O Museu das Origens: um projeto de Mario Pedrosa

Quando o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro foi consumido pelas chamas em julho de 1978, o Brasil perdeu não apenas um acervo: perdeu a ilusão de que o modernismo europeu, transplantado para o trópico, era suficiente para dar conta da complexidade cultural do país. Das cinzas daquele incêndio, Mário Pedrosa — crítico de arte, militante político e um dos maiores intelectuais do século XX brasileiro — tirou uma proposta que até hoje desafia e interpela: o Museu das Origens.

A ideia não era simplesmente reconstruir o que havia se perdido. Pedrosa entendia que o modelo de museu que o MAM Rio representava – voltado para a aquisição de obras consagradas no eixo Nova York–Paris, comprometido com uma narrativa linear do modernismo ocidental – estava já obsoleto. Reconstituí-lo seria enterrar novamente o que o fogo havia apenas revelado: a insuficiência de uma arte que não olhava para dentro de si mesma, para o chão que pisava.

A crise da arte moderna como ponto de partida

Para entender o Museu das Origens, é preciso compreender o diagnóstico que o sustentava. Pedrosa havia acompanhado de perto as transformações da arte contemporânea desde o pós-guerra. Nos anos 1960, quando se aproximou de Hélio Oiticica, Lygia Clark e Antônio Dias, percebeu que algo havia se esgotado na ideia moderna de arte como objeto de contemplação desinteressada. Essas linguagens exigiam outro tipo de museu ou a recusa do museu como espaço de poder e separação.

Foi nesse período que Pedrosa começou a usar o termo “pós-moderno” para descrever o que estava emergindo. Em artigo de 1966 para o Correio da Manhã, o crítico já antecipava uma ruptura com os paradigmas estéticos dominantes, antes mesmo que essa palavra se tornasse moeda corrente nos debates europeus e norte-americanos. A crise que ele identificava não era apenas formal ou estilística: era civilizatória. A arte moderna, ao tornar-se mercadoria e especulação, havia perdido o elo com a experiência viva, com o ritual, com as fontes não contaminadas pelo racionalismo burguês.

O Museu das Origens nascia, portanto, não de um impulso nostálgico ou folclorizante, mas de uma convicção política e estética: era nos territórios da arte que o capitalismo ainda não havia capturado: a arte indígena, a produção dos internos psiquiátricos, a arte negra vinculada ao sagrado, as artes populares das regiões do interior, que a experiência humana preservava sua força transformadora.

Cinco museus, um organismo

A proposta era arquitetonicamente audaciosa: em lugar de um único museu reconstituído, Pedrosa imaginava um consórcio de cinco instituições “independentes, mas orgânicas”, capazes de dialogar entre si sem hierarquia.

1. Museu do Índio: a partir da instituição já existente, criada em 1953 por Darcy Ribeiro. Pedrosa queria integrar a arte indígena ao circuito contemporâneo, não como exotismo, mas como interlocutora das vanguardas.

2. Museu de Arte Virgem: formado a partir do Museu de Imagens do Inconsciente, de Nise da Silveira. Acolheria a produção de crianças, de pessoas com transtornos mentais e de artistas “primitivos” — a arte anterior ao academicismo.

3. Museu do Negro: constituído por peças africanas e por obras criadas no Brasil, sobretudo nos contextos dos cultos religiosos de matriz africana, onde a arte permanece viva em sua função ritual.

4. Museu de Artes Populares: composto por peças das diversas regiões do Brasil, mas com um olhar que distinguia o interesse genuíno pelas raízes da folclorização colonizada, instrumentalizada pelo Estado modernizante.

5. Museu de Arte Moderna: o núcleo central do conjunto, que deveria reconstituir um acervo representativo da arte brasileira contemporânea, em diálogo vivo com os quatro outros museus.

A lógica estrutural do conjunto não era colecionista nem enciclopédica: era dialógica. Pedrosa pensava em termos de campo de forças, de tensões produtivas entre linguagens que a história da arte ocidental havia separado por hierarquia, como a arte erudita de um lado, artesanato e folclore do outro. Reunidas em uma única instituição, essas produções se iluminariam mutuamente, desfazendo as fronteiras que as mantinham invisíveis ou menores.

Arte Virgem: o inconsciente como fonte

De todas as unidades propostas, o Museu de Arte Virgem é talvez a mais reveladora do pensamento de Pedrosa. Desde 1947, quando descobriu a produção plástica de internos do Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II (Adelina Gomes, Emygdio de Barros, Raphael Domingues e Carlos Pertuis), o crítico havia identificado naquelas obras uma força que escapava às categorias convencionais da crítica. Não se tratava de patologia expressa em tela, mas de uma vitalidade formal que a arte acadêmica havia perdido.

Esse encontro foi mediado pela psiquiatra alagoana Nise da Silveira, que dirigia o Setor de Terapia Ocupacional do CNPPII e cujo trabalho com Jung e com a imagem como linguagem do inconsciente abriu uma janela inteiramente nova para Pedrosa. A parceria entre o crítico de arte e a psiquiatra é um dos episódios mais fecundos da cultura brasileira do século XX: duas inteligências díspares reconhecendo no mesmo objeto, a pintura dos chamados alienados, uma proposição estética e humanista de primeira grandeza.

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O conceito de “arte virgem”, cognato do Art Brut europeu, que Pedrosa conhecia através de André Breton e Charles Etienne, designava produções imunes ao racionalismo acadêmico: a espontaneidade da infância, o coletivismo ritual dos povos originários, a imagética do inconsciente. Ao incluir esse tipo de produção no museu, Pedrosa não fazia uma concessão ao primitivismo: afirmava que a essas linguagens cabia um lugar igualitário no debate estético contemporâneo.

A dimensão política: decolonialidade avant la lettre

O Museu das Origens é também, profundamente, um projeto político. Pedrosa havia vivido no Chile os anos da experiência socialista de Allende, participando da criação do Museo de la Solidaridad – espaço alimentado por doações de artistas de todo o mundo comprometidos com a causa. Após o golpe de Pinochet em 1973, exilou-se na França, onde redigiu as Teses para o Terceiro Mundo (1978). Esse texto é o pano de fundo intelectual do MO: nele, Pedrosa articula a crise do capitalismo com a destruição das culturas pré-capitalistas pelo imperialismo.

Sua posição diante das culturas indígenas era décadas à frente do senso comum intelectual da época. Em seu Discurso aos Tupiniquins e Nambás (1976), Pedrosa expressava confiança na potência criativa e revolucionária dos povos originários. Para ele, a conquista e colonização das Américas havia sido muito mais um sinal de atraso e violência do que um exemplo de civilização. O que hoje chamamos de perspectiva decolonial, a recusa em aceitar o ponto de vista europeu como universal, estava presente, ainda que sem esse vocabulário específico, no pensamento do crítico brasileiro.

Não por acaso, o projeto do Museu do Negro era parte central do conjunto. Ao propor que o acervo fosse constituído não apenas por peças africanas trazidas para o Brasil, mas sobretudo por obras criadas no contexto dos cultos religiosos, onde a arte permanece viva em sua função, integrada ao ritual e à comunidade, Pedrosa recusava a musealização como captura e neutralização da diferença. A arte negra, no MO, não seria objeto de estudo antropológico: seria interlocutora estética.

Gestalt, holismo e a ideia de um museu como campo

Há uma dimensão menos discutida na proposta do MO, mas que lhe dá coerência filosófica: a influência da teoria da Gestalt no pensamento de Pedrosa. Desde seu contato com a psicologia da forma, o crítico havia desenvolvido a ideia de que a experiência estética não é produto de elementos isolados, mas de relações de campos de força em que cada parte adquire sentido na totalidade.

A estrutura do Museu das Origens era uma aplicação museológica desse princípio. Cinco instituições independentes, cada uma com sua lógica e acervo próprios, mas capazes de produzir, em conjunto, uma experiência que nenhuma delas poderia oferecer sozinha. Era um museu pensado como campo perceptivo, em que a justaposição de arte indígena, produção psiquiátrica, arte negra, artes populares e arte moderna contemporânea ativaria conexões e percepções impossíveis dentro dos compartimentos convencionais.

Essa intuição holística antecipava, de certa maneira, a mostra Magiciens de la Terre, organizada por Jean-Hubert Martin no Centre Pompidou em 1989, que reuniria artistas do eixo ocidental com criadores da África, Ásia e Américas, tentando colocar em pé de igualdade aquilo que o sistema da arte havia separado por hierarquia geopolítica. Pedrosa havia chegado a essa ideia com mais de uma década de antecedência, e a partir de dentro de uma cultura periférica, não como gesto condescendente de um curador europeu descobrindo o Outro.

Hélio Oiticica e a convergência de sensibilidades

A proximidade de Pedrosa com Hélio Oiticica não era apenas de admiração: era uma convergência de projetos. A fórmula de Oiticica, “o museu é o mundo, é a experiência cotidiana”, ecoa diretamente a proposta do Museu das Origens. Quando o artista carioca convidou integrantes da escola de samba Mangueira para participar da mostra Opinião 65 no MAM Rio, e os sambistas foram impedidos de entrar no espaço interno do museu, a contradição entre o discurso inclusivo da instituição e suas fronteiras reais tornou-se explícita.

O Museu das Origens era, entre outras coisas, uma resposta estrutural a esse episódio. Não bastava ampliar o que se exibia dentro das paredes de um museu: era preciso repensar quais paredes, e para quem elas existiam.

Uma utopia ainda por realizar

O projeto não se concretizou naquele momento. Assim como o Museu de Brasília, que Pedrosa havia proposto em 1958 a Oscar Niemeyer, o Museu das Origens ficou no plano das ideias, um horizonte que o Brasil não conseguiu alcançar. As razões são múltiplas e conhecidas: a fragilidade das políticas culturais, a resistência de instituições habituadas a outra lógica, a dificuldade de financiar um empreendimento de tal escala.

Mas o que torna o MO um projeto visionário – e não apenas uma boa ideia não realizada – é que as condições para sua realização tornaram-se, nas décadas seguintes, muito mais maduras do que eram em 1978. As questões de identidade, raça, gênero e diversidade que hoje estruturam os debates culturais mais relevantes são exatamente aquelas que o MO colocava no centro. A emergência dos estudos decoloniais, a inclusão progressiva de artistas indígenas em espaços de prestígio como a Bienal de São Paulo, o reconhecimento crescente da arte afro-brasileira e popular como produção estética plena: tudo isso são ecos, ainda tardios, do que Pedrosa havia formulado.

O Museu das Origens permanece, quarenta e poucos anos depois da morte de seu idealizador, como um desafio não respondido. Não porque seja impossível, mas porque exige uma escolha cultural e política que o Brasil ainda não fez plenamente: a de reconhecer que suas raízes mais profundas (indígenas, africanas, populares, marginais) não são apêndices folclóricos de uma modernidade importada, mas o centro vivo de uma experiência estética e humana que nenhum outro lugar do mundo poderia produzir da mesma forma. Pedrosa sabia disso. Falta que as instituições aprendam.

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