Alexa Kumiko Hatanaka: papel, gelo e um corpo

Alexa Kumiko Hatanaka trabalha com um dos materiais mais frágeis e mais antigos da humanidade: o papel. A partir dele, a artista nipo-canadense constrói esculturas costuradas, grandes instalações de gravura e roupas vestíveis que falam de mudança climática, saúde mental e sobrevivência. Sua obra reúne as técnicas artesanais de sua herança japonesa, uma década de trabalho coletivo com jovens inuítes no Ártico canadense e a própria experiência de viver com transtorno bipolar. Em 2026, ela integra a exposição In Minor Keys, na 61ª Bienal de Veneza.

Uma artista feita de papel

Hatanaka nasceu em Toronto, no Canadá, em 1988, e hoje divide sua vida entre Toronto, Nova York e o Japão. Ela se apresenta como artista nipo-canadense, queer e com deficiência, e afirma que essa identidade molda toda a sua prática.

Sua formação começou na gravura, curso que concluiu na OCAD University, em Toronto, com um período de intercâmbio no Instituto de Artes de Nanjing, na China. Em 2011, estudou xilogravura tradicional chinesa no país onde o papel foi inventado, e desde então pesquisa a história desse material, sua circulação entre diferentes regiões e os esforços atuais para preservar sua fabricação artesanal. Em 2023, fez uma residência em uma fábrica de washi, o papel japonês, na província de Kōchi, onde estudou tradições de fabricação que remontam ao século VII.

Esse aprofundamento técnico sustenta uma escolha ética. A artista trabalha com processos históricos do papel que dependem de um ambiente limpo e, ao mesmo tempo, contribuem para preservá-lo. Suas colchas de papel seguem o princípio japonês do mottainai, que valoriza o reaproveitamento: ela recolhe retalhos de costura e sobras de trabalhos anteriores, às vezes incorpora sacos de arroz de papel, reutiliza matrizes antigas de gravura e trabalha com washi vintage da fábrica Kashiki Seishi, com peças de mais de cinquenta anos. As folhas são engomadas com konnyaku, um amido vegetal, e se transformam em tecidos flexíveis e resistentes que acumulam camadas de história.

Ao repertório se somam o tingimento natural, a linoleogravura, o desenho a tinta e o gyotaku, técnica japonesa de imprimir peixes reais sobre o papel. O resultado são obras que parecem, ao mesmo tempo, gravura, têxtil e escultura.

Uma década no Ártico

Em paralelo à pesquisa com o papel, Hatanaka construiu uma longa relação com o Ártico canadense. Tudo começou em 2010, quando ela conheceu o artista Patrick Thompson, que vinha da cena do grafite de Ottawa e já havia pintado murais em comunidades do norte. Hatanaka passou a acompanhá-lo, os dois se apaixonaram pela região e formaram a dupla PA System.

Juntos, criaram murais nas aldeias de Igloolik, Cape Dorset, Iqaluit e Hall Beach e nas cidades de Kangiqsujuaq, Kuujjuaq e Inukjuak, no norte do Quebec. Também levaram as técnicas do muralismo para uma grande parede de gelo na Ilha de Baffin, em colaboração com os jovens artistas inuítes Parr Etidloie e Audi Qinnuayuak, experiência registrada em filme.

Durante o verão ártico, os jovens das comunidades passavam horas sob o sol da meia-noite observando a dupla pintar, fazendo perguntas e admirando o trabalho. Em 2014, ao receber a encomenda de um mural em Cape Dorset, os artistas decidiram oferecer uma oficina consistente para a juventude local. Dali nasceu a Embassy of Imagination, iniciativa artística multidisciplinar para jovens sediada em Kinngait, nome inuktitut de Cape Dorset, comunidade com uma longa linhagem de artistas influentes. A dupla passou a viver três meses por ano na cidade.

O papel de Hatanaka e Thompson mudou com o tempo. Ela explica que os desenhos passaram a ser todos dos jovens, e que a função da dupla se tornou criar plataformas para que essas criações circulem na própria comunidade e no sul do país. Em 2015, jovens de Kinngait e estudantes de Toronto pintaram juntos o mural Piliriqatigiingniq, palavra que designa um princípio do conhecimento tradicional inuíte: trabalhar juntos por um objetivo comum. A imagem central partiu de um desenho de Parr Josephee sobre o avô, que carregou nas costas uma moto de neve quebrada de volta para a cidade.

Em 2019, a Embassy of Imagination participou da Bienal de Arte de Toronto com Sinaaqpagiaqtuut/The Long-Cut, uma procissão em duas partes que começou em Kinngait e continuou em Toronto, com esculturas, estandartes e peças vestíveis criadas por estudantes da escola secundária de Kinngait. O projeto reafirmava os laços entre as duas cidades por meio das águas, do mercado de arte, das colaborações artísticas e do céu noturno. Entre as obras do coletivo está também a escultura Future Snowmachines, que arrecada fundos para programas comunitários de vivência no território.

Peixes, terremotos e roupas de papel

O peixe é o motivo mais recorrente da obra de Hatanaka, e carrega vários sentidos ao mesmo tempo. Ele aparece com frequência no folclore japonês, remete ao bisavô da artista, que era pescador, e evoca as crises ambientais que a levaram a colocar as técnicas sustentáveis no centro de sua prática.

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Uma de suas obras mais importantes, Namazu (2023), conta a lenda japonesa do bagre gigante cujos movimentos provocavam terremotos. A peça mede cerca de 3,25 por 1,78 metro e reúne washi costurado, com pedaços que a artista colecionou ao longo de três anos, gyotaku, linoleogravura entalhada e impressa à mão, tingimento natural e tinta. O mito do peixe que faz a terra tremer ganha, em sua obra, uma ressonância com as instabilidades do presente.

Hatanaka também desenvolve performances colaborativas que reinterpretam o kamiko, vestimenta tradicional japonesa costurada em washi. Nessas peças vestíveis, as fronteiras entre artesanato, moda e arte se dissolvem, e o papel volta a funcionar como roupa, abrigo e superfície de narrativa.

Clima e saúde mental

O traço mais singular da obra de Hatanaka é a forma como ela conecta a crise climática à experiência psíquica. A artista vive com transtorno bipolar e trata essa condição como parte constitutiva de sua prática.

Uma pesquisa recente sobre a origem evolutiva do transtorno bipolar sugere que ele pode ter se desenvolvido durante a última Era do Gelo como uma resposta adaptativa à variabilidade climática extrema. Para Hatanaka, essa hipótese indica que a condição talvez tenha surgido como uma sintonia sensível com a natureza, cultivando um espectro amplo de estados de humor, e ajuda a entender por que ela pode ser útil num mundo em que o clima continua mudando. A ideia transforma a forma como o transtorno costuma ser encarado e aproxima o corpo individual das transformações do planeta.

Essa reflexão ganhou forma em junho de 2024, quando Hatanaka fez uma residência no histórico Tom Thomson Shack, na McMichael Canadian Art Collection, em Ontário. O projeto resultante, Final Gasp of the Nervous System, responde ao ambiente natural e evoca a resiliência pessoal e coletiva diante das crises de saúde mental e da emergência climática. Obras como Faultlines and Loneliness (2024) e Instability (2024) mapeiam mudanças psicológicas coletivas por meio de gráficos que mostram o crescimento acentuado do uso das palavras solidão e instabilidade ao longo do tempo. A paisagem gravada e a curva estatística aparecem lado a lado, como se o território e a mente registrassem o mesmo abalo.

Na Bienal de Veneza

Em In Minor Keys, Hatanaka apresenta obras dentro e fora do Pavilhão Central, nos Giardini. As séries Moveable e Immoveable trazem linoleogravuras dos montes de neve que os inuítes usam há séculos como guias naturais de navegação, formações hoje ameaçadas pelo aumento das temperaturas. O conhecimento ancestral de leitura do território, que ela acompanhou de perto ao longo de uma década no Ártico, aparece como um saber em risco.

Nos jardins, a instalação Susceptibility to Gravity (2026) se inspira nas koinobori, as bandeiras japonesas em forma de carpa. Confeccionadas por fabricantes de velas, as peças se movem com os ventos que se intensificam em Veneza e que contribuem para o aumento das marés altas conhecidas como acqua alta. Os peixes de Hatanaka, que nascem no folclore japonês e na memória do bisavô pescador, encontram assim uma cidade ameaçada pela própria água.

A mostra reúne ainda Namazu, Faultlines and Loneliness e Instability, compondo um panorama de sua pesquisa recente. Na mesma exposição estão artistas que o Arte como Assunto também apresentou, como Marcia Kure, Vera Tamari e Leonilda González, em um conjunto que valoriza materiais humildes, saberes coletivos e as frequências mais discretas da experiência.

Reconhecimento

A trajetória de Hatanaka inclui exposições na National Gallery of Canada, na Art Gallery of Ontario, no British Museum e na Canada House, em Londres, na Bienal de Arte de Toronto, na Guanlan International Printmaking Base, em Shenzhen, no Nikkei National Museum e na galeria Harper’s, em Nova York. Em 2026, apresentou na galeria Kotaro Nukaga, em Tóquio, a exposição em dupla Becoming by Making, ao lado do ceramista Kazuhito Kawai.

Suas obras integram os acervos do British Museum, da National Gallery Singapore, do Museu da Província de Shiga, no Japão, do Museum of Arts and Design de Nova York, do Dallas Museum of Art, da National Gallery of Canada e do Wellin Museum, entre outros. Em 2025, foi artista residente na Black Rock, no Senegal. Em 2026, integrou a lista longa do Sobey Art Award, o prêmio mais valioso da arte contemporânea canadense, representando a região de Ontário.

A obra de Alexa Kumiko Hatanaka mostra como uma folha de papel pode carregar séculos de técnica, a memória de uma família de pescadores, os saberes de um povo do Ártico e as oscilações de uma mente sensível ao mundo. Em um tempo marcado por crises ambientais e psíquicas, a artista propõe que a atenção delicada, feita à mão e em conjunto, pode ser uma forma de sobrevivência.

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