Muito além de uma obra que apenas está em um lugar, a arte site-specific é aquela que depende desse lugar, o ocupa e o ativa. Surge do espaço, se molda a ele, responde às suas condições físicas, sociais, políticas ou simbólicas. E, por isso, não pode ser deslocada sem que perca seu sentido.
A expressão site-specific ganhou corpo a partir das décadas de 1960 e 70, no contexto de ruptura com o modernismo e sua valorização da autonomia formal da obra de arte. Artistas passaram a questionar a neutralidade dos espaços expositivos (como o “cubo branco” das galerias) e a criar obras que só faziam sentido a partir de sua inserção em determinado lugar.
Nick Kaye define a arte site-specific como aquela que se inscreve em um diálogo direto com o espaço onde ocorre. Já Miwon Kwon amplia a noção de site para além do espaço físico: pode ser também o contexto institucional, social ou discursivo em que a obra se insere.
Das origens à multiplicação dos sentidos
No início, os trabalhos site-specific se ligavam fortemente a suas condições físicas: dimensões do ambiente, luz natural, textura das paredes. Um exemplo é o Tilted Arc (1981) de Richard Serra, criado especificamente para a Federal Plaza, em Nova York. Quando o governo decidiu removê-lo, o artista protestou: tirar a obra do local seria destruí-la.
Com o tempo, no entanto, essa ideia de site foi se expandindo. Deixou de ser só um espaço arquitetônico ou geográfico para se tornar também um lugar simbólico. A crítica institucional, por exemplo, passou a considerar o museu, o mercado, os discursos curatoriais e os sistemas de valor como “sites” que moldam o significado da obra e que também podem ser alvo da intervenção artística.
Tipos de site-specificity
Segundo Miwon Kwon, podemos identificar pelo menos três grandes orientações dentro da prática site-specific:
- Site físico
A obra responde a elementos materiais do lugar: sua escala, luz, temperatura, circulação. É uma relação visceral e direta com o espaço. - Site institucional
A crítica se volta às estruturas e discursos das instituições que moldam a arte: museus, mercado, crítica, história da arte. O trabalho expõe as convenções e os interesses por trás desses lugares. - Site discursivo
O site passa a ser um campo de conhecimento, um debate político ou cultural. A obra opera como uma intervenção conceitual, mesmo que nem sempre localizada fisicamente. Um exemplo é o projeto On Tropical Nature (1991), de Mark Dion, que aborda a representação da natureza e a crise ambiental por meio de múltiplas instâncias espaciais e discursivas.
Arte pública ou institucional?
A arte site-specific pode acontecer tanto fora das instituições (em ruas, praças, comunidades) quanto dentro delas, desde que atue de forma crítica, consciente e situada. A tensão entre arte pública e arte institucional é menos sobre onde a obra está, e mais sobre como ela se relaciona com seu contexto.
Há obras feitas para a rua que reafirmam os mesmos valores do mercado, e obras dentro do museu que expõem as contradições do próprio sistema artístico. O que importa, aqui, é a capacidade de desnaturalizar o lugar e provocar deslocamentos, sejam eles físicos, simbólicos ou críticos.
Documentação e efemeridade
Uma das questões que surge com a arte site-specific é como documentá-la, já que muitas vezes ela é efêmera, performativa ou processual. Nick Kaye propõe que a documentação não seja apenas um registro, mas parte integrante da obra, como uma extensão que também carrega sentido, contexto e gesto.

