O que Gombrich fala sobre os artistas no livro História da Arte

Ernst Gombrich, em História da Arte, dedica atenção especial à figura do artista, não apenas como criador de obras, mas como sujeito inserido em um contexto social, político e cultural. Ao longo do livro, ele mostra como a concepção do artista muda profundamente de época para época, acompanhando as transformações da própria arte.

No início da narrativa, Gombrich destaca que, na Antiguidade, não havia ainda a ideia de “gênio individual” que associamos ao artista. Os egípcios, por exemplo, eram artesãos que trabalhavam dentro de convenções rígidas, seguindo padrões estabelecidos para garantir permanência e ordem. A arte grega e romana também se relacionava mais com a função e a imitação da natureza do que com a expressão pessoal.

É no Renascimento que Gombrich enxerga uma virada decisiva: os artistas passam a ser vistos como indivíduos dotados de talento singular. Figuras como Leonardo da Vinci e Michelangelo encarnam o ideal do gênio criativo, e a arte se torna um espaço de afirmação pessoal. Nesse ponto, Gombrich ressalta como a sociedade começa a valorizar o artista quase como um visionário, alguém que não apenas executa, mas que inventa e cria novas formas de ver o mundo.

Nos capítulos finais, o autor mostra como, com a modernidade, essa concepção de artista se fragmenta. No século XIX, a ideia do gênio se radicaliza, associando o artista a uma figura marginal, incompreendida pelo público, como foi o caso de Van Gogh. Já no século XX, com as vanguardas, a posição do artista se transforma novamente: ele se torna um questionador das próprias bases da arte, rompendo tradições e colocando em xeque o que pode ou não ser considerado obra. Para Gombrich, a arte contemporânea exige do artista não apenas habilidade técnica, mas também capacidade crítica e conceitual.

O livro lembra que, em qualquer época, os artistas são produto de sua sociedade tanto quanto a transformam. Eles não existem isolados: trabalham a partir de tradições, dialogam com os materiais disponíveis e respondem a demandas de seu tempo. A genialidade, portanto, não está em criar do nada, mas em reinventar os meios, estilos e convenções herdados.

Principais pontos levantados por Gombrich sobre os artistas

  • Antiguidade: artistas como artesãos, subordinados a regras fixas e convenções coletivas.

Gombrich inicia lembrando que, nas civilizações antigas, como o Egito, não existia a ideia de artista como a entendemos hoje. O trabalho era coletivo e subordinado a convenções. O escultor egípcio, por exemplo, tinha como função manter as proporções e símbolos sagrados, sem espaço para a invenção individual. Sua habilidade estava em seguir regras rígidas que garantiam a permanência das formas.

Na Grécia, embora haja nomes como Fídias ou Policleto, o artista ainda não era visto como gênio criador, mas como mestre técnico. O objetivo era buscar a harmonia e a imitação da natureza. Já em Roma, muitos artistas continuavam anônimos, produzindo retratos, afrescos e mosaicos que serviam a funções sociais e políticas. O que se valorizava não era a “originalidade”, mas a capacidade de dar forma convincente ao mundo.

  • Renascimento: valorização do artista como gênio individual e inventor.

É no Renascimento que ocorre a mudança mais marcante. Para Gombrich, esse é o momento em que a sociedade passa a ver os artistas como indivíduos singulares, dotados de talento único. Giotto, por exemplo, rompeu com a tradição bizantina ao criar personagens mais humanos, com volume e emoção. Mais tarde, Leonardo da Vinci encarnou o ideal do artista como cientista e inventor, explorando tanto a anatomia quanto a perspectiva para revolucionar a pintura. Michelangelo, por sua vez, representava o artista-gênio que desafia limites, impondo sua visão pessoal mesmo diante de papas e mecenas.

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Nesse período, o artista já não é apenas um artesão a serviço, mas alguém cuja assinatura dá valor à obra. A ideia de estilo individual ganha força: cada mestre é reconhecido por suas escolhas formais e pela marca pessoal que deixa em suas criações.

  • Séculos XVIII e XIX: o artista se aproxima da imagem de outsider, muitas vezes em conflito com a sociedade.

Nos séculos seguintes, a posição do artista se consolidou. Pintores como Rembrandt e Velázquez, ainda que trabalhando sob encomenda, afirmaram sua autonomia criativa. Rembrandt, por exemplo, explorava a luz e a sombra de maneira quase experimental, enquanto Velázquez inseria questões filosóficas sobre a própria representação em obras como As Meninas.

Por outro lado, Gombrich lembra que as academias de arte, criadas no século XVII, também impuseram novas regras. O artista deveria dominar princípios como proporção, perspectiva e composição, reforçando a ideia de que a arte tinha leis próprias. Assim, conviviam a liberdade criativa e a disciplina acadêmica.

  • Século XX: artistas se tornam questionadores do próprio conceito de arte, rompendo fronteiras e criando linguagens experimentais.

O século XIX trouxe novas tensões. Com o romantismo e as mudanças sociais, o artista passa a ser visto muitas vezes como marginal, incompreendido pelo público. Van Gogh, por exemplo, se tornou símbolo dessa figura: alguém que, apesar de uma vida marcada por dificuldades, produziu uma obra intensa e visionária. Cézanne, por sua vez, se afastou da vida pública para investigar, quase em solidão, uma nova forma de pintar que abriu caminho para a modernidade.

Ao mesmo tempo, o surgimento da fotografia e das mudanças urbanas fez com que artistas como Monet e os impressionistas buscassem novas respostas: capturar o instante, a luz, o movimento da vida moderna. Gombrich ressalta como, nesse período, o artista deixa de ser apenas intérprete da realidade e se torna também um experimentador radical.

  • O século XX: artistas como questionadores da arte. Atistas estão sempre em diálogo com sua época – nunca isolados, mas também nunca totalmente conformados a ela.

Na arte do século XX, Gombrich mostra que a figura do artista se transforma mais uma vez. Picasso, por exemplo, não apenas dominou as tradições anteriores, mas as decompôs em novas linguagens, como o cubismo. Duchamp levou ainda mais longe a ruptura, ao propor que até um objeto comum poderia ser considerado arte se colocado em um novo contexto. Nesse momento, a habilidade técnica já não é suficiente: o artista precisa ser também um pensador, capaz de questionar o próprio conceito de arte.

As vanguardas, do futurismo ao surrealismo, revelam artistas que não se limitam à pintura ou à escultura, mas que intervêm na cultura e na política. Para Gombrich, esse cenário marca a passagem do artista como produtor de imagens para o artista como criador de ideias.

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