Uma cicatriz, uma rota comercial, um cabo submarino, um glifo, um fio de cabelo trançado. Para Marcia Kure, todos esses elementos são formas de desenho. A artista nigeriana passou três décadas investigando a linha: primeiro como traço herdado do uli, a tradição gráfica das mulheres igbo; depois como corte, costura e colagem; e, mais recentemente, como infraestrutura, capaz de mapear as redes de comércio, trabalho, migração e extração que atravessam os corpos. Em 2026, essa pesquisa chegou à 61ª Bienal de Veneza, na exposição In Minor Keys.

Quem é Marcia Kure
Marcia Kure nasceu em 1970 no estado de Kano, na Nigéria. É uma artista multidisciplinar que trabalha com pintura, desenho, colagem, escultura e instalação, e sua obra investiga identidade, história e os efeitos duradouros do colonialismo. Vive e trabalha entre Princeton, em Nova Jersey, e as cidades nigerianas de Abuja e Kaduna.
Ao longo da carreira, participou das bienais de Sharjah (2005), Sevilha (2006) e Dakar (2014) e da La Triennale de Paris (2013). Suas obras integram os acervos do British Museum, do Centre Pompidou, do National Museum of African Art do Smithsonian e da Menil Collection, entre muitos outros.
Formação em Nsukka e o encontro com o uli
Kure estudou na Universidade da Nigéria, em Nsukka, sob orientação do pintor Obiora Udechukwu, e se formou em pintura em 1994. Nsukka é o berço de um dos movimentos mais importantes da arte moderna africana, e Kure foi formada pelos membros fundadores dessa escola. No ano da formatura, recebeu o Prêmio Uche Okeke de Desenho. Depois, estudou na Skowhegan School of Painting & Sculpture e na Haystack Mountain School of Crafts, ambas no Maine, nos Estados Unidos.
Em Nsukka, Kure encontrou o uli, tradição gráfica das mulheres igbo do leste da Nigéria, marcada por formas lineares e uso mínimo de cor. O uli era traçado tradicionalmente sobre os corpos e as paredes das casas. A artista conta que aprendeu com pintoras de murais uli e com sistemas indígenas de marcação, e que o que permaneceu com ela foi a relação da linha com o corpo, a arquitetura, a comunicação e a inscrição.
Essa formação define toda a sua obra. Kure explica que o uli lhe ensinou que uma marca pode funcionar ao mesmo tempo como comunicação, corporalidade, arquitetura, memória e organização do espaço. Por isso ela enxerga sua trajetória como continuidade: a linha apenas se expandiu para sistemas de relação cada vez maiores.
Pigmentos que carregam história

Desde os anos de Nsukka, Kure usa pigmentos africanos tradicionais, como a noz-de-cola e o café. Com o tempo, vieram o índigo, o carvão, o chá e o ouro. Para a artista, esses materiais valem pelo que carregam. O índigo traz a história do cultivo, do comércio e do trabalho forçado; o carvão carrega a combustão e a energia; o ouro, a extração e a acumulação imperial; e a noz-de-cola, sistemas de troca, cerimônia, migração e sobrevivência.
Kure também observa como esses materiais se comportam com o tempo: mancham, desbotam, oxidam, se dispersam. A natureza e o tempo se tornam colaboradores da obra, e os pigmentos passam a funcionar como evidência e resíduo de sistemas mais amplos.
Anos 1990 e 2000: violência política e agência feminina
As mulheres veladas
A produção inicial de Kure se concentrou na violência política e na agência das mulheres em uma sociedade patriarcal. Imagens de mulheres veladas aparecem em sua obra desde Purdah (1992) e retornam com frequência, muitas vezes com tecidos, para examinar as relações entre gênero e poder. Em Woman as Warrior (1997), uma figura feminina ostenta atributos associados à autoridade masculina.
A obra de Marcia Kure mostra como uma tradição local pode se tornar uma ferramenta para pensar o mundo inteiro. Partindo do uli, que as mulheres igbo traçavam sobre corpos e paredes, a artista construiu uma linguagem capaz de ligar cicatrizes a rotas comerciais, tranças a cadeias petroquímicas e armazéns logísticos a sistemas de escrita africanos. Sua trajetória atravessa três décadas de debates sobre corpo, gênero, moda, diáspora e colonialismo, e chega a Veneza propondo que o desenho, a arte do traço discreto, pode ser uma forma de resistência às lógicas de controle e classificação.
Cloth as Identity (2000)
Na individual Cloth as Identity, no Goethe-Institut de Lagos, em 2000, Kure apresentou uma performance em que mulheres vestindo burcas dançavam hip-hop ao som de afrobeat. A cena condensava temas que ela desenvolveria nas duas décadas seguintes: o tecido como identidade, o corpo feminino, a cultura global da música negra.
A série History of Africa by Fela (2001-2003) reúne 59 painéis feitos com tinta, pigmento de noz-de-cola e lápis sobre papel. O título remete a Fela Kuti, criador do afrobeat e figura central da resistência política na Nigéria.
Moda, hip-hop e corpos híbridos
Nos anos 2000 e 2010, a obra de Kure passou a tratar da maternidade, da alta-costura, da estética do hip-hop e de sua própria experiência de expatriada. A colagem se tornou uma ferramenta central: na série Ethnographica (2014), ela junta fragmentos de imagens de mundos aparentemente desconectados, como a cultura hip-hop e a moda vitoriana.
A artista costuma usar a roupa como metáfora do corpo e se compara a uma cirurgiã que costura pontos no tecido, desenhando com tesoura, agulha e linha. Suas colagens se apropriam de imagens de publicações etnográficas, catálogos de leilão, revistas de moda e arquivos fotográficos coloniais, e, ao cortar e rasgar, ela embaralha as relações entre figura e fundo.
Em The Renate Series (2013), aquarelas fantasmagóricas representam trabalhadoras por meio de suas roupas, figuras que a história dominante registra apenas como anônimas. Nas palavras da artista sobre o conjunto de sua obra, queloides e cicatrizes funcionam como metonímias de uma dialética entre beleza e dor.
Em 2013, a individual Tease, na Susan Inglett Gallery, em Nova York, recebeu atenção do New York Times, que destacou as figuras híbridas feitas de linhas sinuosas do uli, moda colonial e referências ao hip-hop. Kure definiu sua posição em uma entrevista de 2015: ela diz preferir a zona cinzenta onde oposições e justaposições se encontram.
Uma das obras mais conhecidas de Kure dialoga com As Três Graças [The Three Graces (2013-2014)] de Rafael. O tríptico reúne feltro costurado, perucas sintéticas e escudos de madeira em um retrato abstrato de três mulheres africanas: as guerreiras Amazonas do Reino do Daomé, a rainha zulu Nandi ka Bhebhe, do século XVIII, e a nacionalista e pioneira feminista nigeriana Funmilayo Ransome-Kuti. Segundo a artista, eram mulheres frequentemente retratadas como insubordinadas, e a obra busca dar nova vida a histórias esquecidas e apagadas.
Residência no Victoria and Albert Museum (2014)
De janeiro a março de 2014, Kure foi artista residente do V&A, em Londres, com apoio da The African Arts Trust. Durante a residência, visitou alfaiatarias de Savile Row, estudou a obra de Alexander McQueen e pesquisou o acervo têxtil do Clothworkers’ Centre. Dessa pesquisa nasceram esculturas de tecido que ela descreve como colagens tridimensionais de justaposições estranhas, que expõem partes ocultas e revelam as imperfeições do corpo.
Uma dessas peças, Freud and the Conformist (2014), feita de lã, poliéster, algodão, linha, peruca sintética e brinquedo de pelúcia, foi exposta na individual Conformity, na Purdy Hicks Gallery, em Londres. Na residência, Kure também criou o Home and Object Project, oficina com pessoas que viveram situações de falta de moradia sobre os objetos que carregam consigo e o sentido de casa que eles guardam.
Escultura: tapetes, perucas e cabelo trançado
A escultura ganhou peso crescente na obra de Kure. Yanka (2016) é uma grande peça feita de tapete, linha, ilhoses de metal, poliéster, papel e bolas de algodão. Entre 2007 e 2008, a artista recebeu apoio da The Puffin Foundation para a escultura Burqua as Shelter.
O cabelo sintético se tornou um dos seus materiais mais importantes. Kure explica que ele fica na interseção entre corpo, beleza, trabalho, fantasia, produção petroquímica e comércio global. A trança, para ela, é trabalho acumulado e conhecimento transmitido entre gerações de mulheres, e ao mesmo tempo produto de indústrias transnacionais.
Em 2015, Kure integrou a exposição itinerante Body Talk – Feminism, Sexuality, and the Body in the Work of Six African Women Artists, apresentada no WIELS (Bruxelas), na Lunds Konsthall (Suécia) e no Frac Lorraine (Metz). O catálogo foi coeditado por Koyo Kouoh, a curadora camaronesa que, uma década depois, convidaria Kure para a Bienal de Veneza.
NETWORK: a linha como rota comercial
Entre outubro de 2021 e setembro de 2022, o Menil Drawing Institute, em Houston, apresentou NETWORK, desenho de parede monumental e efêmero de Kure. A obra usava a linha como metáfora das rotas comerciais históricas e contemporâneas, com noz-de-cola, índigo, chá e carvão como materiais de desenho, commodities que traçam o mapa da diáspora africana. A instalação incluía duas esculturas africanas, uma no estilo de um toucado mande e outra de uma figura feminina dogon, modificadas pela artista com extensões de cabelo sintético.
Na apresentação da obra, Kure definiu a linha como algo que contém memória, propósito e pensamento, uma marca da qual todos participam com o corpo inteiro no dia a dia.
Do armazém ao desenho
Um capítulo recente da biografia de Kure transformou sua obra. A artista trabalhou em meio período como vendedora e depois em centros de distribuição da Amazon. Lá, tudo era rastreado, cronometrado e monitorado, e o próprio trabalho se tornava logístico. Ela se fascinou pela coreografia desses espaços: as fitas de sinalização que dirigem os corpos, as marcas das empilhadeiras no chão, os scanners, as inscrições nos pacotes vindos de outros continentes.
Kure passou a entender a logística contemporânea como uma forma de inscrição em escala arquitetônica e planetária, em continuidade com as rotas comerciais e os cabos submarinos de seus desenhos. Ela reconhece o desconforto de estar dentro do sistema que tenta mapear.
Network V na 61ª Bienal de Veneza (2026)
Em fevereiro de 2026, a Susan Inglett Gallery, de Nova York, e a kó, de Lagos, anunciaram que Kure havia sido convidada para a 61ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza por Koyo Kouoh. In Minor Keys, concebida por Kouoh, fica em cartaz de 9 de maio a 22 de novembro de 2026, nos Giardini e no Arsenale. Após a morte da curadora em maio de 2025, a Bienal decidiu realizar a exposição com apoio da família, preservando suas ideias.
Kure apresenta Network V, que investiga o desenho como sistema de inscrição moldado pelo comércio, pela migração, pelo trabalho, pelos sistemas de conhecimento africanos e pelas infraestruturas globais. A instalação reúne desenhos em grande escala e esculturas de cabelo sintético sob luz baixa, pensada para que o público desacelere e se aproxime.
Os glifos e as rotas
Nas telas, Kure parte de sistemas de escrita e notação africanos como nsibidi, adinkra, uli, bamum e ge’ez. Fragmentos desses glifos se combinam com as marcas da logística contemporânea: fita de chão de armazém, rastros de empilhadeira, rotas de voo, cabos. Os pigmentos incluem índigo, carvão, ouro e noz-de-cola. A artista relata que transcreveu na superfície de uma das telas a cotação do ouro de um dia e que notícias de conflitos entraram no desenho enquanto a obra era embalada para Veneza.
Roadkill
As esculturas da série Roadkill surgiram no mesmo período dos armazéns. A caminho do trabalho, Kure encontrava animais atropelados, suspensos entre a vida e a morte, entre a natureza e a infraestrutura industrial. Feitas de cabelo sintético trançado à mão, as peças ficam suspensas e giram com o movimento do ar e dos visitantes. Roadkill III (2025-2026) está no Arsenale.
Kure descreve o desenho como uma “tonalidade menor”, em diálogo direto com o título da Bienal: o traço, a marca que persiste abaixo do limiar da visibilidade. Para ela, a opacidade pode ser uma forma de resistência aos sistemas coloniais e de vigilância que dependem de classificar e tornar tudo legível.
Formação e acervos
Kure fez estágio docente na St. Mark’s School, em Massachusetts, em 2004, e foi professora visitante do Royal Institute of Art de Estocolmo entre 2019 e 2020. Foi pesquisadora do Smithsonian em 2008. Em 2023, a kó apresentou na Abu Dhabi Art um diálogo entre Kure e seu antigo professor Obiora Udechukwu, reunindo duas gerações da escola de Nsukka.
Suas obras estão no British Museum, no Centre Pompidou, no National Museum of African Art do Smithsonian, no High Museum of Art de Atlanta, no Newark Museum of Art, no Hood Museum of Art, no Princeton University Art Museum, no Spelman College Museum of Fine Art, no Block Museum of Art, no Iwalewahaus de Bayreuth, no Frac Lorraine e na Menil Collection. O Studio Museum in Harlem também integra a lista.