas e contextualizadas, em oposição a uma única história universalizante.
Encruzilhadas – afro-brasilidade, história da arte, mundialização
Roberto Conduru
Conduru aborda o conceito de encruzilhada como metáfora para as intersecções culturais entre África, Brasil e arte. Ele defende a necessidade de rever os princípios historiográficos a partir de uma perspectiva afro-brasileira, que articule múltiplas tradições, práticas e saberes. A encruzilhada surge como um espaço simbólico e real de trânsitos, onde se articulam distintas formas de fazer, colecionar, ensinar e pensar a arte.
Índios no salão: representação étnica na escultura do século XIX
Paulo Knauss
Knauss analisa a escultura de D. Pedro I e suas figuras indígenas, debatendo os modos como os povos originários foram representados no século XIX. Ele mostra como essas imagens condensam tensões entre nacionalismo romântico e modelos etnográficos europeus, revelando um trânsito simbólico entre a construção de uma identidade nacional e os discursos coloniais sobre o “outro”.
Arte e exílio: a cultura brasileira como lugar de refúgio
Rafael Cardoso
O autor explora a ideia de exílio como chave para repensar a arte brasileira, não apenas a partir dos artistas que se deslocam, mas também como um modo de pensar o Brasil como espaço de recepção, adaptação e criação. Cardoso analisa diferentes trajetórias e obras que evidenciam a fricção entre pertencimento e deslocamento.
Entre aqui e lá: pontos de fuga
Raphael Fonseca
Fonseca investiga artistas que operam a partir do deslocamento e da apropriação de referências culturais distintas. O autor defende que as narrativas críticas devem acompanhar esse movimento, assumindo também uma postura transitiva, capaz de redesenhar o mapa da história da arte com base nas trocas e contaminações culturais.
Nós e os outros: a imagem dos trópicos nos diálogos culturais
Vera Beatriz Siqueira
Siqueira reflete sobre a construção visual dos trópicos a partir dos encontros (e choques) entre metrópole e colônia. A autora analisa imagens que condensam tensões simbólicas, raciais e políticas, evidenciando como o olhar sobre os trópicos é moldado por relações assimétricas de poder e circulação de representações.
Trânsito e impureza: São Cosme, São Damião, Ibeji, Doum
Tadeu Mourão Lopes
Lopes aborda a fusão simbólica dos santos Cosme e Damião com entidades do candomblé como Ibeji e Doum. O ensaio revela a complexa mistura de tradições religiosas e visuais, discutindo como essas figuras operam na cultura visual brasileira como imagens mestiças que desafiam categorizações puras.
O erotismo religioso entre iguais e sua representação na arte
Alexandre Santos
Santos analisa representações de homoerotismo com temática religiosa em diferentes contextos culturais e históricos. Ele explora imagens que articulam erotismo, espiritualidade e igualdade de gênero, apontando como essas representações rompem com normatividades religiosas e artísticas.
Sobre a concepção intelectual dos usos de cor e linha: Europa e a China
Bony Schacter e Maria Berbara
O ensaio compara concepções europeias e chinesas sobre cor e linha, mostrando como essas categorias operam de forma diversa em tradições culturais distintas. Os autores propõem que o paralelo entre essas abordagens pode iluminar modos de ver e pensar a arte que escapam ao olhar ocidental.
Representações botânicas e realidade
Carla Hermann
Hermann analisa imagens botânicas sob a perspectiva de sua pretensa objetividade científica. Ela mostra como essas representações envolvem escolhas estéticas e políticas, revelando os limites entre ciência, arte e construção da realidade.
Emanação / abjeção
Cezar Bartholomeu
O autor investiga a relação entre imagem e corpo, propondo uma leitura da arte como produção que emana do corpo e, ao mesmo tempo, lida com sua abjeção. A partir de imagens da cultura visual asiática, Bartholomeu explora a vitalidade das formas e seus efeitos sensoriais e simbólicos.
Formas e objetos primários: Mário Pedrosa e George Kubler
Patrícia Corrêa
Corrêa coloca em paralelo o pensamento de Pedrosa e Kubler sobre arte, tempo e forma. O texto destaca como ambos pensam a arte como um sistema de objetos que se transforma historicamente, mas sem perder de vista os gestos e estruturas primárias que organizam a experiência estética.
Imagem impressa: usos e impactos na arte e na cultura visual
Paula Ramos
Ramos analisa o papel da imagem impressa na configuração da cultura visual moderna. Ela mostra como as gravuras e reproduções impactam o olhar, a circulação de estilos e a difusão de ideias, e propõe uma reflexão sobre a permanência e transformação dessas imagens no imaginário contemporâneo.

