“Say it with—— —
Bolts!
Oh thunder!
Serpentine aircurrents—— —
Hhhhhphssssssss! The very word penetrates!
Elsa von Freytag-Loringhoven, “A Dozen Cocktails – Please”tradução livre:
“Diga com—— —
Parafusos!
Oh trovão!
Correntes de ar serpenteantes—— —
Hhhhhphssssssss! A própria palavra penetra!”
Elsa von Freytag-Loringhoven, “Uma dúzia de coquetéis – Por favor”Poucas figuras na história da arte foram tão provocadoras, visionárias e, por muito tempo, apagadas quanto Elsa von Freytag-Loringhoven. Poeta, escultora, performer e ícone do Dadaísmo, a baronesa alemã foi pioneira em práticas artísticas que hoje associamos ao ready-made, à performance feminista e à arte conceitual — e que, em sua época, a colocaram à margem do reconhecimento institucional.
Nascida Else Hildegard Plöetz, em 1874 na Prússia, Elsa levou uma vida marcada por rupturas, reinvenções e embates contra as normas sociais e de gênero. Filha de um engenheiro severo e de uma mãe frágil, Elsa cresceu em um ambiente familiar autoritário e sufocante. Rejeitando desde cedo os papéis femininos impostos, passou a frequentar círculos artísticos e intelectuais em Berlim, onde se envolveu com o movimento modernista, artistas boêmios, escritores anarquistas e ativistas pelos direitos das mulheres. Estudou artes aplicadas e começou a se destacar como poeta e ilustradora.
Seu primeiro casamento foi com August Endell, um arquiteto associado ao Jugendstil (o art nouveau alemão), mas a união terminou quando ela se apaixonou por outro homem — o artista Felix Paul Greve, que mais tarde fugiria para a América e se tornaria o romancista canadense Frederick Philip Grove. Elsa o seguiu até os Estados Unidos em 1910, atravessando a crise financeira e emocional de um casamento conturbado.
Poucos anos depois, casou-se com o barão Leopold von Freytag-Loringhoven, um aristocrata alemão alcoólatra e errante, de quem herdaria o nome que marcaria sua persona artística. Quando ele desapareceu — possivelmente morto na Primeira Guerra Mundial — Elsa já estava em Nova York, onde reinventaria seu corpo e sua arte no coração da vanguarda. Entre 1913 e 1923, Elsa se tornou uma figura icônica do cenário artístico nova-iorquino. Circulava entre artistas e escritores como Marcel Duchamp, Man Ray, Djuna Barnes, Peggy Guggenheim, William Carlos Williams, Beatrice Wood e Berenice Abbott. Viveu na pobreza, mas sua criatividade era incandescente.
Seus trajes esculturais desafiavam normas de gênero e moral: saía às ruas com objetos colados ao corpo, roupas de homem, cabelo raspado ou adornos feitos de sucata. Foi presa mais de uma vez por “indecência”, o que apenas reforçava sua reputação como figura escandalosa e vanguardista.
A artista por trás do “Fountain”?
A história consagrada da arte moderna atribui a Marcel Duchamp a criação da obra “Fountain” (1917), o icônico urinol assinado como R. Mutt, que mudou para sempre o entendimento sobre o que pode ser considerado arte. No entanto, diversos estudos recentes indicam que a verdadeira autora dessa ruptura foi Elsa von Freytag-Loringhoven.
Documentos históricos, como uma carta escrita por Duchamp à sua irmã, mencionam explicitamente que “uma amiga” teria enviado a peça ao salão de Nova York. Além disso, manuscritos da artista revelam caligrafia idêntica à inscrição da obra, e há indícios de que o pseudônimo R. Mutt era utilizado por Elsa. Apesar disso, foi só após sua morte que Duchamp passou a aceitar o crédito pela peça, contribuindo para a invisibilização da artista.
Readymades, poesia e erotismo
Muito antes de Duchamp consagrar o conceito, Elsa já criava obras a partir de objetos cotidianos. Ela recolhia fragmentos de metal, sucata, utensílios e peças de vestuário pelas ruas de Nova York e os transformava em esculturas com títulos como “God” ou “Cathedral”, atribuindo-lhes novos sentidos e uma força simbólica singular.
Suas esculturas e performances eram profundamente corporais, sensuais, críticas — e feministas. Ela subvertia normas de gênero, vestia roupas consideradas masculinas, pintava o rosto com selos postais e era frequentemente presa por “indecência”. Elsa performava a arte como vida, e a vida como arte.
Sua poesia, marcada por um erotismo ácido e uma crítica mordaz ao puritanismo americano, também integrava o espírito dadaísta. Ao lado de artistas como Djuna Barnes e Beatrice Wood, Elsa ajudou a fundar uma estética do escândalo, da liberdade e da quebra de limites.
Elsa von Freytag-Loringhoven foi a primeira artista dadaísta dos Estados Unidos, uma precursora das práticas performáticas feministas e uma figura essencial para se repensar a autoria na arte moderna. Suas obras desafiaram as fronteiras entre arte e vida, objeto e corpo, feminino e masculino e anteciparam debates que só ganhariam força décadas depois. Sua trajetória passou por Berlim, Pittsburgh, Nova York, Berlim novamente e, por fim, Paris sempre em fuga de convenções e em busca de liberdade criativa.
Após retornar à Alemanha em 1923, Elsa viveu entre Berlim e Paris, enfrentando dificuldades financeiras e de saúde mental. Continuou a escrever, mas encontrava pouca acolhida para sua obra. Faleceu em 1927, em Paris, sozinha e empobrecida, após inalar gás em seu apartamento, acredita-se que de forma acidental, embora a hipótese de suicídio não tenha sido descartada. Redescobrir Elsa é reconhecer uma mulher que ousou existir artisticamente fora dos moldes. É também reparar a história, atribuindo a ela a autoria de gestos radicais que, por muito tempo, foram creditados a homens.

