A arte como resistência: práticas culturais em disputa com o mercado

O texto de Das Utopias do Mercado, de Néstor García Canclini, parte de uma crítica direta à ideologia do mercado como horizonte universal e investiga como ela molda não apenas as estruturas econômicas, mas também a cultura, a política e a subjetividade. Em vez de propor uma grande saída ou modelo ideal, o autor volta seu olhar para as brechas abertas por práticas locais, culturais e coletivas que escapam, mesmo que parcialmente, da racionalidade neoliberal.

Ao longo do texto, faz uma abordagem das relações entre cultura e modernidade na América Latina. Canclini é um dos principais nomes dos estudos culturais latino-americanos, e seu trabalho ajuda a compreender como os processos de mercantilização se articulam com as formas simbólicas e com as disputas por significação no campo da cultura. A obra dialoga com essa perspectiva ao propor uma leitura crítica do papel da cultura e da arte como espaços de invenção e resistência.

Abaixo apresentamos alguns pontos essenciais de seu texto para compreendermos sua perspectiva sobre neoliberalismo e como isso influencia as relações da arte com o mercado.

1. A ideologia do mercado como horizonte único

O discurso dominante do capitalismo contemporâneo construiu uma narrativa na qual o mercado aparece como o único modelo possível de organização social. Essa ideologia elimina outras formas de imaginar o mundo ao apresentar a lógica do capital como inevitável e natural. A ideia de que tudo pode ser resolvido por meio de relações mercantis, inclusive questões sociais, ambientais e afetivas, limita a capacidade coletiva de pensar alternativas. Questionar esse paradigma é o primeiro passo para reabrir o campo do possível.

2. A mercantilização da vida cotidiana

No mundo atual, quase todos os aspectos da vida foram atravessados pela lógica do mercado. Não se trata apenas do consumo de bens materiais, mas da transformação de experiências como saúde, educação, lazer, afeto e tempo em produtos ou serviços. A consequência disso é uma reorganização da vida baseada na lógica do desempenho, da eficiência e da competitividade. Relações humanas se tornam contratos. Sentimentos, estratégias de autopromoção. Essa mercantilização esvazia sentidos mais coletivos da existência e reconfigura o que entendemos como liberdade ou autonomia.

3. O colapso das utopias modernas

Durante o século XX, diferentes utopias sociais, como o socialismo, o anarquismo ou os ideais democráticos radicais, ofereceram modelos alternativos ao capitalismo. Com a crise desses projetos e o avanço do neoliberalismo, houve um esvaziamento de horizontes transformadores. No lugar da utopia emancipadora, entrou em cena a gestão da crise e o discurso da adaptação. A política foi reduzida à administração técnica e o imaginário social passou a girar em torno de soluções individuais e meritocráticas.

4. A tecnologia como instrumento de padronização

Embora muitas vezes celebrada como neutra ou libertadora, a tecnologia tem operado como ferramenta de controle e homogeneização. Plataformas digitais, algoritmos e dispositivos de vigilância moldam comportamentos, antecipam desejos e automatizam decisões. Em vez de ampliar a liberdade, a tecnologia pode estreitar os modos de existir quando está subordinada aos interesses do mercado. Pensar criticamente os usos tecnológicos é fundamental para recuperar a capacidade de decisão coletiva e imaginação política.

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5. Práticas de resistência e alternativas em pequena escala

Diante da hegemonia do mercado, surgem experiências que afirmam outras formas de viver e organizar a vida comum. Iniciativas locais, projetos colaborativos, redes de apoio mútuo e ações culturais comunitárias mostram que é possível produzir rupturas no cotidiano. Essas práticas não prometem soluções globais imediatas, mas constroem fissuras no modelo dominante. Nelas, o valor não está na escala, mas na coerência entre meios e fins, e na capacidade de sustentar formas de vida baseadas em solidariedade.

6. Cultura e arte como campos de reinvenção

A arte tem um papel estratégico na produção de outros imaginários. Quando não é capturada pela lógica do mercado ou pelas instituições normativas, ela se torna um espaço potente de crítica, invenção e experimentação. Através da arte é possível criar experiências que desafiam as formas estabelecidas de percepção, relação e organização. Mais do que ilustrar ideias, a cultura pode abrir frestas no presente e antecipar outras maneiras de estar no mundo.

7. O neoliberalismo como forma de subjetivação

O neoliberalismo opera diretamente sobre as subjetividades. Ele não apenas regula mercados, mas molda afetos, comportamentos e formas de ver a si mesmo. O ideal do “empreendedor de si” se tornou dominante, deslocando para o indivíduo a responsabilidade por seu sucesso ou fracasso. Essa interiorização da lógica do desempenho enfraquece vínculos coletivos e reforça a ideia de que a vida é uma disputa permanente. Reverter esse processo exige reconstruir formas de pertencimento e cuidado.

8. O comum como prática cotidiana

Frente à colonização da vida pelo mercado, o comum surge como uma alternativa baseada na partilha, na reciprocidade e na co-responsabilidade. Mais do que um modelo econômico ou jurídico, o comum é uma prática: ele se produz na convivência, na escuta, na atenção ao outro e na construção de redes. A defesa do comum implica resistir à privatização dos recursos, mas também à privatização do tempo, da atenção e do desejo. É uma aposta na possibilidade de reorganizar a vida a partir de outros valores.

Pontos centrais em que Canclini trata especificamente sobre arte

9. A arte como campo de invenção simbólica e crítica

O autor reconhece a arte como um dos poucos territórios ainda capazes de tensionar a lógica do mercado e criar outras formas de sensibilidade. Quando não está subordinada à lógica institucional ou mercantil, a arte pode produzir experiências que escapam da funcionalidade e da previsibilidade impostas pelo neoliberalismo. Nesse contexto, ela se torna um campo fértil para o surgimento de perguntas, ruídos e deslocamentos que desestabilizam normas, valores e formas de percepção. A potência crítica da arte está justamente na sua capacidade de propor outros modos de ver, sentir e imaginar o mundo, algo cada vez mais necessário diante do esvaziamento simbólico provocado pela mercantilização da vida.

10. O lugar da cultura nas disputas por sentido

O texto amplia o entendimento da arte ao inseri-la no campo mais amplo da cultura, entendida como território de conflito entre formas hegemônicas e contra-hegemônicas de organizar a vida. A cultura não é vista como algo separado da política ou da economia, mas como espaço onde os significados sociais são produzidos, disputados e transformados. Nesse sentido, a arte ocupa uma posição estratégica na disputa de imaginários: ela pode tanto ser capturada pelo capital, como no caso de festivais patrocinados por grandes marcas, quanto operar como espaço de resistência, propondo experiências que fortalecem o comum, a escuta e o pensamento coletivo.

11. Práticas artísticas como formas de resistência e produção do comum

Canclini valoriza as práticas artísticas que se colocam à margem das grandes instituições ou dos circuitos comerciais. Essas práticas, muitas vezes comunitárias ou colaborativas, produzem formas alternativas de organização, convívio e criação. Elas não buscam apenas expressar conteúdos estéticos, mas interferir na vida cotidiana, ativando vínculos, afetos e formas de cuidado mútuo. Nesse sentido, a arte aparece não como um fim em si, mas como meio para construir relações mais horizontais e sensíveis. A arte é agente ao criar formas de produzir o comum em meio a um mundo que insiste em fragmentar.

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