Por muito tempo, a moda ocupou uma posição ambígua no sistema das artes. Vista ora como arte aplicada, ora como expressão efêmera do consumo, raramente foi legitimada como obra em si. Mas esse cenário vem mudando e de forma irreversível. Hoje, cada vez mais estilistas têm suas criações exibidas em museus e centros de arte contemporânea, não como “curiosidades de vestuário”, mas como manifestações plenas de pensamento visual, conceitual e estético.
É um deslocamento importante. Quando uma roupa atravessa a passarela e vai parar na parede branca de uma galeria, algo nela muda e algo também muda na forma como olhamos para a arte. O gesto criativo do estilista passa a ser lido como proposição estética autônoma, e os códigos da moda, com suas costuras, tecidos e caimentos, tornam-se matéria discursiva capaz de tensionar corpo, identidade, gênero, desejo, memória.
Um dos marcos dessa virada foi a exposição “Rei Kawakubo/Comme des Garçons: Art of the In-Between”, realizada no The Met em 2017. Kawakubo, notória por desconstruir silhuetas e desafiar a noção de funcionalidad, foi apenas a segunda estilista viva a ter uma mostra solo no museu (a primeira foi Yves Saint Laurent, em 1983). Suas criações foram apresentadas como esculturas do corpo e do espaço, desafiando o visitante a pensar o que, afinal, define uma roupa.
Outro exemplo notável é a obra de Martin Margiela, que após sua aposentadoria das passarelas passou a ter seu trabalho ressignificado em espaços como a Fondation Lafayette Anticipations, em Paris. Ali, o que antes era desfile virou instalação, gesto, ruína. A exposição de 2021 apresentou peças como camisas transformadas em bolsas, perucas feitas de fios sintéticos, tecidos envelhecidos como arqueologia do tempo. Margiela não apenas vestia corpos, ele criava situações de estranhamento e poesia.
A moda também se expande em forma de vídeo e instalação imersiva, como mostram os fashion films de Alessandro Michele para a Gucci. Durante sua direção criativa, Michele transformou campanhas em experiências cinematográficas, muitas vezes exibidas em festivais de arte e design. Seu trabalho com a fotógrafa e cineasta Floria Sigismondi, por exemplo, ultrapassa os limites da publicidade e adentra o campo da arte digital, da performance e da ficção especulativa.
Não se trata apenas de uma validação institucional. Trata-se de reconhecer que a moda, quando pensada como linguagem, tem poder de questionar, emocionar e deslocar, assim como qualquer obra de arte contemporânea. Um vestido pode ser tanto um objeto de desejo quanto uma alegoria política. Uma passarela pode ser tanto uma vitrine quanto um palco conceitual. E o estilista, longe de ser apenas um designer comercial, pode ocupar o lugar de autor.
Essa presença da moda nos museus reabre perguntas fundamentais: o que é arte? O que merece ser preservado? Que histórias estamos dispostos a contar através do tecido? Ao colocar a moda no centro do debate, as instituições culturais ajudam a ampliar o repertório do que pode ser visto, lembrado e celebrado como parte da criação artística de nosso tempo.
Para saber mais:
Rei Kawakubo (Comme des Garçons) no The Met – “Art of the In-Between” (2017)
A exposição dedicada à estilista japonesa Rei Kawakubo marcou um divisor de águas na história do Costume Institute do Metropolitan Museum of Art. Foi a primeira vez, desde Yves Saint Laurent em 1983, que um estilista vivo teve uma mostra solo no museu. A exposição reuniu cerca de 140 peças criadas entre 1981 e 2017, organizadas em pares de opostos: moda/anti-moda, design/não design, alto/baixo. Kawakubo propõe roupas que não vestem o corpo, mas o reimaginam — formas escultóricas, vazios, volumes e cortes que desafiam a ideia de funcionalidade. Ao trazer suas criações para dentro de um museu, a mostra reposicionou a moda como arte conceitual, abrindo espaço para uma leitura mais filosófica da indumentária.
Martin Margiela na Lafayette Anticipations – “Martin Margiela” (2021)
Em 2021, Martin Margiela apresentou sua primeira exposição solo como artista visual na Lafayette Anticipations, em Paris. A mostra, intitulada simplesmente “Martin Margiela”, marcou sua transição definitiva do universo da moda para o das artes plásticas. A exposição apresentou mais de vinte obras inéditas, incluindo instalações, esculturas, colagens, pinturas e filmes. Margiela explorou temas recorrentes em sua carreira, como a transformação, a ausência e a efemeridade. O percurso expositivo foi concebido como uma experiência imersiva, com os visitantes entrando pela saída de emergência e navegando por um labirinto de espaços onde as obras apareciam e desapareciam em diferentes pontos de vista .
Alessandro Michele (Gucci) e os fashion films como arte audiovisual
Durante seus anos à frente da Gucci (2015–2022), Alessandro Michele transformou a comunicação da marca em uma plataforma estética por si só. Seus fashion films, muitas vezes em parceria com cineastas como Floria Sigismondi e Gus Van Sant, foram exibidos em festivais e analisados como obras independentes. Um dos mais marcantes foi “Ouverture of Something That Never Ended” (2020), minissérie de sete episódios filmada em Roma e apresentada como desfile digital durante a pandemia. A produção borra as fronteiras entre moda, cinema e arte performática, colocando a narrativa e o ambiente onírico no centro do desfile — e do debate sobre os formatos expositivos no mundo contemporâneo.
Alessandro Michele e a exposição “Gucci Garden Archetypes” (2021)
Em 2021, para celebrar o centenário da Gucci, o então diretor criativo Alessandro Michele concebeu a exposição “Gucci Garden Archetypes” no Gucci Garden, localizado no histórico Palazzo della Mercanzia, em Florença. A mostra imersiva recriou 15 das campanhas mais emblemáticas da marca sob sua direção, transformando-as em instalações artísticas que exploram o universo onírico e multifacetado de Michele. A exposição foi desenvolvida em colaboração com o estúdio de design Archivio Personale e apresentou ambientes que transportavam os visitantes para os cenários das campanhas, como a “Gucci Bloom”, com um jardim secreto repleto de flores, e a “Pre-Fall 2017”, inspirada na cena Northern Soul britânica. Um dos destaques foi o mural da campanha “S/S 2018 Hallucination”, criado pelo artista Ignasi Monreal, que levou 900 horas para ser concluído.
“Iris van Herpen: Transforming Fashion” no Musée des Arts Décoratifs
Uma retrospectiva que passou por diversos museus nos EUA e Europa, apresentando suas peças como verdadeiras esculturas tecnológicas. Seu trabalho aproxima moda de arquitetura paramétrica e escultura experimental, sendo considerada uma artista tanto quanto uma designer. Pioneira no uso de novas tecnologias em sua disciplina, ela abraça o artesanato tradicional da alta-costura e a inovação radical.

