Exposição como cena: deslocamentos entre visualidade e presença

A ideia de exposição de arte atravessa hoje uma série de transformações que desestabilizam as noções clássicas de espaço, tempo e mediação. Para Sonia Salcedo del Castillo, se durante muito tempo o espaço expositivo foi pensado como um lugar de leitura, percepção e contemplação, o que se observa na arte contemporânea é a emergência de práticas que introduzem instabilidade nesses parâmetros, promovendo deslocamentos entre o visível e o invisível, entre o corpo e o espaço, entre a obra e a experiência.

No livro “Cena e visualidade: sobre o lugar da exposição de arte nos dias atuais”, Salcedo explica que a exposição deixa de ser apenas suporte para apresentação de obras e se constitui, cada vez mais, como meio de experimentação. Ao ser atravessada por práticas performativas e processuais, ela se aproxima da cena. A relação com o espectador passa a se dar menos pelo campo da percepção intelectual e mais pelo da sensação e da presença. A mediação não se encerra na leitura da obra, mas se expande na convivência com ela.

Essa inflexão não é recente, mas ganha força nas últimas décadas. Desde as experiências da arte performática e dos environments nos anos 1960 e 1970, o campo expositivo já vinha sendo tensionado por práticas que recusavam a estabilidade formal. O corpo do artista, o espaço da rua, os acontecimentos efêmeros e as proposições abertas ao acaso vêm progressivamente descentrando o cubo branco como lugar hegemônico de fruição.

A pintura, tradicionalmente central nas discussões sobre visualidade, serve aqui como metáfora e ponto de inflexão. A partir de artistas como Pollock, Johns ou Stella, o quadro deixa de ser superfície de representação e passa a operar como espaço de ação. Essa transformação incide também sobre o olhar, que já não se apoia em um ponto fixo, mas é convocado a vagar entre camadas, intervalos, ritmos. A instabilidade do olhar, nesse contexto, aproxima-se da cena: um espaço que se constrói no tempo e exige do espectador uma postura ativa.

Nas exposições contemporâneas, essa lógica se intensifica. O espaço é ativado por ações que transformam o ambiente em campo dramatúrgico. A noção de visualidade, por sua vez, deixa de se referir apenas à apreensão ótica e se expande para uma dimensão corpográfica, atravessada por gestos, afetos, deslocamentos. O lugar da arte é entendido menos como contêiner e mais como interface em movimento, permeado por convivências, fricções e negociações.

Nesse novo regime, a curadoria se aproxima da direção cênica, organizando situações, ritmos e relações que extrapolam a disposição formal das obras. O curador, tal qual o coreógrafo, pensa em fluxos de circulação, em modos de presença e em tempos de permanência. A exposição torna-se então estrutura ceno-visual: uma composição espacial e temporal que envolve corpos, imagens e experiências.

A rua, nesse cenário, aparece como campo privilegiado de ativação artística. Diferentemente dos espaços institucionais, ela não prepara o espectador, expõe-no ao inesperado. As ações performativas realizadas no espaço urbano, como o vídeo Gira da rua, proposto por Sonia Salcedo, não dependem de plateia para existir. Operam em um tempo outro, que se amplia pelo registro e pela memória. A imagem, nesses casos, é mais do que documentação: torna-se reverberação da ação, um modo de estender sua potência.

As imagens dessas ações se aproximam de uma escrita em trânsito. Elas não encerram um acontecimento, mas abrem possibilidades de continuidade, multiplicação, deslocamento. Mais do que representar, operam como dispositivos de escuta, afeto e agenciamento. São fragmentos de uma dramaturgia expandida, que inscreve o corpo no tecido da cidade e da vida comum.

Conceitos-chave para aprofundamento:

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Estrutura ceno-visual
Refere-se à configuração expositiva que integra elementos espaciais e temporais em uma experiência visual dramatúrgica. Nessa estrutura, o espaço da exposição opera como uma cena em movimento, onde imagens, corpos e ações se entrelaçam em composição.

Percepção/leitura vs. percepção/sensação
Enquanto o modelo tradicional de exposição privilegia a leitura intelectual da obra (percepção/leitura), práticas contemporâneas priorizam a experiência sensorial e afetiva (percepção/sensação). Esse deslocamento sugere um envolvimento mais direto e corporal com a obra.

Espaço expositivo como meio e não como suporte
Em vez de funcionar apenas como fundo neutro para apresentação de obras, o espaço expositivo torna-se parte ativa da proposta artística. Ele participa da construção do sentido da obra, como meio articulador de relações e experiências.

Instabilidade e hibridismo nas práticas contemporâneas
As fronteiras entre linguagens artísticas se tornam cada vez mais porosas, gerando obras que cruzam performance, instalação, vídeo, escultura e outros meios. Essa instabilidade rompe com modelos fixos de exibição e exige novas formas de mediação.

Corpografia e dramaturgia expandida
Corpografia designa a escrita do corpo no espaço, enquanto a dramaturgia expandida diz respeito à articulação de tempo, gesto e presença além dos palcos tradicionais. Ambas apontam para modos de pensar a exposição como uma coreografia em fluxo.

Rua como espaço expositivo
A rua, ao contrário do museu, é um espaço de imprevisibilidade e negociação constante. Ao abrigar ações performativas, ela transforma o cotidiano em campo de arte e convoca o público à experiência não programada.

Imagem como reverberação e não apenas registro
A imagem de uma performance ou ação não serve apenas como documento, mas como extensão da obra, capaz de ativar sentidos e memórias. Ela prolonga a experiência estética para além do momento original.

Participação e presença como operadores curatoriais
O espectador deixa de ser mero observador e torna-se parte do processo artístico, participando ativamente da construção de sentido. A presença do corpo no espaço passa a ser central para o pensamento curatorial contemporâneo.

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