A ideia de que a arte precisa ser legitimada acompanha toda a história moderna e contemporânea. O que significa, afinal, que uma obra seja reconhecida como “arte legítima”? Quem decide? E como essas decisões mudaram em um cenário marcado pela globalização, pela financeirização do mercado de arte e pelo crescimento das feiras internacionais, como a Art Basel?

O livro When Art Meets Money, de Franz Schultheis, Erwin Single, Stephan Egger e Thomas Mazzurana, explora esses dilemas de forma abrangente. A partir de entrevistas, análises sociológicas e estudos sobre o campo artístico, os autores mostram que a legitimação não é um processo fixo, mas um campo de disputas entre instituições, críticos, colecionadores, artistas, galeristas e até bancos patrocinadores.

Esse panorama foi elaborado a partir dos diferentes capítulos e seções de When Art Meets Money, com ênfase nos textos sobre pluralização e juízes qualificados, distinção social, mercado e arte lifestyle, e crise do cânone.

Da legitimação moderna ao pluralismo pós-moderno

Historicamente, a legitimação da arte dependia de um círculo restrito de especialistas – críticos, historiadores, curadores e colecionadores de prestígio – que, passo a passo, reconheciam artistas e obras até sua inclusão em museus e na história da arte. Esse modelo “modernista” era hierárquico e formalista, baseado em critérios de originalidade e inovação.

A partir dos anos 1980, porém, esse processo se pluralizou. Novos atores, entre eles curadores independentes, consultores, advisors, passaram a disputar espaço na definição do que é legítimo, criando um “coro de juízes” que reflete a diversidade de práticas artísticas (da fotografia ao artivismo) e de linguagens contemporâneas. Ainda assim, essa pluralização não eliminou a lógica modernista: a busca por novidade e ruptura segue estruturando o campo.

Legitimidade e distinção social

O livro mostra que a legitimação não se dá apenas no plano estético, mas também no social. A forma de se relacionar com a arte distingue o “verdadeiro” colecionador do mero investidor ou “parvenu”. O gosto refinado, o conhecimento acumulado e a forma de colecionar funcionam como marcadores de legitimidade social.

Assim, mais do que possuir obras, é necessário demonstrar um “habitus” legítimo: colecionar com paixão, ter “bom gosto”, participar de círculos de prestígio. Esse processo reflete uma luta simbólica pela definição do que é o amor “genuíno” pela arte.

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O papel do mercado e a legitimação pelo dinheiro

Um dos pontos centrais do livro é a tensão entre arte e dinheiro. Embora a lógica da arte reivindique autonomia e “pureza simbólica”, as feiras como a Art Basel deixam explícito que a legitimação também depende do mercado. A mercantilização visível gera desconforto, mas também é uma condição de existência do sistema atual.

Nesse cenário, a distinção entre “arte genuína” e “arte lifestyle” surge: a primeira seria reconhecida pelo conteúdo e pelo conhecimento especializado, enquanto a segunda seria legitimada por preços, nomes de artistas e tendências, exigindo menos expertise dos compradores.

Crise do cânone e legitimação instável

A multiplicidade de formas e discursos levou a uma espécie de “implosão” do cânone moderno. Já não há critérios universais claros para determinar o valor artístico; em vez disso, convivem disputas fragmentadas entre artistas, mercado e instituições. A crítica de arte, antes central na legitimação, migrou para o território da reflexividade e do discurso, deixando espaço para que o mercado ocupasse esse papel.

Essa mudança gera uma confusão contemporânea: o que é “arte genuína”? Os autores defendem que a legitimidade hoje depende menos de padrões intrínsecos das obras e mais das relações sociais, institucionais e mercantis que as sustentam.

Legitimação como disputa permanente

Em suma, a legitimação na arte é apresentada no livro como uma disputa permanente e multifacetada. É um processo em que:

  • especialistas ainda têm peso, mas não controlam sozinhos o campo;
  • colecionadores e seu habitus social desempenham papel central;
  • o mercado, apesar de criticado, se tornou parte constitutiva da legitimação;
  • a pluralidade de práticas desafia o cânone e gera instabilidade.

Assim, a arte contemporânea só pode ser compreendida dentro dessa tensão: entre a promessa de autonomia simbólica e a realidade da mercantilização, entre a distinção social e a pluralização cultural, entre a herança modernista e as disputas pós-modernas por legitimidade.

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