História da Arte – Escutas: resumos e reflexões sobre a arte em diálogo com o mundo

O livro História da Arte – Escutas é fruto do trabalho coletivo de pesquisadoras e pesquisadores vinculados ao Grupo Nuclear, do Instituto de Artes da UERJ. A obra apresenta uma proposta de repensar a história da arte em diálogo com temas contemporâneos, operando uma escuta aos atravessamentos entre arte, cultura, política, antropologia e religiosidade. O livro propõe um percurso crítico e não-linear, que busca compreender a arte como fenômeno atravessado por múltiplas temporalidades, linguagens e perspectivas.

A coletânea está dividida em três eixos temáticos – “Arte e recepção”, “Tradição clássica” e “Arte, história, antropologia” -, nos quais os autores tratam de objetos diversos, sem perder de vista a potência das imagens e dos discursos em que estão inseridos. Os textos operam como escutas aos sentidos produzidos na relação entre a obra e o mundo, entendendo a história da arte como campo em permanente negociação, onde se cruzam memória, desejo, crítica e invenção.

No centro das reflexões, está a crítica ao modelo disciplinar fechado da história da arte. Os textos revelam uma aposta na indisciplina como forma de renovação metodológica e epistemológica, rompendo com hierarquias rígidas entre arte erudita e popular, moderna e contemporânea, centro e periferia. Essa postura está alinhada à ideia de que a arte não pode ser reduzida a uma lógica exclusivamente ocidental, e que é preciso escutar outras narrativas, inclusive aquelas historicamente silenciadas.

Ao revisitar temas clássicos como o expressionismo, o vestuário renascentista ou a escultura barroca, os autores propõem leituras renovadas, que iluminam aspectos até então negligenciados, como a presença do corpo, a performatividade da imagem ou as relações de poder implícitas na construção do gosto. Em paralelo, os textos que abordam experiências afro-brasileiras e ameríndias ampliam as fronteiras do campo artístico, evidenciando a importância da arte como forma de saber, resistência e transformação social.

Resumos dos capítulos

Hélio Oiticica e a expressão
Carla Guimarães Hermann
O artigo analisa a dimensão expressiva na obra de Hélio Oiticica, a partir de seus textos escritos entre o fim dos anos 1950 e início dos anos 1960. A autora mostra como Oiticica compreendia a expressão como um elemento essencial da arte, articulando técnica, cor, tempo e participação sensível do espectador. Influenciado por autores como Nietzsche e Bergson, e vinculado ao neoconcretismo, Oiticica desenvolveu o conceito de “cor-tempo” e propôs a ativação do sensível por meio da experiência direta com a obra. Seus bólides e parangolés incorporam essa concepção, permitindo que o público se torne também agente expressivo no encontro com o objeto artístico.

As ilustrações de Oswaldo Goeldi para Martim Cererê
Fernanda Pequeno
Este ensaio investiga a série de ilustrações feitas por Oswaldo Goeldi para a oitava edição do livro Martim Cererê (1945), de Cassiano Ricardo. A autora analisa como essas imagens, apesar de produzidas para uma obra vinculada ao nacionalismo verde-amarelo, mantêm marcas da poética expressionista de Goeldi. O texto contextualiza o papel do artista no modernismo brasileiro, suas relações com a cultura oficial do período Vargas e sua atuação nos meios editoriais. A análise revela tensões entre forma e conteúdo, tradição e ruptura, evidenciando a potência crítica das gravuras na construção de uma visualidade ambígua entre o solar e o sombrio.

Surrealismo e pintura: Carl Einstein e a revista Documents
Liliane Meffre
Este capítulo investiga o papel de Carl Einstein como crítico e pensador no contexto da revista Documents, publicada em Paris entre 1929 e 1930. A autora destaca a relação entre surrealismo e pintura a partir da colaboração de Einstein com artistas como Georges Bataille e com a produção editorial da revista, que propunha um rompimento com o formalismo da arte europeia e se aproximava de expressões consideradas “primitivas”. O texto mostra como Einstein rejeita uma leitura simbólica da arte, preferindo abordagens que enfatizam o gesto, a matéria e a irracionalidade como componentes essenciais da experiência estética.

Cálculo e expressão: a arte de vertente expressiva no Brasil
Vera Beatriz Siqueira
Neste ensaio, Vera Beatriz Siqueira propõe uma reflexão crítica sobre a ideia de expressão na arte brasileira, tensionando a dualidade entre cálculo e emoção. A autora analisa obras de artistas como Iberê Camargo, Antonio Bandeira, Tomie Ohtake e Frans Krajcberg para mostrar como a vertente expressiva da arte moderna no Brasil articula emoção e construção formal. Argumenta que, ao contrário da oposição simplista entre racionalidade e sentimento, essas obras demonstram como a expressão pode ser fruto de uma elaboração técnica e consciente, ao mesmo tempo em que convoca a potência subjetiva do artista e do espectador.

Athanasius Kircher, o Obeliscus pamphilius e A fonte dos quatro rios
Evelyne Azevedo
O texto analisa o papel do jesuíta alemão Athanasius Kircher como intérprete do Obelisco de Domiziano, instalado na Piazza Navona, em Roma, como parte do projeto da Fonte dos Quatro Rios, de Gian Lorenzo Bernini. Kircher interpretou os hieróglifos do obelisco sob uma perspectiva cristã, transformando o monumento egípcio em alegoria católica. A autora mostra como esse gesto de apropriação simbólica e iconográfica insere-se no contexto da Contra-Reforma e da missão jesuítica de tradução dos saberes antigos. A obra de Kircher é apresentada como um exemplo de erudição barroca que cruza ciência, fé e política.

A recepção do vestuário botticelliano: arte e historiografia
Larissa Sousa de Carvalho
Este capítulo investiga como o vestuário retratado nas obras de Sandro Botticelli foi interpretado ao longo da história da arte. A autora mostra que essas vestimentas, frequentemente vistas como idealizações atemporais, são, na verdade, repletas de significados históricos, sociais e simbólicos. O texto analisa também a recepção crítica dessas imagens, evidenciando como a historiografia da arte oscilou entre abordagens formais, simbólicas e sociológicas. A análise revela o modo como os trajes pintados por Botticelli, especialmente os das figuras femininas, colaboram para a construção de paradigmas de beleza e gênero no Renascimento e além.

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Hannah Wilke e Orlan: uma discussão sobre paradigmas de beleza
Leidiane Carvalho
Neste ensaio, Leidiane Carvalho compara as trajetórias das artistas Hannah Wilke e Orlan para discutir os paradigmas de beleza impostos ao corpo feminino. A partir de práticas performativas e intervenções corporais, ambas enfrentam as normatividades da representação feminina na história da arte e na cultura visual contemporânea. Wilke utiliza seu próprio corpo como suporte para tensionar a erotização e a fragilidade atribuídas às mulheres, enquanto Orlan se submete a cirurgias plásticas como crítica à construção social da beleza. O texto propõe uma leitura das duas artistas como agentes de ruptura e reflexão crítica sobre o corpo, o olhar e o desejo.

Klimt e o diálogo com a tradição
Manan Terra
Neste capítulo, Manan Terra examina como Gustav Klimt estabelece uma relação crítica e criativa com a tradição artística europeia. Longe de ser apenas um transgressor, Klimt é apresentado como um artista que mobiliza referências ao classicismo, à arte bizantina e à pintura simbolista para compor obras complexas e ambíguas. O autor mostra como o uso do ouro, os padrões decorativos e a representação feminina em Klimt operam como dispositivos que tanto evocam quanto desestabilizam modelos históricos de representação. O diálogo com a tradição, portanto, se dá mais como negociação estética do que como ruptura total.

De herói a mártir: imagens do heroísmo romano na primeira época moderna
Maria Berbara
Maria Berbara explora como figuras heroicas da Roma Antiga foram reconfiguradas nas imagens da primeira modernidade europeia. A autora analisa gravuras e pinturas que retratam personagens como Bruto e Múcio Cévola, destacando a transição do ideal heroico clássico para o paradigma do martírio cristão. O texto evidencia como esses corpos heroicos, antes símbolo de glória e vitória, passam a expressar sofrimento e sacrifício, em sintonia com os valores morais e religiosos do período. A análise ressalta a força simbólica da dor como expressão de virtude e resistência.

Chabloz vê Chico, Chico vê Chabloz: um estudo do conceito de arte primitiva
Adriana Botelho
Este capítulo investiga o encontro entre o artista suíço Georges Chabloz e o artista popular brasileiro Chico da Silva, em Fortaleza, nos anos 1940. Adriana Botelho analisa a relação entre os dois a partir das tensões entre arte erudita e arte popular, refletindo sobre o conceito de “arte primitiva” no campo moderno. O texto mostra como Chabloz, ao intervir no trabalho de Chico, simultaneamente o legitima e o enquadra em um exotismo ocidentalizado. A autora propõe uma crítica à maneira como a arte popular foi muitas vezes apropriada por olhares coloniais e estetizantes.

Memórias do forno monumento: ações artísticas no Morro do Chapéu Mangueira
Kátia Gorini
Kátia Gorini apresenta uma reflexão sobre o projeto “Forno Monumento”, realizado no Morro do Chapéu Mangueira, no Rio de Janeiro, como parte de uma série de ações artísticas e comunitárias voltadas à memória e ao território. O texto discute o papel da arte como dispositivo de escuta, lembrança e ativação política em contextos periféricos. A autora explora como a instalação do forno de barro opera como monumento alternativo, construído a partir da vivência local e das histórias dos moradores, em contraposição aos monumentos oficiais que muitas vezes silenciam outras narrativas urbanas.

Quando amuletos se tornam arte, e arte, amuletos
Marcelo Campos
Marcelo Campos propõe uma reflexão sobre as fronteiras entre arte e objeto mágico a partir de experiências afro-brasileiras. O texto discute como certos objetos – como figas, patuás, guias e esculturas rituais – desafiam a separação entre arte e amuleto ao ativarem formas de saber e proteção que envolvem crença, corporeidade e presença espiritual. O autor argumenta que essas práticas desafiam os critérios tradicionais de julgamento estético e histórico, exigindo novas formas de escuta e interpretação na história da arte. O capítulo convida o leitor a pensar o amuleto como gesto, performance e campo de força.

A boca do mundo: um documentário sobre Exu no Candomblé
Eliane Coster
Eliane Coster parte da análise do documentário Exu no Candomblé (2005), de Walter Lima, para discutir como a imagem de Exu é representada e percebida na cultura brasileira. A autora evidencia a construção do orixá como figura polissêmica e atravessada por discursos religiosos, midiáticos e racistas. O documentário é analisado como um esforço de escuta e reparação simbólica, que busca restituir a dignidade e a complexidade de Exu no imaginário coletivo. O texto também problematiza a relação entre oralidade, performance e presença ritual na constituição da imagem do orixá, articulando arte, religião e política.

Exu, as mulheres, os modos de ensinar e aprender
Glória Cecília de Souza Silva
Neste capítulo, Glória Cecília de Souza Silva investiga o papel das mulheres no Candomblé e suas formas específicas de relação com Exu. A autora observa como o aprendizado religioso e os modos de transmissão de saberes dentro dos terreiros desafiam epistemologias ocidentais, propondo outros sentidos para a pedagogia, a autoridade e a experiência. A escuta aparece como prática central — seja para interpretar os sinais de Exu, seja para acolher e repassar os ensinamentos. O texto valoriza os saberes encarnados, a ritualística e a circularidade da oralidade como formas legítimas e potentes de conhecimento.

A pseudomorfose no Tridente de NI
Mônica Maria Linhares Castrioto
Mônica Castrioto propõe uma leitura do Tridente de NI, obra que articula elementos visuais e simbólicos associados a Exu, a partir do conceito de pseudomorfose. Isto é, a permanência de uma forma em novos conteúdos. A autora investiga como a visualidade e os significantes associados ao orixá são apropriados, ressignificados e tensionados em contextos artísticos contemporâneos. O tridente, em sua recorrência iconográfica, torna-se dispositivo de resistência e evocação, mas também de disputa simbólica. O ensaio problematiza como a arte pode encenar processos de trânsito entre o sagrado e o estético, o mito e a crítica social.

Feitiço gráfico: a macumba de Goeldi
Roberto Conduru
Roberto Conduru encerra o volume com uma análise das gravuras de Oswaldo Goeldi sob o viés da macumba – entendida aqui como campo simbólico de resistência, feitiçaria e transgressão. O autor argumenta que as imagens noturnas, espectrais e densas de Goeldi, embora não abordem diretamente ritos afro-brasileiros, acionam uma sensibilidade próxima à experiência do encantamento. A macumba surge como chave interpretativa que permite pensar a gravura como corpo em transe, mediador entre mundos e tempos. Conduru propõe que, ao invés de ver Goeldi como um artista do luto e da melancolia, possamos escutá-lo como alguém que pratica uma arte-feitiço.

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