Arte como Encruzilhada: Ensaios sobre Patrimônio, Política e Espiritualidade

O livro Arte como encruzilhada e as encruzilhadas da arte reúne ensaios que abordam a arte como prática atravessada por tensões políticas, éticas, espirituais e urbanas. A metáfora da encruzilhada aparece como um dispositivo teórico que permite pensar a arte como espaço de encontro, conflito e transformação, um lugar em que diferentes forças, histórias e visões de mundo se cruzam, se atritam e se reconfiguram. O livro toma o Rio de Janeiro como território privilegiado de análise, mas as reflexões extrapolam seus limites geográficos ao problematizar questões de alcance mais amplo, como o apagamento simbólico, os usos políticos da imagem e os modos de resistência cultural.

A coletânea abre com um olhar sobre a autorrepresentação e a produção imagética do “eu” no contexto das redes sociais. O texto de Edu Monteiro e Mauro Trindade discute a idolatria do self como um fenômeno contemporâneo que envolve culto à imagem, hiperexposição e apagamento das mediações artísticas. O capítulo de Clara Habib e Vera Beatriz Siqueira trata da iconoclastia contemporânea, tomando como caso emblemático a destruição e o apagamento de monumentos públicos no Rio de Janeiro, o que permite repensar o estatuto da imagem pública e seus desdobramentos políticos.

A investigação segue com um estudo de Gabriela Caspary e Guilherme Bueno sobre o circuito de arte moderna carioca entre 1931 e 1947, revelando como o urbanismo, a arquitetura e os panoramas da cidade influenciaram a circulação, legitimação e institucionalização da arte no período. Na sequência, Tiago Luiz dos Santos Ribeiro e Felipe Ferreira voltam-se à cultura popular para discutir a regulamentação dos blocos de rua e as transformações recentes do carnaval do Rio de Janeiro, uma análise que articula festa, política urbana e modos de controle social sobre manifestações culturais.

O ensaio que dá título ao livro, escrito por Mauricio Barros de Castro e Napê Rocha, aprofunda a metáfora da encruzilhada como ponto de conexão entre ancestralidade, arte e pensamento de matriz africana. Em diálogo com Exu e com a crítica contemporânea, o texto propõe que a encruzilhada é não apenas um lugar simbólico, mas uma metodologia possível para pensar as práticas artísticas, as pedagogias e os modos de habitar o mundo.

Por fim, os três últimos textos trazem leituras que reafirmam a arte como prática ética e espiritual. Marcelo Campos e Pollyana Quintella investigam os trabalhos de Paulo Pedro Leal e Ivan Moraes como expressões de espiritualidade e invenção de um Brasil ancestral. Martha Telles e João Cícero Bezerra encerram o volume com uma análise do pensamento de Mário Pedrosa, apontando sua crítica como gesto ético e engajado, uma arte como forma de ação no mundo. Assim, o livro sustenta, de modo plural, que as encruzilhadas da arte são também encruzilhadas de pensamento, resistência e invenção.

Idolatria do Self
Autores: Edu Monteiro e Mauro Trindade
O capítulo reflete sobre o culto ao “self” e os modos como a arte contemporânea se apropria e contesta esse fenômeno. A partir de imagens e performances que tensionam a representação do corpo e da identidade, os autores analisam práticas artísticas que vão além do autorretrato, explorando a autoconstrução como performance pública. A idolatria do self é abordada como sintoma de uma cultura imagética e espetacularizada, mas também como terreno de resistência simbólica.

Iconoclastia e Estereótipo: Retratos da Destruição do Patrimônio Público do Rio de Janeiro
Autores: Clara Habib de Salles Abreu e Vera Beatriz Siqueira
Este texto examina os processos de destruição do patrimônio artístico e cultural no espaço público do Rio de Janeiro, revelando como esses atos de iconoclastia se articulam com disputas simbólicas e sociais. As autoras discutem a destruição de monumentos, estátuas e fachadas históricas como formas de reconfiguração da memória urbana e questionamento de narrativas hegemônicas. O estereótipo e a violência simbólica aparecem como dimensões críticas do debate patrimonial.

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Do Alto de um Arranha-Céus na Avenida Rio Branco: Panorama do Circuito de Arte Moderna no Rio de Janeiro, 1931-1947
Autores: Gabriela Caspary e Guilherme Bueno
Este capítulo investiga o circuito artístico moderno no Rio de Janeiro entre 1931 e 1947, tendo como ponto de observação privilegiado o edifício do jornal A Noite na Avenida Rio Branco. Os autores analisam como a arte moderna se institucionalizou e circulou no contexto urbano, considerando exposições, galerias, políticas culturais e redes de sociabilidade. A narrativa historiciza a modernidade carioca a partir de seus agentes, espaços e discursos críticos.

Não Põe Corda no Meu Bloco: As Regulamentações dos Blocos de Rua do Rio de Janeiro (2009-2022) e as Transformações no Carnaval da Cidade
Autores: Tiago Luiz dos Santos Ribeiro e Felipe Ferreira
O texto aborda as transformações no carnaval de rua do Rio de Janeiro diante de processos de regulamentação que ocorreram entre 2009 e 2022. Os autores argumentam que a atuação do poder público alterou a espontaneidade e o caráter popular dos blocos, impondo normas que afetam sua identidade e dinâmica. A pesquisa destaca o tensionamento entre tradição, resistência cultural e controle institucional, com o carnaval sendo retratado como um campo de disputa política e simbólica.

Arte como Encruzilhada e as Encruzilhadas da Arte
Autores: Mauricio Barros de Castro e Napê Rocha
Este capítulo-proposição investiga a arte como espaço de encruzilhada, um ponto de encontro, conflito e escolha entre saberes, estéticas e modos de existência. Os autores traçam paralelos entre o conceito afro-brasileiro de encruzilhada e práticas artísticas que operam em fronteiras instáveis, abrindo-se ao risco, à dúvida e ao múltiplo. O texto é também uma defesa da arte como campo ético e sensível, capaz de dialogar com cosmologias outras.

Paulo Pedro Leal e Ivan Moraes: Pintura e Espiritualidade na Invenção de um Brasil Ancestral
Autores: Marcelo Campos e Pollyana Quintella
O ensaio analisa as obras de Paulo Pedro Leal e Ivan Moraes, artistas que mobilizam referências espirituais, afro-brasileiras e indígenas em suas produções. A pesquisa destaca como suas pinturas constroem um imaginário ancestral do Brasil, no qual a espiritualidade não se separa da política nem da forma. A ancestralidade aparece como matéria estética e de resistência, operando como gesto de memória e reinvenção simbólica do território.

Mário Pedrosa (1900-1981) – Crítica (de) Arte como Ação Ética do Sujeito no Mundo
Autores: Martha Telles e João Cícero Bezerra
Este capítulo propõe uma leitura ética da crítica de arte de Mário Pedrosa, ressaltando sua concepção da arte como expressão de liberdade e agência subjetiva. A partir da trajetória intelectual de Pedrosa, os autores mostram como sua crítica foi marcada pelo compromisso político e pela crença na arte como instrumento de transformação social. O texto enfatiza a relevância de Pedrosa para uma crítica engajada, que reconhece a arte como campo de ação ética no mundo.

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