Em abril de 1958, Clifford Geertz e sua mulher, também antropóloga, chegaram a uma pequena aldeia balinesa de cerca de quinhentos habitantes, com a intenção de ali conduzir um estudo de campo prolongado. O início não foi promissor: doentes de malária, os dois pesquisadores foram tratados pelos aldeões com uma indiferença deliberada e muito particular, que o próprio Geertz descreve como o tratamento reservado a quem ainda não é considerado, plenamente, uma pessoa real. Dez dias depois, contudo, um episódio mudou por completo essa relação. Uma briga de galos organizada na praça central — atividade proibida pelo governo indonésio da época, mas amplamente praticada apesar da proibição — foi interrompida por uma batida policial armada. Em meio ao pânico geral, Geertz e sua esposa fugiram junto com o restante da aldeia, refugiando-se na casa de um morador desconhecido. No dia seguinte, a aldeia inteira já sabia da fuga dos dois estrangeiros, e o gesto, longe de constrangê-los, tornou-se o ponto de virada de sua inserção ali: ter corrido como todos os outros, em vez de invocar a proteção de sua condição de pesquisadores estrangeiros, foi lido pelos balineses como um sinal de solidariedade genuína. A partir desse episódio, as portas da aldeia — e, com elas, o acesso etnográfico à briga de galos como instituição central da vida social balinesa — se abriram.
É esse episódio que abre “Um Jogo Absorvente: Notas sobre a Briga de Galos Balinesa”, publicado originalmente em 1972 na revista Daedalus e incluído no ano seguinte como capítulo de fechamento de A Interpretação das Culturas. Se “Uma Descrição Densa”, texto que inaugura a coletânea, oferece o método — a defesa teórica da etnografia como interpretação estratificada de sistemas de significado —, o ensaio sobre a briga de galos oferece sua demonstração mais completa, mais elaborada e, até hoje, mais citada. É também o texto que projetou Geertz muito além dos limites da antropologia acadêmica, influenciando diretamente os estudos culturais, a crítica literária e, por extensão, o vocabulário com que a curadoria contemporânea pensa a própria prática de organizar exposições como narrativas. Nele, o autor descreve como um jogo aparentemente frívolo revela, em miniatura, a arquitetura inteira de status de uma sociedade — e chega a uma das formulações mais produtivas, e também mais arriscadas de manusear sem cuidado, das ciências humanas do século XX: a ideia de que a cultura de um povo pode ser lida como um conjunto de textos.
O jogo profundo: quando apostar deixa de ser sobre dinheiro
Para explicar por que a briga de galos absorve tão completamente os homens balineses, Geertz recorre a um conceito do filósofo utilitarista Jeremy Bentham: o deep play, o jogo profundo. Bentham definia esse tipo de jogo como aquele em que as apostas são tão altas que, do ponto de vista estritamente utilitário, participar dele é irracional — a dor potencial da perda supera qualquer prazer possível do ganho, para ambas as partes envolvidas. Sua conclusão era prática e moralista: o jogo profundo deveria ser proibido por lei, por ser inerentemente imoral em seus fundamentos.
Geertz recupera esse conceito não para validar a condenação de Bentham, mas para invertê-la. Se homens continuam a se lançar nesse tipo de jogo, apaixonadamente e apesar de qualquer punição legal, é porque a lógica que os move não é a lógica do lucro material, mas outra: nas apostas mais altas das brigas de galos balinesas, o dinheiro deixa de funcionar como medida de utilidade e passa a operar como símbolo — de status, de honra, de dignidade, de prestígio social. Ninguém sai de uma briga de galos com sua posição social efetivamente alterada; o que está em jogo é simbólico, mas nem por isso menos real ou menos avaliado com profundidade por quem participa. Nas palavras do autor, o que os balineses fazem, nos grandes embates, é colocar o dinheiro exatamente onde está o status.
Esse mecanismo revela também uma hierarquia moral entre os próprios apostadores: mulheres, crianças e os socialmente marginalizados participam apenas dos pequenos jogos de azar nas margens da arena; os apostadores comuns arriscam-se nas lutas médias; e os cidadãos mais respeitados da comunidade — aqueles que efetivamente definem e dominam a vida social local — são também os que disputam e apostam nos grandes embates, tratados quase como uma questão de honra, algo mais próximo de um duelo simbólico do que de um jogo de azar mecânico. A briga de galos, assim, não distribui prestígio de forma aleatória: ela espelha, confirma e dramatiza a hierarquia de status que já organiza a aldeia fora da arena.
A cultura como um conjunto de textos
É a partir dessa análise que Geertz chega à formulação que tornaria o ensaio célebre para muito além da etnografia balinesa: a briga de galos funciona como uma história que os balineses contam a si mesmos sobre si mesmos. Ela não reflete passivamente a estrutura social — ela a interpreta, articulando de forma condensada, num evento cerimonial delimitado no tempo e no espaço, tensões que a vida cotidiana mantém dispersas e contidas. Comparando o efeito da briga de galos ao efeito de uma tragédia shakespeariana ou de um romance de Dickens, Geertz observa que sua função não é registrar o que aconteceu, mas oferecer aos balineses uma leitura organizada, esteticamente distanciada, do tipo de coisa que constantemente acontece na experiência social deles. É nesse sentido que a cultura de um povo pode ser descrita como um conjunto de textos, eles mesmos compostos de outros textos menores, que o pesquisador tenta ler por cima do ombro de quem os produziu.
Vale registrar, com o cuidado que a passagem exige, que o próprio Geertz relativiza imediatamente essa formulação: a briga de galos não é a chave única da vida balinesa, assim como a tourada não esgota a cultura espanhola. Outras cerimônias — os rituais de consagração sacerdotal, os festivais coletivos de aldeia — revelam facetas radicalmente diferentes, e igualmente reais, da mesma sociedade. O autor chega a mencionar, en passant e sem qualquer intenção de estabelecer relação causal, a onda de violência política que atingiu Bali poucos anos depois de sua pesquisa de campo, como lembrete de que nenhuma leitura cultural, por mais reveladora que seja, é suficiente para prever ou explicar integralmente a vida de um povo.
Da arena de galos à sala de exposição
Essa ideia de cultura como texto tem consequências diretas para a curadoria contemporânea, que já opera, com frequência, sob a metáfora implícita da exposição como narrativa — um conjunto de obras organizado espacialmente para contar algo sobre um artista, um período, uma questão social. O ensaio de Geertz oferece a essa intuição um fundamento teórico mais preciso, e também seus limites de uso. Se uma mostra pode ser lida como um texto que uma comunidade artística, uma geração ou um território escreve sobre si mesma, cabe ao curador — como ao antropólogo diante da arena de galos — a tarefa de identificar que tensões estão sendo dramatizadas ali, que hierarquias estão sendo confirmadas ou contestadas, que experiências dispersas da vida cotidiana estão sendo temporariamente organizadas em algo legível.
Mas o mesmo ensaio adverte contra o excesso de confiança nessa metáfora. Assim como a briga de galos não esgota Bali, nenhuma exposição esgota o campo artístico ou social que se propõe representar — e o risco, para a curadoria, é o mesmo risco que Geertz assinala para a própria antropologia: tratar a leitura curatorial como se fosse a leitura definitiva, fechando prematuramente um texto que, por definição, comporta múltiplas entradas, múltiplos percursos possíveis e múltiplas interpretações legítimas. Ler a cultura como texto exige, ao mesmo tempo, o rigor de reconhecer os padrões que se repetem e a humildade de saber que todo texto cultural continua, depois da leitura, aberto a outras leituras.