Na Bienal de Veneza 2026, o Pavilhão da Alemanha apresenta Ruin, exposição de Henrike Naumann e Sung Tieu com curadoria de Kathleen Reinhardt, diretora do Georg Kolbe Museum, em Berlim. Comissionada pelo ifa – Institut für Auslandsbeziehungen (Instituto de Relações Internacionais), a mostra fica em cartaz de 9 de maio a 22 de novembro de 2026 nos Giardini. As duas artistas, ambas com raízes no Leste alemão, partem da história da antiga República Democrática Alemã (RDA) e do período de transformação que se seguiu à reunificação, em 1990, para confrontar a arquitetura do pavilhão, reconstruída pelo regime nazista em 1938. Sung Tieu cobre a fachada com um mosaico de mais de três milhões de tesselas de mármore que reproduz, em escala real, as ruínas do conjunto habitacional onde viveu na infância, em Berlim Oriental. Henrike Naumann pinta o interior com o verde-menta dos antigos quartéis soviéticos e o mobilia com cortinas, cadeiras e relevos que traçam uma “pré-história arqueológica do presente”. A exposição carrega ainda um peso particular: Henrike Naumann morreu repentinamente em fevereiro de 2026, depois de concluir a obra, e o pavilhão foi finalizado por sua equipe em parceria com a equipe do ifa.
Ruína como substantivo e como verbo
O título joga com os vários sentidos da palavra. Em inglês, ruin designa os restos arquitetônicos e físicos de uma construção. Em alemão, Ruin significa um estado de colapso, seja econômico, social ou moral, como a falência. A exposição trabalha com as duas acepções e propõe ainda um terceiro uso: a ruína como verbo, referindo-se aos processos contínuos de arruinamento provocados pelos esforços políticos atuais para silenciar a forma como a história é contada a partir das margens.
O pavilhão se torna um espaço em que vestígios policrônicos de estruturas físicas e sociais, ideologias alemãs e vidas vividas permanecem materialmente presentes. Três espaços da história do Leste alemão funcionam como plantas curatoriais da exposição: o desaparecido pavilhão da RDA em Veneza; o demolido Palácio da República, sede do parlamento da Alemanha Oriental em Berlim; e a Casa dos Girassóis em chamas, em Rostock-Lichtenhagen, onde em 1992 um pogrom atingiu requerentes de asilo, antigos trabalhadores contratados vietnamitas e outras comunidades migrantes sem qualquer intervenção do governo. A partir dessas ausências históricas, a curadoria investiga como elas criam zonas de tempo partido que podem ser reconfiguradas pela imaginação artística. As obras tratam de um passado que talvez esteja hoje ainda mais presente e tangível.
Um pavilhão marcado pela história
O Pavilhão da Alemanha é um dos edifícios mais carregados historicamente dos Giardini. Sua fachada monumental, com colunas e aparência neoclássica, resulta da reconstrução promovida pelo regime nacional-socialista em 1938. Desde então, sucessivos artistas alemães enfrentaram essa arquitetura, alguns quebrando as placas do piso, outros tentando, de diferentes maneiras, se livrar do edifício. Henrike Naumann se refere diretamente a essa tradição em seu texto sobre a obra.
A identidade gráfica da exposição, criada pelo designer Dan Solbach, também carrega uma camada histórica. A tipografia do título Ruin vem de uma pichação que marcou o último pavilhão da Alemanha Oriental na Bienal de Veneza, em 1990: as letras “D.D.R.” (a sigla alemã da RDA) pintadas em preto, vermelho e dourado. Inspirado na epigrafia, o estudo das inscrições antigas, e na scriptio continua, a escrita sem espaços entre as palavras, Solbach transpõe as inscrições do passado para o presente.
Sung Tieu: a fachada como memória

Human Dignity Shall Be Inviolable
A obra de Sung Tieu envolve toda a fachada do pavilhão em um mosaico trompe-l’œil (ilusionista) feito com mais de três milhões de tesselas de mármore. O mosaico representa, em escala 1:1, as ruínas esqueléticas de um bloco habitacional pré-fabricado na Gehrenseestrasse, em Berlim Oriental. O conjunto foi a casa da artista na infância e um dos maiores complexos de dormitórios para trabalhadores contratados vietnamitas da RDA. Depois, foi habitado por sucessivas comunidades migrantes, entrou no frenesi especulativo do mercado imobiliário e está sendo demolido. As tesselas simulam a superfície e as fraturas de uma estrutura originalmente concebida como forma paradigmática de habitação socialista igualitária.
O título, Human Dignity Shall Be Inviolable (A dignidade humana é inviolável), cita o Artigo 1 da Lei Fundamental da Alemanha, que proclama a dignidade humana como direito inalienável. Diante dessa afirmação, a obra revela a distância entre os princípios jurídicos e as realidades vividas em um dormitório como aquele, apontando para histórias de exclusão, deslocamento e violência racista contra comunidades migrantes. O mosaico também evoca a fachada azulejada da Casa dos Girassóis de Rostock, cujo painel decorativo com girassóis se tornou uma das imagens do pogrom de 1992.
Ao sobrepor essas histórias à fachada neoclássica de 1938, Tieu expõe o Pavilhão da Alemanha como lugar de violência não resolvida e convida a novas formas de memória crítica que questionam as narrativas nacionais. Dois sistemas de representação incompatíveis ficam em tensão na mesma superfície. A obra oscila entre ilusão e índice, entrelaça memória pessoal e representação arquitetônica e revela continuidades históricas na disciplina administrativa, na vigilância e na marginalização que sobreviveram a diferentes sistemas políticos. Ao mesmo tempo, o mosaico guarda uma corrente subterrânea de beleza e saudade que desestabiliza o entrelaçamento entre arquitetura e estruturas de poder. O mosaico foi produzido em Ravena, cidade com uma das mais importantes tradições musivas do mundo.
A história da Gehrenseestrasse
A pesquisa de Tieu sobre a Gehrenseestrasse, publicada no catálogo como crônica, ajuda a dimensionar o que o mosaico condensa. O conjunto, no bairro de Alt-Hohenschönhausen, foi construído entre 1977 e 1979 como parte do grande programa habitacional da RDA, que previa resolver a falta de moradia até 1990 com prédios de painéis de concreto pré-fabricados, os chamados Plattenbau. Os nove blocos de seis andares tinham cerca de mil quartos de pouco mais de 16 metros quadrados, com três ou quatro pessoas em cada um, cozinhas e banheiros coletivos e plantas provavelmente baseadas em quartéis militares.
A partir de 1982, o complexo passou a abrigar sobretudo trabalhadores contratados vindos de “países irmãos” socialistas, em sua maioria do Vietnã, mas também de Cuba, Angola e Moçambique. A vida nos dormitórios era regulada por regras rígidas e vigilância: guardas, toque de recolher das 22h às 7h, inspeções regulares, cerca de cinco metros quadrados por pessoa e separação entre homens e mulheres. A integração social não era desejada; o contato com a população alemã era monitorado, casamentos eram impedidos e, até 1987, a gravidez costumava levar à demissão e à repatriação ou era interrompida por aborto forçado.
Com a queda do Muro e a reunificação, a situação dos trabalhadores contratados se tornou ainda mais precária. A maioria perdeu o emprego, muitos foram pressionados a deixar o país com uma indenização única de 3 mil marcos, e os que ficaram enfrentaram anos de insegurança jurídica e uma onda de violência racista. Em 1992, o ano do pogrom de Rostock, cerca de 500 extremistas de direita planejaram atacar a Gehrenseestrasse, ação impedida pela intervenção de moradores e da polícia. Só em 1997 os antigos trabalhadores contratados da Alemanha Oriental conquistaram o mesmo status jurídico dos trabalhadores migrantes do Oeste.
Sung Tieu e sua mãe, Vũ Thị Hạnh, viveram na Gehrenseestrasse entre 1994 e 1997. Depois do esvaziamento do conjunto em 2003, os prédios passaram por sucessivos donos e projetos imobiliários, foram depenados, serviram de campo para jogos de airsoft e entraram em ruína. Entre 2023 e 2025, a artista conduziu visitas guiadas informais pelo local e levou mais de mil pessoas a conhecer sua história. No início de março de 2026, começou a demolição. Enquanto os blocos de concreto desaparecem em Berlim, Tieu os reergue em mosaico em Veneza.
Obras dedicadas à mãe

Nas alas internas do pavilhão, Tieu prolonga essa investigação com um grupo de obras dedicadas à mãe. Elas colocam em primeiro plano sua experiência de vida e de trabalho, ao mesmo tempo concreta e inserida nos mesmos regimes que moldam, regulam e medem o corpo. Quatro aromas derivados da Gehrenseestrasse, chamados Grama, Garagem, Quartéis e Turfa, impregnam o interior do pavilhão, introduzindo uma dimensão sensorial pela qual a memória persiste para além do visual.
They Have Eyes, But They See Not, They Have Ears, But They Hear Not (Têm olhos, mas não veem; têm ouvidos, mas não ouvem) é composta por oitocentas esculturas de joaninhas, produzidas em alumínio em colaboração com Vũ Thị Hạnh. Em seu acúmulo, aquilo que parece decorativo começa a se assemelhar a uma infestação, provocando um desconforto latente que desestabiliza a promessa contida no motivo, tradicionalmente associado à sorte. Ao lado, o desenho The House Which Is Waste (A casa que está em ruínas) retrata uma cena das ruínas da Gehrenseestrasse.
Na sala adjacente, But the Flesh Is Weak (Mas a carne é fraca) apresenta moldes em vidro dos braços e das pernas da mãe da artista, que transformam seu corpo em um gläserner Mensch, o “ser humano transparente”, exposto e sujeito ao escrutínio. As marcas deixadas pelo trabalho e pela doença permanecem visíveis, resistindo à clareza que o material parece prometer. Completam o conjunto esculturas em alumínio que registram medidas do corpo da mãe, como a circunferência do pescoço e do pulso, com títulos como Divers Weights and Divers Measures (Pesos diferentes e medidas diferentes) e Weighed in the Balances (Pesado na balança).
Todos os títulos das obras de Tieu no pavilhão vêm da Bíblia, dos Salmos ao Eclesiastes, dos Provérbios ao Livro de Daniel e às cartas de Paulo. A escolha cria uma camada de linguagem moral e sagrada sobre experiências de controle burocrático, vigilância e trabalho, e reforça a tensão entre princípio e realidade que atravessa a obra da artista.
Henrike Naumann: tornar o pavilhão aconchegante

The Home Front – Die Innere Front
No espaço central do pavilhão, Henrike Naumann criou The Home Front – Die Innere Front (A frente doméstica, 2026), instalação imersiva em várias partes em que investiga o passado, o presente e o futuro da militarização da sociedade. O espaço é dividido em seções intituladas “Guerra”, “Pós-Guerra”, “1990” e “Pré-Guerra”, que o visitante percorre em progressão linear, como em uma marcha em direção à frente de batalha.
Naumann reflete sobre questões sociopolíticas por meio do design de interiores, explorando o atrito entre opiniões políticas opostas a partir do gosto e da estética cotidiana. Em Veneza, suas instalações, antes tridimensionais e narrativas, foram achatadas e condensadas em relevos de parede, e os interiores documentais se transformaram em sistemas abstratos de signos. Essa mudança remete à tradição da Kunst am Bau, a arte integrada à arquitetura na RDA, e às possibilidades de abstração dentro das regras rígidas do realismo socialista.
A proposta da artista para enfrentar o pavilhão é tão simples quanto provocadora. Depois de todas as tentativas históricas de artistas da Alemanha Ocidental de destruir o Pavilhão da Alemanha, quebrando o piso ou tentando se livrar do edifício, Naumann sugere que a pior forma de destruição seria torná-lo aconchegante. “Nós nos acomodamos no Pavilhão da Alemanha e sentimos, em cada canto e em cada aresta, que aqui não existe aconchego”, escreve. Em vez de escavar repetidamente toda a sujeira da história, balançando a cabeça em espanto, a artista propõe assumir que essa é a normalidade em que sua geração cresceu e a realidade que moldou e continuará moldando o país.
Quartéis em tons pastel
As paredes e o teto foram pintados com o verde-menta usado nos quartéis do Exército Soviético na Alemanha Oriental. A cor ainda pode ser encontrada nos galpões abandonados entre Schwerin e Zwickau e em todo o espaço pós-soviético, como lembrança visual da antiga esfera de influência militar e cultural. Para alguns, ela evoca os interiores dos anos 1990; para quem cresceu no antigo bloco do Leste, remete diretamente aos quartéis. Naumann a descreve como “um verde militar que não é verde militar” e, “para os muito corajosos, a cor da esperança”. Com ela, a Alemanha Oriental é marcada como parte do bloco do Leste, e o pavilhão da RDA ocupa simbolicamente o pavilhão da República Federal.
Guerra, pós-guerra, 1990, pré-guerra
Na seção “Guerra”, uma parede de pequenos objetos que a artista chamou de hieróglifos funciona como mapa codificado do que Naumann descreveu como a “frente interna”, oferecendo orientação e ao mesmo tempo ocultando sentidos. Os legados bélicos do século XX aparecem como os escombros em que as pessoas fazem suas casas, e objetos cotidianos se tornam símbolos carregados de significado. “A catástrofe sempre já aconteceu”, resume a artista.
O “Pós-Guerra” se divide em duas histórias. Na primeira, dedicada à história da arte da Alemanha Oriental, uma releitura estofada e mobiliada de um mural do realismo socialista reproduz o motivo de Die Mechanisierung der Landwirtschaft (A mecanização da agricultura, 1960/61), obra do avô de Naumann, o artista Karl Heinz Jakob, criada em Karl-Marx-Stadt, a atual Chemnitz, e hoje escondida atrás de uma parede de gesso acartonado. Na segunda, dedicada à história do mobiliário da Alemanha Ocidental, uma grande moldura em relevo inspirada nos dioramas tradicionais de interiores de casas camponesas da região do Erzgebirge apresenta uma sala decorada no estilo do Neues Deutsches Design, o movimento de design pós-moderno da Alemanha Ocidental nos anos 1980.
Relevos feitos de cadeiras traçam uma cronologia da história alemã dos séculos XX e XXI, enquanto fileiras de cortinas perfuradas por tiros e marcadas por cicatrizes de zíper rompem a ideia do conforto doméstico como espaço de refúgio, tema central de toda a obra de Naumann. A desestabilização culmina em uma cortina central feita de cotas de malha, que alude à suspensão do tempo depois da queda da Cortina de Ferro: a remilitarização que se seguiu à desmilitarização e a antecipação da guerra que está por vir. Sobre “1990”, a artista escreve apenas: “Somos assombrados pelos anos 1990”. O “Pré-Guerra” é, para ela, o momento em que nos encontramos agora.
Uma história da arte alternativa
Naumann se situa deliberadamente em um sistema de referências da história da arte alternativo ao cânone ocidental. Para entender sua obra, escreve ela, é preciso conhecer nomes como Gabriele Stötzer e Hans Ticha, e não se vai longe pensando apenas em Hans Haacke ou Joseph Beuys. Na instalação, a história da arte da Alemanha Oriental se funde à história do mobiliário da Alemanha Ocidental, e o realismo socialista colide com o formalismo e a abstração. O espaço pode ser lido como um texto cujo início acreditamos conhecer e cujo fim tememos ler. “Mas a frente somos nós”, escreve a artista. “Assim como podemos ser enviados à frente a qualquer momento, ela também depende de nós. Pelo que queremos lutar, ou contra o quê. Se lutamos. Ou se amamos radicalmente, soltamos, ficamos desprotegidos.”
Trümmerfrau
A instalação foi inaugurada com Trümmerfrau, performance do grupo veneziano de dança vertical Il Posto, com coreografia de Wanda Moretti, que se repete em datas selecionadas ao longo da Bienal. O título remete às “mulheres dos escombros”, que limparam e reconstruíram as cidades alemãs destruídas depois da Segunda Guerra Mundial, figura central da memória do pós-guerra nas duas Alemanhas. A trilha sonora inclui uma versão de Ich schau in dein Gesicht e Ninna Nanna, canção de ninar interpretada pela cantora italiana Milva.

Henrike Naumann (1984–2026)
Henrike Naumann nasceu em Zwickau, na RDA, em 1984, e viveu e trabalhou em Berlim até sua morte repentina, em fevereiro de 2026. Em instalações imersivas, organizava móveis e objetos em espaços cenográficos nos quais integrava vídeos e obras sonoras. Sua prática investigava os mecanismos de radicalização e sua relação com a experiência pessoal, especialmente na Alemanha Oriental dos anos 1990, os “anos do taco de beisebol”, como ficou conhecido o período de escalada da violência neonazista após a reunificação. Nos últimos tempos, a artista pesquisava a relação entre arte e guerra.
“Na minha prática artística, investigo como as sociedades moldam e processam rupturas sociais e políticas”, afirmou Naumann ao ser anunciada para o pavilhão. “Uso a história como ferramenta para entender as dinâmicas de mudança social em diferentes contextos globais. Na minha prática baseada em pesquisa, uso fontes históricas e materiais cotidianos para encontrar novas formas artísticas de produção de conhecimento.”
Naumann recebeu, entre outros, a bolsa Karl Schmidt-Rottluff, o Prêmio Max Pechstein da cidade de Zwickau, o Prêmio de Arte do Leipziger Volkszeitung e a bolsa da Villa Aurora/Thomas Mann House, em Los Angeles. Expôs no SculptureCenter, em Nova York, no Busch-Reisinger Museum da Universidade Harvard, no Museu de Arte Moderna de Varsóvia, na Haus der Kunst, em Munique, e no Parlamento alemão, além da Bienal do Gueto, no Haiti (2015 e 2017), e da Bienal de Kiev (2023). Foi fellow do Berlin Artistic Research Program em 2024–2025 e havia aceitado o cargo de professora de escultura na Universidade de Belas Artes de Hamburgo a partir de 2026. Desde sua indicação, em maio de 2025, até sua morte, trabalhou intensamente no pavilhão e concluiu a obra antes de partir.
Sung Tieu: entre biografia e geopolítica
Sung Tieu nasceu em Hải Dương, no Vietnã, em 1987, e emigrou com a mãe para a Alemanha em 1992, ainda criança, para se juntar ao pai, que havia chegado à RDA em 1987 como trabalhador contratado em uma siderúrgica perto de Dresden. Artista vietnamita-alemã, vive e trabalha em Berlim. Tendo crescido entre sistemas políticos, desenvolve uma obra situada nas interseções entre biografia e geopolítica. Sua prática examina os efeitos persistentes da Guerra Fria, os emaranhados coloniais e os mecanismos sutis do poder institucional, e reflete sobre os efeitos sociais e psicológicos da migração, da burocracia e do controle estatal. Com escultura, pintura, som, vídeo, fotografia, aroma, texto e material de arquivo, constrói instalações densas em que estruturas políticas e experiências pessoais convergem e se confundem.
“Interesso-me pelas bordas da linguagem institucional, entre o que é articulado e o que fica por dizer”, diz Tieu. “É nos interstícios entre forma material e estrutura discursiva, entre articulação e omissão, que as obras surgem, resistindo a interpretações fixas e convidando o público a localizar sua própria posição.”
Tieu realizou individuais no KW Institute for Contemporary Art, em Berlim, na Kunsthalle Nürnberg, no Amant, em Nova York, no MIT List Visual Arts Center, no Kunst Museum Winterthur, no Neuer Berliner Kunstverein, no Mudam, em Luxemburgo, na GfZK, em Leipzig, na Haus der Kunst e na Nottingham Contemporary. Participou das bienais de Taipei (2025), Gwangju (2024), Xangai (2023), São Paulo (2021) e Kiev (2021) e integra a 82ª Bienal do Whitney. Recebeu o Prêmio Schering Stiftung de Pesquisa Artística (2024), o Prêmio Rubens da cidade de Siegen (2024) e o Prêmio do Público do Preis der Nationalgalerie (2021). Formou-se na Universidade de Belas Artes de Hamburgo, onde atuou como professora substituta.
Kathleen Reinhardt
A curadora Kathleen Reinhardt dirige desde 2022 o Georg Kolbe Museum, em Berlim, eleito Museu do Ano em 2025 pela seção alemã da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA). Sua prática se concentra na arte contemporânea, na arte produzida em diferentes sistemas políticos e nas práticas pós-socialistas, além do potencial discursivo das coleções em relação a ideologia, memória e identidade. Entre 2016 e 2022, foi curadora de arte contemporânea no Albertinum, em Dresden, onde curou a coletiva 1 Million Roses for Angela Davis (2020–2021) e iniciou o projeto de pesquisa Revolutionary Romances? Transcultural Art Histories in the GDR (2019–2024), dedicado às trocas artísticas entre a RDA e os países do Sul global. É doutora pela Universidade Livre de Berlim com pesquisa sobre arte afro-americana e práticas artísticas socialmente engajadas.
Ao anunciar as artistas, a curadora afirmou que Naumann e Tieu “colocam questões sobre responsabilidade histórica” e examinam o papel da ação individual e coletiva “a partir da perspectiva de uma geração jovem que situa os grandes temas do Pavilhão da Alemanha em um sistema de coordenadas completamente diferente”.
A Alemanha vista a partir do Leste e das margens
Do ponto de vista editorial, Ruin é uma das exposições mais densas e politicamente precisas desta Bienal. O Pavilhão da Alemanha tem uma longa tradição de enfrentamento de sua própria arquitetura, e a novidade está no ponto de vista. Pela primeira vez, essa história é contada a partir da Alemanha Oriental e da experiência migrante, duas perspectivas frequentemente apagadas da narrativa oficial da reunificação como sucesso.
As duas obras funcionam em registros complementares. Tieu trabalha com a precisão, a contenção e a clareza mineral do mosaico, enquanto Naumann recorre à opulência, ao excesso e ao humor do design de interiores. A fachada de Tieu traz para a frente do edifício a memória de quem foi sistematicamente mantido à margem: os trabalhadores contratados que ajudaram a construir a RDA e foram descartados depois de 1990. O interior de Naumann transforma a sala principal em uma máquina do tempo que vai do pós-guerra à iminência de uma nova guerra, sugerindo que a Europa vive hoje um tempo de pré-guerra.
A morte de Henrike Naumann pouco antes da abertura dá ao pavilhão uma camada de luto que se soma ao tema da ruína. A instalação, concluída pela artista e montada por sua equipe, ganha o caráter de obra final de uma das vozes mais singulares de sua geração na Alemanha.
Para um olhar latino-americano, o pavilhão oferece paralelos instigantes. A história dos trabalhadores contratados de Vietnã, Moçambique, Angola e Cuba na RDA revela uma face pouco conhecida das relações entre o bloco socialista e o Sul global, com suas promessas de solidariedade internacional e suas práticas de controle e exclusão. A experiência dos conjuntos habitacionais periféricos, da especulação imobiliária e da violência contra migrantes ressoa em muitas cidades do continente. E a pergunta que atravessa o pavilhão, sobre a distância entre o princípio constitucional da dignidade humana e a realidade vivida por quem está à margem, vale também para nós.
Serviço
Pavilhão da Alemanha – Ruin
61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia
Artistas: Henrike Naumann e Sung Tieu
Curadoria: Kathleen Reinhardt
Comissário: ifa – Institut für Auslandsbeziehungen
Performance: Trümmerfrau, de Henrike Naumann, com o grupo Il Posto
Local: Pavilhão da Alemanha, Giardini della Biennale, Veneza
Período: 9 de maio a 22 de novembro de 2026
Horários: de 9 de maio a 30 de setembro, das 11h às 19h; de 1º de outubro a 22 de novembro, das 10h às 18h. Fechado às segundas-feiras, exceto em 11 de maio, 1º de junho, 7 de setembro e 16 de novembro.