Spinoza é um filósofo pós-moderno? Uma resposta a partir do corpo, da ética e do tempo

Em pleno século XVII, enquanto Descartes dava forma ao racionalismo moderno com seu “penso, logo existo”, Baruch de Spinoza estava abrindo janelas menos lineares, menos hierárquicas e, como consequência, mais radicais. Descartes representa o espírito moderno, mas Spinoza pode ser lido como um filósofo pós-moderno avant la lettre, como defende Miriam van Reijen.

Não no sentido histórico, mas no modo de ver o mundo: relacional, não dualista, fundado na imanência e na conexão entre tudo o que existe. Um pensamento que antecipa questões muito vivas no nosso tempo: da ecologia ao feminismo, das artes aos estudos decoloniais.

O mundo de Descartes é feito de separações

Descartes construiu sua filosofia a partir de oposições: corpo e alma, mente e mundo, sujeito e objeto. Sua proposta de conhecimento exige distanciamento: conhecer é observar de fora, separar-se, controlar. A razão é o instrumento soberano que deve dominar os afetos, os sentidos e tudo aquilo que não cabe na clareza das ideias.

Essa estrutura é vertical: há uma hierarquia entre o espírito e o corpo, entre o homem e a natureza, entre o conhecimento e a experiência.

Spinoza pensa o mundo como conexão

Já Spinoza dissolve essas fronteiras. Para ele, tudo o que existe é uma única substância, seja Deus ou Natureza (Deus sive Natura), e essa substância se expressa de infinitos modos. Corpo e mente são dois aspectos de uma mesma realidade. Afetar e ser afetado é a condição de existir.

Não há uma alma que comanda o corpo, nem uma razão que subjuga os sentimentos. Ao contrário: o conhecimento nasce do encontro entre razão e afeto, entre o que pensamos e o que sentimos.

Essa visão relacional rompe com a verticalidade do pensamento cartesiano. Em Spinoza, tudo está em relação com tudo. Não há fora. Só há dentro, mas um dentro que é sempre atravessado por outros.

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A ética da imanência

Outro ponto decisivo: Spinoza não propõe uma moral, e sim uma ética. Moral é um conjunto de normas externas, impostas, muitas vezes sustentadas por dogmas. Ética, para Spinoza, é o modo como cada ser constrói sua vida a partir do conhecimento das relações que o constituem.

Enquanto a moral julga e proíbe, a ética compreende. E, ao compreender, pode transformar.

Essa ética é imanente, nasce da própria experiência, e não de um mandamento exterior. Isso abre espaço para uma vida mais autônoma, mais conectada com o corpo, com os outros, com o mundo. Uma vida que não nega os afetos, mas os reconhece como parte da razão.

Miriam van Reijen mostra que, nesse sentido, Spinoza antecipa muitas das discussões da pós-modernidade: o fim das dicotomias rígidas, a valorização da pluralidade, o corpo como produtor de sentido, o desejo como motor da existência.

E a arte com isso?

A arte moderna, em muitos momentos, buscou uma verdade essencial: uma forma pura, um conteúdo elevado, um sentido universal. A arte pós-moderna, por outro lado, é marcada pela multiplicidade, pela experiência, pela desordem criativa. Ela se abre ao corpo, ao erro, ao detalhe, ao cotidiano.

Spinoza, com sua filosofia do afeto e da imanência, oferece um terreno fértil para pensar a arte como acontecimento, distanciando da representação de uma verdade, e propondo que seja algo de impacto, de afetar e sentir-se afetado.

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