O Pavilhão de Gana na 59ª Bienal de Veneza, em 2022, apresentou Black Star: The Museum as Freedom, com curadoria de Nana Oforiatta Ayim e arquitetura de DK Osseo-Asare. A mostra reuniu instalações de Na Chainkua Reindorf, Afroscope e do brasileiro Diego Araúja sobre liberdade, mitologia, tecnologia e diáspora.
Black Star: The Museum as Freedom (Estrela Negra: o museu como liberdade) foi a segunda participação nacional de Gana na Bienal de Veneza, apresentada na 59ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, de 23 de abril a 27 de novembro de 2022, na edição The Milk of Dreams, com curadoria geral de Cecilia Alemani. O pavilhão ocupou um espaço no Arsenale, sob o patrocínio do presidente de Gana, Nana Addo Dankwa Akufo-Addo, e teve como comissário Akwasi Agyeman, diretor-executivo da Autoridade de Turismo de Gana, ligada ao Ministério do Turismo, Artes e Cultura. A curadoria foi de Nana Oforiatta Ayim, diretora do ANO Institute of Arts & Knowledge, em Acra, e responsável pelos museus e pelo patrimônio cultural do país, com projeto expográfico do arquiteto DK Osseo-Asare. A exposição reuniu instalações de grande escala de três artistas de uma geração mais jovem, que a curadora chama de “construtores do futuro”: a ganense Na Chainkua Reindorf, o ganense Afroscope e o brasileiro Diego Araúja, nascido em Salvador.

O que significa Black Star?
O título da exposição vem da estrela negra que simboliza Gana e aparece em sua bandeira, no apelido da seleção nacional de futebol, os Black Stars, e em seu monumento mais importante, a Praça da Estrela Negra, em Acra. Gana foi, em 6 de março de 1957, sob a liderança de Kwame Nkrumah, o primeiro país da África subsaariana a conquistar a independência do domínio colonial, e a estrela tornou-se um símbolo do pan-africanismo e do anticolonialismo, descrita como a “estrela-guia da liberdade africana”. O símbolo também liga a África às suas diásporas por meio da Black Star Line, companhia de navegação criada pelo ativista jamaicano Marcus Garvey em 1919 como parte de seu movimento de retorno à África. Esse movimento foi retomado em Gana com a iniciativa Beyond the Return, que dá continuidade ao Ano do Retorno, em 2019, quando o país convidou descendentes de africanos escravizados a reencontrar o continente, 400 anos depois da chegada das primeiras pessoas escravizadas à colônia inglesa da Virgínia. A exposição examina novas constelações dessa liberdade através do tempo, da tecnologia e das fronteiras.
O museu como liberdade: o conceito do Museu Móvel
A exposição partiu do conceito de Museu Móvel desenvolvido por Nana Oforiatta Ayim, um projeto que circula por comunidades de Gana em regime de cocuradoria e troca, com o objetivo de criar espaços acessíveis, contextualizados e inclusivos. Em Veneza, o programa do Museu Móvel se desdobrou em eventos e oficinas criados com diferentes comunidades da cidade ao longo da Bienal. A curadora parte de uma pergunta: como sonhar e trazer à existência novas narrativas, linguagens e estruturas? Para ela, Gana, em seu 65º ano de independência, ainda enfrenta sistemas políticos, econômicos, culturais, sociais e de conhecimento que não foram feitos a partir de seus contextos nem para eles. Os sistemas criados pelas comunidades ao longo de milhares de anos foram considerados inferiores aos que as potências dominantes chamaram de “universais”, e agora começam a se formar outros, ainda indefinidos, que se apoiam em histórias ricas com o discernimento da experiência. No texto de parede, a curadoria propõe repensar o museu e a própria curadoria além da relação entre sujeito e objeto, como algo inclusivo, descentralizado, cocriado, em transformação e em experimentação permanente.
Do primeiro pavilhão ao segundo
Gana estreou na Bienal de Veneza em 2019 com Ghana Freedom, também com curadoria de Nana Oforiatta Ayim, em um pavilhão projetado pelo arquiteto David Adjaye que reuniu artistas consagrados como El Anatsui, Ibrahim Mahama, Lynette Yiadom-Boakye, John Akomfrah, Felicia Abban e Selasi Awusi Sosu. Segundo o texto de parede, aquela primeira participação tratava de como o país se definiu no momento de sua liberdade, do quanto avançou desde então e do quanto ainda ficou aquém dos primeiros sonhos de independência, com uma curadoria impregnada da ontologia akan de dualidades e camadas e do vocabulário espacial vernacular ganense. Para 2022, a curadora escolheu uma geração mais jovem de artistas, que imaginam aquilo que ainda não foi alcançado e criam novas linguagens, novas mitologias e novas formas de expressão. O texto também reconhece as dificuldades de uma participação recente: a falta de estrutura consolidada, de recursos suficientes e de sistemas estáveis, e a necessidade de, mesmo assim, se expressar, ser contado e estar entre os demais países.
Mawu Nyonu: a sociedade secreta de Na Chainkua Reindorf
Na Chainkua Reindorf parte das tradições de mascarada e de sociedades secretas da África Ocidental, historicamente dominadas por homens, e cria sua própria mitologia: Mawu Nyonu, uma sociedade secreta fictícia formada por sete mulheres em sintonia com os elementos que as cercam. A artista se reapropria da mitologia para o feminino, como lugar de transformação e de multiplicidade. Seu trabalho, que vai de tapeçarias de grande formato a instalações escultóricas imersivas, é uma investigação e uma homenagem à rica história dos têxteis da África Ocidental, com atenção especial à cultura visual das mascaradas e dos trajes cerimoniais. Reindorf incorpora materiais contemporâneos a essas referências históricas para discutir a política do vestir, a identidade e o gênero e suas relações com a cultura e a tradição. Ao imaginar uma sociedade secreta feminina, a obra desloca para as mulheres um campo de poder ritual e simbólico que costuma excluí-las.
A ideia de unidade entre todos os seres e elementos ganha outra forma em Ashe, de Afroscope. O título remete ao àṣẹ, conceito de origem iorubá que designa a força vital e o poder de realização presentes em todas as coisas. A obra explora esse espírito que atravessa os elementos usando a tecnologia como tradutora do fluxo da vida, tendo a água como exemplo. Segundo o texto de parede, Afroscope infunde a tecnologia de espírito e de sua própria forma de expressão, e pergunta se podemos ir além da forma humana, chegar ao inanimado e nos tornarmos nossos próprios criadores. O artista trabalha com narrativas visuais especulativas povoadas por seres de outros mundos, paisagens oníricas e formas peculiares, transitando entre o mito, o mistério e o automatismo, e entende a arte como um portal para um multiverso de realidades.
Um Congresso do Sal: o Atlântico de Diego Araúja
Em Um Congresso do Sal (2022), o artista baiano Diego Araúja trata o oceano Atlântico, que separou as pessoas arrancadas das costas da África Ocidental de seus descendentes nas diásporas, como um elemento de união e como berço de um novo crioulo. A obra é uma instalação sonora e integra o processo de criação de SALTCONGRESS, ligado ao projeto Tempo Crioulo, que Araúja desenvolve desde 2015. Inspirado em línguas crioulas das Américas e da África, incluindo uma língua crioula esquecida falada em sua própria família, o artista busca criar uma linguagem que não nasça do trauma, e chama as obras resultantes desse processo de creollage. O texto de parede descreve seu trabalho como criação de conexões, de novas linguagens e de novos começos. A presença de um artista brasileiro no pavilhão de Gana materializa a ideia de diáspora que atravessa o título da exposição e conecta os dois lados do Atlântico negro.
A arquitetura de DK Osseo-Asare
O projeto expográfico foi assinado por DK Osseo-Asare, cofundador do Low Design Office (LOWDO), estúdio transatlântico de arquitetura e design integrado com sede em Gana e no Texas. Segundo o texto de parede, o arquiteto desafiou o modelo da “arquitetura de estrela” ao propor uma estrutura modular, de código aberto, acessível e sustentável. A escolha dialoga com o conceito de Museu Móvel e com a ideia de um museu descentralizado e cocriado. Osseo-Asare se define como alguém que cria arquitetura com e para as pessoas que o design costuma ignorar. Cofundou o Ashesi Design Lab, em Gana, e é professor assistente de arquitetura e design de engenharia na Universidade Estadual da Pensilvânia, onde dirige o Humanitarian Materials Lab e atua na direção da Alliance for Education, Science, Engineering and Design with Africa (AESEDA).
Quem é Nana Oforiatta Ayim?
Nana Oforiatta Ayim é escritora, cineasta e historiadora da arte, e vive e trabalha em Acra. Fundou o ANO Institute of Arts and Knowledge, por meio do qual criou uma Enciclopédia Cultural Pan-Africana e o projeto dos Museus Móveis, e foi a curadora do primeiro pavilhão de Gana na Bienal de Veneza, em 2019. Publicou seu primeiro romance, The God Child, pela Bloomsbury em 2019. Fez filmes premiados para museus como a Tate Modern, o LACMA e o New Museum e dá um curso de história e teoria na Architectural Association, em Londres. Recebeu o prêmio de Arte e Tecnologia do LACMA em 2015, o AIR Award em 2016 e uma bolsa Soros Arts em 2018, e foi pesquisadora visitante do Sul Global na Universidade de Oxford. Participou do programa Action for Restitution to Africa como pesquisadora principal e atuou como conselheira especial do Ministério do Turismo, Artes e Cultura de Gana para museus e patrimônio cultural.
Quem são os artistas?
Na Chainkua Reindorf é artista ganense de técnicas mistas e criadora de mitos, com obras que vão de tapeçarias a instalações escultóricas imersivas. Expôs em instituições dos Estados Unidos, da França, da Nigéria e de Gana.
Afroscope, nome artístico do ganense Nana Opoku, é artista e designer especulativo, que usa a arte para desconstruir a realidade normativa e desafiar estereótipos por meio de narrativas visuais transcendentais. Expôs em Gana e na Europa e venceu em 2017 o Kuenyehia Prize for Contemporary Ghanaian Art, o principal prêmio de arte contemporânea de Gana.
Diego Araúja nasceu em Salvador, na Bahia, onde vive e trabalha como artista, diretor e escritor. Formado em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), atua como diretor, dramaturgo, roteirista, cenógrafo e artista visual. Foi diretor, dramaturgo e produtor do Teatro Base entre 2010 e 2017 e, em 2017, fundou com a artista Laís Machado a Plataforma ÀRÀKÁ, espaço de criação e conexão entre artistas afro-atlânticos. Em 2018, concebeu uma performance coreográfica para a videoinstalação A Marvelous Entanglement, de Isaac Julien, e fez residência no Atlantic Center for the Arts; em 2020, foi residente da SAVVY Contemporary, em Berlim. Em 2019, foi convidado pelo Ministério das Relações Exteriores da Alemanha a representar o Brasil no 56º Theatertreffen, em Berlim, e em 2020 apresentou QUASEILHAS, cantada inteiramente em oríkì, a poesia oral iorubá, no Iberoamerikanisches Theaterfestival. Em 2021, criou a arquitetura efêmera Lands Giving Birth Gold (Terras que dão à luz ouro), que ligava Brasil e Gana por meio de seus cantos de trabalho, e iniciou um mapeamento de performers do mundo atlântico na Trienal Frestas.

