No livro Decolonizar o Museu de Françoise Vergès parte da constatação de que os museus modernos não podem ser compreendidos apenas como espaços de conservação e exibição de obras, mas como instituições que nasceram dentro do projeto colonial europeu. A autora mostra que, desde o século XVIII, quando os grandes museus começaram a se consolidar, a Europa expandia ao mesmo tempo o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas e a pilhagem de territórios colonizados. As coleções que hoje ornamentam vitrines e galerias foram, em grande parte, extraídas de seus contextos originais por meio da violência, da guerra e do saque. Nesse sentido, o museu deve ser entendido como um verdadeiro arquivo do saque colonial, onde se materializam e se perpetuam relações de poder, dominação e desigualdade histórica.
Ao longo do texto, Vergès enfatiza que o museu funciona como uma máquina pedagógica, responsável por produzir e legitimar uma história oficial. Mais do que apenas conservar, ele ensina ao público quem deve ser reconhecido como sujeito da história e quem deve ser reduzido a objeto de contemplação. Os objetos expostos são, nesse processo, descontextualizados de suas funções originais e reinscritos em uma narrativa eurocêntrica que os enquadra sob categorias arbitrárias como “arte”, “artefato” ou “curiosidade”. A própria arquitetura do museu, a maneira de organizar suas vitrines e a linguagem de seus catálogos reforçam hierarquias entre culturas e povos, naturalizando um olhar ocidental que se apresenta como universal.
Decolonizar o museu, portanto, não significa apenas acrescentar diversidade à programação ou convidar alguns artistas não ocidentais. Para Vergès, trata-se de um gesto de ruptura que exige repensar radicalmente o que é um museu, quais histórias ele conta e para quem. É necessário confrontar o universalismo proclamado pelas instituições ocidentais, revelando o quanto esse universalismo foi construído à custa do silenciamento e da marginalização de outros saberes. O gesto de decolonizar envolve imaginar novas formas de exibição e de cuidado com os objetos, que não reproduzam a lógica de dominação, mas que reconheçam a multiplicidade de cosmologias e temporalidades nas quais esses objetos foram produzidos.
Nesse horizonte, a questão da restituição das peças saqueadas às comunidades de origem ocupa lugar central. Vergès afirma que não se trata apenas de uma demanda burocrática ou de gestos simbólicos, mas de um verdadeiro processo de reparação histórica. Devolver implica reconhecer a violência do saque, repensar as relações de propriedade e abrir espaço para novas formas de relação com as comunidades espoliadas. A resistência dos museus em devolver tais peças evidencia que ainda se trata esses bens como propriedade exclusiva do Ocidente, guardiões de um capital cultural acumulado pela exploração colonial.
A autora também articula a crítica ao museu com o conceito de necropolítica, formulado por Achille Mbembe. Segundo esse conceito, os Estados coloniais administraram a morte e a destruição de populações inteiras, escolhendo quais vidas tinham valor e quais poderiam ser descartadas. O museu, ao silenciar sobre essa violência ou ao transformá-la em espetáculo estético, acaba participando dessa lógica necropolítica. Expor objetos arrancados de seu contexto sem reconhecer a violência que os trouxe até ali é converter dor e sofrimento em simples material de contemplação.
Por fim, Vergès sugere que os caminhos para uma decolonização real passam por práticas de desobediência museal e pela invenção de instituições que não reproduzam os moldes do museu europeu. Isso significa conceber espaços que não tratem os objetos como peças mortas, mas como elementos de uma memória viva, conectados a sistemas de vida, espiritualidade e conhecimento. Implica também estabelecer formas de co-criação com as comunidades cujos bens foram historicamente saqueados, compartilhando decisões sobre a conservação, a circulação e a exibição das obras. Decolonizar o museu, em última instância, é reconhecer que ele nunca foi neutro e que só poderá contribuir para a construção de futuros mais justos se assumir o seu papel na violência colonial e se abrir a outras formas de narrar, cuidar e lembrar.
Principais temas e conceitos em Decolonizar o Museu
Origem colonial dos museus
- Descrição: Os museus modernos surgem no século XVIII, no mesmo período em que a Europa expandia o tráfico transatlântico de escravizados e a colonização.
- Explicação: Muitos acervos foram formados por meio da pilhagem colonial, ou seja, a apropriação forçada de objetos e obras de povos dominados.
- Exemplo: Esculturas africanas, objetos sagrados ameríndios e artefatos asiáticos exibidos em museus europeus chegaram lá como resultado de guerras, saques e expedições coloniais.
Museu como máquina pedagógica
- Descrição: O museu não é neutro; ele ensina e molda uma visão de mundo.
- Explicação: A forma de expor, catalogar e narrar as coleções legitima uma história oficial, reforçando hierarquias entre culturas e apresentando o olhar europeu como universal.
- Exemplo: Objetos de sociedades não ocidentais são muitas vezes classificados como “artefatos” ou “curiosidades etnográficas”, enquanto obras europeias recebem o estatuto de “arte”.
Universalismo eurocêntrico
- Descrição: O museu apresenta o Ocidente como medida de todas as coisas.
- Explicação: A narrativa universalista se constrói silenciando outras histórias e impondo uma única perspectiva sobre o passado e a cultura.
- Exemplo: Exposições que contam a “história da civilização” como um percurso linear que culmina na Europa moderna.
Decolonialidade
- Descrição: Perspectiva crítica que busca romper com estruturas coloniais ainda presentes nas instituições e nos modos de pensar.
- Explicação: No caso dos museus, significa questionar o modelo de acervo, exibição e conservação que se baseia na lógica colonial de apropriação.
- Exemplo: Experimentos de museus comunitários ou decoloniais que devolvem protagonismo às comunidades de origem.
Pilhagem colonial
- Descrição: Apropriação violenta e sistemática de bens culturais de povos colonizados.
- Explicação: Essa prática não só esvaziou comunidades de seus objetos de valor espiritual e cultural, como também transformou esses bens em capital simbólico para os impérios coloniais.
- Exemplo: A pilhagem de obras no Egito e na Grécia Antiga durante o século XIX, muitas ainda mantidas no Museu Britânico.
Restituição e reparação
- Descrição: Processo de devolver objetos às comunidades de origem.
- Explicação: Mais do que gesto simbólico, é um ato de reparação histórica que reconhece a violência do saque e propõe novas relações entre museus e comunidades.
- Exemplo: A recente devolução pelo Museu do Quai Branly (França) de 26 obras saqueadas do Benim, em 2021.
Necropolítica
- Descrição: Conceito de Achille Mbembe que designa o poder de decidir quem deve viver e quem pode morrer.
- Explicação: O museu participa da necropolítica quando estetiza a violência colonial, transformando sofrimento em objetos de contemplação e apagando histórias de resistência.
- Exemplo: Exposição de objetos de comunidades dizimadas sem menção ao genocídio ou às condições em que foram retirados.
Memória viva
- Descrição: Visão de que objetos musealizados não são “peças mortas”, mas parte de sistemas vivos de conhecimento, espiritualidade e memória.
- Explicação: Decolonizar o museu implica reconhecer que esses objetos pertencem a cosmologias em movimento e que sua conservação não pode ser feita sem diálogo com as comunidades.
- Exemplo: Práticas indígenas e africanas que compreendem objetos como ancestrais ou entidades espirituais, e não apenas como bens materiais.
Desobediência museal
- Descrição: Práticas críticas que recusam a obediência ao modelo europeu de museu.
- Explicação: Pode incluir curadorias colaborativas, reinterpretações radicais de acervos ou até a criação de instituições alternativas.
- Exemplo: Museus comunitários na América Latina que organizam acervos de forma participativa, vinculados ao território e às demandas sociais locais.
Co-criação com comunidades
- Descrição: Compartilhar poder de decisão com comunidades cujos bens foram saqueados.
- Explicação: Envolve colaboração na definição de formas de exibição, circulação e conservação, rompendo com a lógica de posse unilateral do museu.
- Exemplo: Projetos em que comunidades africanas decidem sobre a devolução ou a exibição de objetos rituais em instituições ocidentais.
Principais temas e conceitos em Decolonizar o Museu
Origem colonial dos museus
- Descrição: Os museus modernos surgem no século XVIII, no mesmo período em que a Europa expandia o tráfico transatlântico de escravizados e a colonização.
- Explicação: Muitos acervos foram formados por meio da pilhagem colonial, ou seja, a apropriação forçada de objetos e obras de povos dominados.
- Exemplo: Esculturas africanas, objetos sagrados ameríndios e artefatos asiáticos exibidos em museus europeus chegaram lá como resultado de guerras, saques e expedições coloniais.
Museu como máquina pedagógica
- Descrição: O museu não é neutro; ele ensina e molda uma visão de mundo.
- Explicação: A forma de expor, catalogar e narrar as coleções legitima uma história oficial, reforçando hierarquias entre culturas e apresentando o olhar europeu como universal.
- Exemplo: Objetos de sociedades não ocidentais são muitas vezes classificados como “artefatos” ou “curiosidades etnográficas”, enquanto obras europeias recebem o estatuto de “arte”.
Universalismo eurocêntrico
- Descrição: O museu apresenta o Ocidente como medida de todas as coisas.
- Explicação: A narrativa universalista se constrói silenciando outras histórias e impondo uma única perspectiva sobre o passado e a cultura.
- Exemplo: Exposições que contam a “história da civilização” como um percurso linear que culmina na Europa moderna.
Decolonialidade
- Descrição: Perspectiva crítica que busca romper com estruturas coloniais ainda presentes nas instituições e nos modos de pensar.
- Explicação: No caso dos museus, significa questionar o modelo de acervo, exibição e conservação que se baseia na lógica colonial de apropriação.
- Exemplo: Experimentos de museus comunitários ou decoloniais que devolvem protagonismo às comunidades de origem.
Pilhagem colonial
- Descrição: Apropriação violenta e sistemática de bens culturais de povos colonizados.
- Explicação: Essa prática não só esvaziou comunidades de seus objetos de valor espiritual e cultural, como também transformou esses bens em capital simbólico para os impérios coloniais.
- Exemplo: A pilhagem de obras no Egito e na Grécia Antiga durante o século XIX, muitas ainda mantidas no Museu Britânico.
Restituição e reparação
- Descrição: Processo de devolver objetos às comunidades de origem.
- Explicação: Mais do que gesto simbólico, é um ato de reparação histórica que reconhece a violência do saque e propõe novas relações entre museus e comunidades.
- Exemplo: A recente devolução pelo Museu do Quai Branly (França) de 26 obras saqueadas do Benim, em 2021.
Necropolítica
- Descrição: Conceito de Achille Mbembe que designa o poder de decidir quem deve viver e quem pode morrer.
- Explicação: O museu participa da necropolítica quando estetiza a violência colonial, transformando sofrimento em objetos de contemplação e apagando histórias de resistência.
- Exemplo: Exposição de objetos de comunidades dizimadas sem menção ao genocídio ou às condições em que foram retirados.
Memória viva
- Descrição: Visão de que objetos musealizados não são “peças mortas”, mas parte de sistemas vivos de conhecimento, espiritualidade e memória.
- Explicação: Decolonizar o museu implica reconhecer que esses objetos pertencem a cosmologias em movimento e que sua conservação não pode ser feita sem diálogo com as comunidades.
- Exemplo: Práticas indígenas e africanas que compreendem objetos como ancestrais ou entidades espirituais, e não apenas como bens materiais.
Desobediência museal
- Descrição: Práticas críticas que recusam a obediência ao modelo europeu de museu.
- Explicação: Pode incluir curadorias colaborativas, reinterpretações radicais de acervos ou até a criação de instituições alternativas.
- Exemplo: Museus comunitários na América Latina que organizam acervos de forma participativa, vinculados ao território e às demandas sociais locais.
Co-criação com comunidades
- Descrição: Compartilhar poder de decisão com comunidades cujos bens foram saqueados.
- Explicação: Envolve colaboração na definição de formas de exibição, circulação e conservação, rompendo com a lógica de posse unilateral do museu.
- Exemplo: Projetos em que comunidades africanas decidem sobre a devolução ou a exibição de objetos rituais em instituições ocidentais.

