Pavilhão da Dinamarca na Bienal de Veneza 2022: We Walked the Earth, de Uffe Isolotto

O Pavilhão da Dinamarca na 59ª Bienal de Veneza, em 2022, apresentou We Walked the Earth, instalação de Uffe Isolotto com curadoria de Jacob Lillemose. O artista transformou o edifício em uma fazenda dinamarquesa habitada por uma família de centauros hiper-realistas, em um drama de vida e morte sobre um mundo em transformação.

We Walked the Earth foi a representação oficial da Dinamarca na 59ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, em cartaz de 23 de abril a 27 de novembro de 2022, na edição The Milk of Dreams, com curadoria geral de Cecilia Alemani. A instalação foi criada pelo artista dinamarquês Uffe Isolotto, com curadoria de Jacob Lillemose, e comissionada pela Danish Arts Foundation, a fundação estatal de artes da Dinamarca. Isolotto ocupou o pavilhão inteiro e o transformou em uma casa de fazenda decadente, onde elementos de uma vida rural dinamarquesa idealizada se misturam a fenômenos estranhos de ficção científica. No centro da cena está uma família de três centauros, um pai, uma mãe e um filhote, envolvida em um drama de vida e morte. A escolha do artista resultou de um processo inédito de chamada aberta: o comitê de artes visuais da fundação recebeu 190 propostas de artistas dinamarqueses, selecionou três finalistas para desenvolver seus projetos e escolheu Isolotto. A participação estava prevista para 2021 e foi adiada um ano, junto com toda a Bienal, por causa da pandemia de covid-19. Muitos críticos descreveram o pavilhão como um conto de fadas gótico nórdico, ambientado em uma época indefinida em que o passado rural da Dinamarca se cruza com acontecimentos inexplicáveis.

A Dinamarca participa da Bienal de Veneza desde a primeira edição, em 1895, e tem pavilhão próprio nos Giardini desde 1932. O edifício combina duas construções. A primeira, de linhas clássicas e com uma loggia voltada para o parque, foi projetada pelo arquiteto Carl Brummer e construída entre 1930 e 1932, por incentivo do designer de móveis Ole Wanscher. O desenho agradou ao secretário-geral da Bienal, Antonio Maraini, que convenceu as autoridades de Veneza a autorizar a obra. A segunda, um salão modernista menor, foi acrescentada pelo arquiteto Peter Koch a partir de 1958. O pavilhão pertence ao Ministério da Cultura da Dinamarca e fica logo na entrada dos Giardini. Em 2022, Isolotto ocupou as duas alas e alterou também o entorno, cavando parte do gramado em frente ao edifício para transformá-lo em uma horta. A sequência de salas, com seus pés-direitos e escalas diferentes, permitiu ao artista organizar a instalação como uma casa de fazenda com estábulo, depósito e quartos, onde cada ambiente revela um episódio da história dos centauros.

Como era a fazenda criada por Uffe Isolotto?

A experiência começava antes da porta. Ao lado da entrada havia um monte de esterco de cavalo e uma pequena área calçada com pedras do campo. Dentro do pavilhão, pilhas de zostera, a erva marinha usada tradicionalmente na cobertura das casas de fazenda da ilha de Læsø, no norte da Dinamarca, ocupavam um dos espaços principais, que lembrava um celeiro ou estábulo. À primeira vista, tudo parecia familiar e ligado à vida no campo. Olhando com atenção, porém, cada elemento se revelava alterado. Ferramentas que lembram instrumentos tradicionais da agricultura e da pesca dinamarquesas tinham formas estranhas, um presunto mutante pendia do teto de um cômodo que mistura depósito de ferramentas e despensa, e espécies desconhecidas de plantas cultivadas estavam espalhadas pelas salas, algumas escorrendo um líquido azul. Esculturas de vidro em forma de criaturas amorfas ou órgãos pareciam ter saído de cascas semelhantes a frutos e morrido no chão, com restos de terra que indicavam ter sido colhidas na horta do lado de fora. O realismo se estendia à arquitetura: as paredes pareciam manchadas e danificadas pela umidade, as janelas estavam sujas e a tinta do teto da entrada se soltava em grandes lascas. Portões de alumínio de desenho ao mesmo tempo arcaico e futurista marcavam as passagens entre os ambientes. Na visita do Arte como Assunto ao pavilhão, em um dia de chuva, o ambiente estava frio e o cheiro era forte e fétido, o que intensificava a sensação de estar dentro de um estábulo real e tornava a experiência física e desconcertante.

O que são os centauros de We Walked the Earth?

Os protagonistas da instalação são esculturas hiper-realistas de centauros, seres com tronco humano e corpo de cavalo. Na proposta de Isolotto e Lillemose, eles deixam de ser figuras da mitologia grega e aparecem como resultado físico de uma tentativa biotecnológica e transumana de sobreviver em um mundo onde ser humano, da forma como conhecemos, já não é suficiente. São, portanto, descendentes da humanidade, que se adaptaram às condições de um planeta transformado por meio de um processo duro e dramático. Seus rostos, corpos e mãos são cerca de um quinto maiores que os de um ser humano comum e cobertos de marcas que testemunham o trabalho árduo. O mesmo líquido azul que escorre das plantas parece sustentar os centauros por meio de tubos finos ligados aos corpos, sem que se saiba se é um agente de aquecimento, um alimento ou uma droga. O título da obra, que pode ser traduzido como Nós caminhamos sobre a Terra, sugere que a cena se passa em um futuro pós-humano imaginário, e a sensação de deslocamento vem justamente dessa ambiguidade entre o fantástico e o verossímil. A riqueza de detalhes das peles, pelos, veias e expressões faz o público hesitar entre ver ali criaturas reais ou figuras de sonho, e há vida pulsando mesmo nas cenas em que a morte está representada.

O drama de vida e morte nas duas salas principais

A narrativa se desenrola nas duas salas principais do pavilhão. Em uma delas, o centauro macho tirou a própria vida e aparece pendurado por uma corrente presa ao teto. Na sala ao lado, a fêmea está deitada no chão, com os olhos avermelhados e a cabeça apoiada no braço, dando à luz um filhote envolto em uma bolsa semitransparente azulada. O filhote parece pertencer a um tipo híbrido diferente do dos pais, e suas mãos humanas estão transformadas em algo irreconhecível, que ao mesmo tempo promete um futuro e anuncia tempos difíceis. O motivo da morte do pai permanece em aberto, e o texto oficial sugere que o gesto está ligado ao nascimento simultâneo do filho, como se ele tivesse compreendido que seu tempo havia passado e que caberia à geração seguinte, mais evoluída, continuar. A cena deixa sem resposta também o destino da mãe, e parte do público se perguntava se ela teria morrido no parto. Para Isolotto, existe uma incerteza profunda sobre o que aconteceu com os centauros e com o mundo em que vivem, e a situação pode ser lida como trágica, esperançosa ou as duas coisas ao mesmo tempo. O artista disse que, mesmo que os centauros não sejam reais, sentimos sua luta, e que quis dar forma física à mistura de esperança e desespero do presente, marcado por desafios ecológicos, políticos e existenciais. A obra também parte de experiências da vida pessoal do artista, que ele transforma em metáfora para sentimentos mais amplos sobre a vida e a morte.

Campo, tecnologia e o círculo da vida: a proposta curatorial

Para o curador Jacob Lillemose, a instalação responde a um movimento concreto da sociedade dinamarquesa, em que cada vez mais pessoas deixam as cidades para viver no campo de forma mais simples e autossuficiente, enquanto a imprensa, os políticos e as empresas celebram diariamente as promessas das novas tecnologias. Nesse contexto, We Walked the Earth pergunta se as soluções para os problemas do mundo devem ser buscadas no passado ou no futuro. A obra descreve um mundo em uma encruzilhada, onde algo familiar desaparece e algo desconhecido surge, e por isso funciona como imagem do círculo de vida e morte. A crítica associou a instalação a duas correntes de pensamento sobre o futuro. De um lado, o transumanismo, que entende o corpo humano como um sistema biológico aberto a intervenções tecnológicas. De outro, a colapsologia, que estuda a possibilidade de colapso das sociedades industriais. Na história dos centauros, a transformação do humano em híbrido aparece como adaptação necessária a um estado de emergência ecológica, e o retorno à vida agrícola convive com uma biotecnologia que escapou de qualquer controle. A combinação de fazenda tradicional e experimento científico é o que faz muitos visitantes descreverem o pavilhão como uma fusão entre a zona rural dinamarquesa e um laboratório.

And Then We Became Water: o conto que acompanha a instalação

A instalação foi acompanhada de um conto distribuído ao público, concebido por Isolotto e Lillemose e escrito pelo curador. O texto expande a narrativa como uma espécie de fanfiction e se passa em um futuro ainda mais distante, em uma Veneza inundada. Em seu fundo marinho, seres feitos de água e capazes de assumir qualquer forma vagueiam em busca de corpos com que brincar. Por meio de descrições geométricas elementares, o leitor entende que essas criaturas encontraram centauros mortos. Em uma coreografia mórbida, elas entram e saem dos corpos, chegam a se transformar em bisturis para abri-los e terminam por ocupá-los inteiramente, fazendo-os desfilar de forma vacilante pelo fundo do mar. Esses seres não guardam lembrança de uma vida anterior, e o conto imagina um tempo depois da humanidade marcado ao mesmo tempo pela euforia e pela ruptura com o passado. A narrativa contrabalança o tom sombrio do pavilhão e reforça a ideia de que cada fim abre espaço para outra forma de vida.

We Walked the Earth foi realizado como uma produção cinematográfica complexa, reunindo uma equipe de especialistas creditados como cocriadores. O estúdio dinamarquês 10 Tons, especializado em efeitos especiais para cinema, criou os modelos e as partes animais dos centauros, combinando escultura digital, modelagem, moldagem, impressão 3D, taxidermia, implante de pelos e design têxtil. A taxidermia foi feita pelo Fyns Naturværksted, e as partes humanoides pelo Thomas Foldberg Studio. A estilista Anne Sofie Madsen desenhou roupas e acessórios, o estúdio Soft Baroque produziu as estruturas de alumínio, Maria Koshenkova fez as peças de vidro e Ida Hy as obras em resina e silicone. Christine Bechameil e Marie Søegaard Tarpø assinaram a pintura cenográfica que envelheceu paredes e tetos, e Line-Gry Hørup fez o design gráfico. Essa colaboração explica o grau de ilusão das figuras, em que é difícil encontrar qualquer falha. Parte da crítica observou que a exposição incorpora deliberadamente as estratégias de produção e de impacto do cinema comercial, em sintonia com uma Bienal em que os pavilhões disputam a atenção de um público que circula rapidamente entre dezenas de mostras.

Quem é Uffe Isolotto?

Uffe Isolotto nasceu em Copenhague, em 1976, e vive e trabalha na cidade. Formou-se na Real Academia Dinamarquesa de Belas Artes em 2007. O artista assinava antes como Uffe Holm e adotou o sobrenome Isolotto, palavra italiana que, como holm em dinamarquês, significa “ilhota”. Trabalha com escultura física e digital, instalação, vídeo, animação 3D e performance, e sua obra investiga o eu, o corpo, a sexualidade e a tecnologia, frequentemente por meio de corpos compostos que questionam as fronteiras entre o humano e o não humano. Muitas de suas obras evocam um estado pós-humano em que as pessoas se alienam de suas próprias criações tecnológicas e desejam um retorno quase impossível às origens da natureza. Isolotto também tem uma trajetória como organizador de espaços: cofundou a organização de artistas TOVES, que manteve espaços expositivos e produziu exposições na Dinamarca e no exterior entre 2010 e 2017, e dirigiu com Nanna Starck a plataforma de exposições e produção Age of Aquarius, de 2016 a 2019. Ao longo dessas experiências, cultivou ecologias biológicas e sintéticas que acabaram se fundindo em uma prática sobre corpo, tecnologia e ecologia em sentido amplo.

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Antes da Bienal, Uffe Isolotto realizou individuais em espaços como Tranen, em Hellerup, onde apresentou New Age Headache (2016), Overgaden Institute of Contemporary Art, em Copenhague, e Import Projects, em Berlim, e participou de exposições no Arken Museum of Modern Art, na Nikolaj Kunsthal, na Den Frie Udstillingsbygning, na Malmö Konsthall, na Suécia, e na 14ª Bienal de Artes Mediais de Santiago, no Chile. Sua obra integra os acervos da Galeria Nacional da Dinamarca (SMK) e do Holstebro Kunstmuseum, que possui Universal Serial Bus (2018), escultura em duas partes ligadas por uma corrente de ferro, com tinta, portas USB, luz de LED e partes de animais secas, instalada no jardim do museu. O artista também realizou projetos públicos de grande escala, como Bodies on Balconies, para o Vendsyssel Teater, em Hjørring. Depois de Veneza, o Holstebro Kunstmuseum apresentou Mælkeøje (Olho de leite), de 7 de junho a 30 de novembro de 2025, sua maior exposição em museu até então e seu primeiro projeto comissionado desde a representação dinamarquesa na Bienal.

Quem é Jacob Lillemose?

Jacob Lillemose é curador e escritor baseado em Copenhague e doutor em história da arte pela Universidade de Copenhague. À época da Bienal, trabalhava no Medical Museion da universidade em um projeto sobre “o corpo emaranhado”, intitulado The World is in You. Foi cocurador da Momentum 9, bienal nórdica de arte contemporânea realizada em Moss, na Noruega, em 2017, e chefe de exposições do festival transmediale, em Berlim, entre 2012 e 2013. De 2015 a 2017, dirigiu em Copenhague o espaço X AND BEYOND, dedicado às relações entre arte e desastres, cujos cenários especulativos de catástrofe dialogam diretamente com o pavilhão de 2022. Escreve sobre arte e cinema, com interesse recente por horror e mitologias sociais, e é autor do romance Architecture Zero (2021) e da coletânea de ensaios Strange Planet (2022), sobre a vida humana na Terra.

Pavilhão da Dinamarca – We Walked the Earth
59ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, The Milk of Dreams

Artista: Uffe Isolotto
Curadoria: Jacob Lillemose
Comissionamento: Danish Arts Foundation
Colaboração: 10 Tons, Fyns Naturværksted, Thomas Foldberg Studio, Anne Sofie Madsen, Soft Baroque, Maria Koshenkova, Ida Hy, Christine Bechameil, Marie Søegaard Tarpø e Line-Gry Hørup
Conto: And Then We Became Water, de Jacob Lillemose, concebido com Uffe Isolotto
Curadoria geral da Bienal: Cecilia Alemani

Local: Pavilhão da Dinamarca, Giardini della Biennale, Castello, Veneza
Período: 23 de abril a 27 de novembro de 2022

Perguntas frequentes

Quem representou a Dinamarca na Bienal de Veneza de 2022?
O artista Uffe Isolotto, nascido em Copenhague em 1976, representou a Dinamarca com a instalação We Walked the Earth, com curadoria de Jacob Lillemose. Ele foi escolhido entre 190 propostas em uma chamada aberta da Danish Arts Foundation.

O que era We Walked the Earth?
Era uma instalação que transformou o pavilhão em uma casa de fazenda dinamarquesa decadente, habitada por uma família de centauros hiper-realistas. Nas salas, o pai aparece morto, pendurado por uma corrente, enquanto a mãe dá à luz um filhote de um novo tipo de híbrido.

O que os centauros representam na obra?
Os centauros são descendentes imaginários da humanidade, transformados por um processo biotecnológico para sobreviver em um mundo alterado. A obra usa essas figuras para falar da esperança e do desespero diante das crises ecológicas, políticas e existenciais do presente.

Quem fez as esculturas dos centauros?
As esculturas foram criadas por Uffe Isolotto com uma equipe de especialistas, liderada pelo estúdio dinamarquês de efeitos especiais 10 Tons, com taxidermia do Fyns Naturværksted e partes humanoides do Thomas Foldberg Studio.

Por que o pavilhão dinamarquês lembrava um celeiro?
O artista recriou uma fazenda dinamarquesa com esterco de cavalo, pedras do campo e pilhas de zostera, erva marinha usada nos telhados das casas da ilha de Læsø. Esses elementos rurais aparecem alterados por plantas mutantes, ferramentas estranhas e um líquido azul.

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