Para Benjamin, “método” e “estilo” não são ornamentos da crítica: são a própria condição de sua verdade e eficácia pública. Em seus fragmentos do “Programa da crítica literária” (1929–1930), ele formula um conjunto de regras operacionais – às vezes telegráficas, mas muito precisas – que redefinem como escrever crítica e como fazê-la intervir no mundo.
1) Dois instrumentos centrais: comentário e citação
A boa crítica se compõe, no máximo, de duas partes: comentário e citação. Com apenas comentário —-ou com comentário mais citação – já se podem escrever críticas excelentes; o que deve ser evitado “em absoluto” são resumos de conteúdo das obras. A exigência se radicaliza em forma de máxima: “não pode haver crítica sem ao menos uma citação da obra recenseada.”
2) Mapeamento de métodos (e o risco da dispersão)
Benjamin enumera os principais métodos que a crítica costuma adotar e alerta para o perigo da sua diversidade quando usados sem orientação estratégica:
- falar apenas do autor ↔ falar apenas da obra;
- considerar a obra em relação ao conjunto do autor ↔ tomar a obra “em si”;
- situar/comparar historicamente (por conteúdo ou estilo);
- examinar efeitos sobre o público (ponto de vista polêmico/antecipatório/referencial);
- tratar a obra como representante de uma tese ↔ ler a tese como representante de uma obra.
A lição não é abolir métodos, mas discipliná-los sob um plano crítico coerente, evitando a improvisação que dilui o juízo e o transforma em atomização.
3) Orientação materialista e fim do “neutralismo estético”
Contra a ficção de que a crítica deva aplicar critérios de uma estética “pura”, Benjamin sustenta que os tempos da velha estética passaram. A crítica consequente deve situar os livros no contexto de seu tempo (social, histórico, político), abrindo caminho para uma nova estética, dinâmica e dialética. Em outras palavras: não existe “terreno neutro” da arte; há que “arejar a máscara da arte pura” com o instrumento da crítica materialista.
4) Estratégia retórica: o uso econômico do elogio
Do ponto de vista estratégico, todo elogio é um “cheque em branco” e ameaça a credibilidade do crítico. Isso não impede que a “grande arte” seja elogiada; significa que, inclusive nela, a crítica severa deve iluminar o aparentemente secundário, redistribuindo relevâncias e evitando a complacência.
5) Postura de enunciação: quando e como falar
Cabe ao crítico comunicar ao público o momento em que vale a pena esperar pela sua intervenção e em que sentido ele usará a palavra. A crítica, assim, ganha um tempo próprio dentro da esfera pública, recusando tanto a tagarelice constante quanto o silêncio cúmplice.
6) “Questão do espaço” e o problema do estilo
Benjamin anota que o estilo da crítica envolve também uma “questão do espaço”, tema que ele liga às conversas com Bernhard Reich. A indicação, embora lacônica, sugere atenção à montagem do texto crítico (o modo como ele ocupa a página, articula citações, alterna análise e prova).
7) Sobre o “ad hominem” e a força do crítico
Há uma observação provocativa: quanto mais forte o crítico, mais intensamente ele pode ocupar-se da pessoa do seu opositor, “até os mais ínfimos pormenores da fisionomia”. Trata-se menos de defender ataques pessoais do que de reconhecer que, em certas disputas teóricas, a fisionomia intelectual (gestos, tiques, postura de pensamento) também é matéria de análise.
8) Contra a “crítica improvisada” e a aprendizagem com o cinema
Benjamin diagnostica a atomização da crítica quando o livro é tomado fora de contexto (tempo, autor, tendências), uma base até útil em raros casos de “crítica imanente”, mas insuficiente como norma. E observa: a crítica de livros deveria aprender com a crítica de cinema, não o contrário, como então ocorria.
9) Metáfora operativa: transplantar uma planta
A imagem mais bonita do método benjaminiano compara a crítica a transplantar plantas do jardim da arte para a “terra estranha do saber”, observando com atenção as mudanças de cor e forma no processo. O essencial é a “mão delicada” que arranca a obra “com raiz e tudo” e a reinstala num terreno mais alto de inteligibilidade — é assim que os aspectos mais válidos da obra se deixam ver como crítica em sentido nobre.

