O Pavilhão da Letônia na 59ª Bienal de Veneza, em 2022, apresentou Selling Water by the River, da dupla Skuja Braden, com curadoria de Solvita Krese e Andra Silapētere. As artistas levaram ao Arsenale sua casa em porcelana, com mais de 300 objetos sobre vida privada, identidade queer e espaço público.
Selling Water by the River (Vendendo água à beira do rio) foi a representação oficial da Letônia na 59ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, em cartaz de 23 de abril a 27 de novembro de 2022, na edição The Milk of Dreams, com curadoria geral de Cecilia Alemani. A exposição foi criada pela dupla Skuja Braden, formada pela letã Ingūna Skuja e pela norte-americana Melissa D. Braden, e ocupou um espaço no Arsenale. A participação foi comissionada pelo Ministério da Cultura da República da Letônia e organizada pelo Centro Letão de Arte Contemporânea (LCCA), com Solvita Krese como comissária e curadora, ao lado de Andra Silapētere. O projeto contou com o apoio do município de Aizkraukle e com a colaboração da Academia de Arte da Letônia, da Academia Letã de Cultura e das coleções Vitols e Zuzāns, como indica o painel de entrada do pavilhão, fotografado pelo Arte como Assunto na visita à Bienal em 2022. Para a mostra, as artistas transferiram para Veneza o espaço da casa em que viveram e trabalharam por muitos anos, em Aizkraukle, cidade às margens do rio Daugava, em uma instalação com mais de 300 objetos que reúne obras novas e trabalhos dos últimos 20 anos. A crítica internacional destacou o pavilhão entre os mais marcantes da edição, e as próprias artistas lembraram que o projeto lhes deu, pela primeira vez, a oportunidade de trabalhar em grande escala, com uma equipe inteira dedicada à produção.
Skuja Braden realizou individuais no Museu de Artes Decorativas e Design de Riga, no Museum of Contemporary Craft, em Oregon, e na John Natsoulas Gallery, na Califórnia, e participou de exposições coletivas no Museu Nacional de Arte da Letônia e na Whitechapel Gallery, em Londres, além de feiras como SOFA Chicago e SCOPE Basel. A exposição Samsara (2020) trouxe à dupla o reconhecimento nacional: recebeu o prêmio Kilogram of Kulture de melhores artistas visuais do ano, chegou à seleção final do Prêmio Purvītis, a principal distinção das artes visuais da Letônia, onde venceu o voto do público, e abriu caminho para a indicação a Veneza. Suas obras integram acervos como os do Museu Nacional de Arte da Letônia, do Museu de Artes Decorativas e Design e do Museu da Porcelana de Riga, do Musée Ariana, na Suíça, do World Ceramic Center, na Coreia do Sul, do Changchun Ceramic Center, na China, do ASU Art Museum, nos Estados Unidos, do Keramikmuseum Westerwald, na Alemanha, do Kistefos Museum, na Noruega, e do Zuzeum, em Riga. Depois de Veneza, a dupla participou da Trienal de Guangzhou, no Museu de Guangdong, em 2023, e expôs no Pera Museum, em Istambul, e na galeria kaufmann repetto, em Milão e Nova York.

O que significa Selling Water by the River?
O título vem de um koan do zen-budismo e, segundo as artistas, de um antigo ditado japonês sobre um mestre que oferece ao discípulo algo que ele já possuía, mas não conseguia enxergar. A expressão convida a repensar processos sociais e individuais e a perceber que muitas das coisas que buscamos já estão ao nosso alcance. As artistas observam que, para falantes de inglês, a frase também evoca a figura do vendedor de elixires milagrosos, alguém que vende o que ninguém precisa, e exploram essa ambiguidade. No pavilhão, a casa e o rio funcionam como metáforas de estados de consciência que refletem experiências diferentes. As curadoras perguntam se a água da Califórnia, terra natal de Melissa, é diferente da água do Daugava, o rio letão às margens do qual fica Aizkraukle, cidade construída no período da industrialização soviética, onde Ingūna cresceu. Para Skuja Braden, a mensagem do título se estende à própria Letônia: o país já tem diante de si artistas e histórias que só precisa aprender a ver.
Uma casa transportada para o Arsenale
A instalação mapeia as dimensões mental, física e espiritual do ser dentro da casa das artistas. O ponto de partida é uma frase de James Baldwin no romance O quarto de Giovanni (1956), segundo a qual talvez o lar não seja um lugar, e sim uma condição irrevogável. No pavilhão, a casa ganha forma em imagens profundamente pessoais em porcelana, material que a dupla domina com virtuosismo: pratos ricamente pintados, objetos do cotidiano, fontes, mangueiras sinuosas, corpos masculinos e femininos e vestígios da natureza. O conjunto foi descrito como um interior doméstico de faz de conta atravessado por uma tempestade, com mais de 300 peças espalhadas como se tivessem sido arremessadas pelo espaço. Imagens grotescas pintadas nos pratos tratam do ato de olhar e ser olhado, e o olho aparece como elemento físico e metafórico em muitas obras. A dupla define seu próprio estilo como um “realismo de desenho animado” em porcelana, uma fusão de estilos decorativos que toca em temas literários e da história da arte, ancorada na política do presente e interpretada a partir da experiência compartilhada das duas artistas.
We Made Our Bed: a cama de porcelana
Entre as obras criadas especialmente para a Bienal está We Made Our Bed (Fizemos a nossa cama, 2022), uma cama inteira feita de porcelana. As artistas a descrevem como um portal para o espaço privado do casal, inseparável de um passado, um presente e um futuro coletivos e públicos. Da cama sai uma onda que invade o ambiente, trazendo peixes, cobras, maçãs, águas-vivas, as próprias artistas e suas obras em direção ao visitante. Para Skuja Braden, a peça revela uma existência coletiva em transformação constante, em que não há nada a que se agarrar nem nada a repelir. O título joga com a expressão inglesa “you made your bed, now lie in it”, usada para dizer que cada um arca com as consequências das próprias escolhas, e a transforma em afirmação da vida a dois. Ao levar a cama do casal para um pavilhão nacional, a obra coloca no centro do espaço público justamente o lugar mais íntimo da casa.
Público e privado, identidade queer e o contexto báltico
A exposição pergunta o que molda nossa compreensão de espaço público e privado e qual é o nosso papel na construção dessas fronteiras, e como podemos tornar nosso entorno o mais inclusivo e aberto possível, para que outras pessoas também se sintam em casa. Segundo as curadoras, os conflitos costumam surgir justamente onde o público e o privado se encontram, onde valores diferentes se cruzam. A presença da comunidade LGBTQIA+ ainda é um tema sensível nos países bálticos e no Leste Europeu, onde aquilo que se afasta da heteronormatividade muitas vezes se choca com visões conservadoras ligadas a discursos nacionalistas e a tradições patriarcais. As artistas relatam as dificuldades jurídicas de viverem e trabalharem juntas por mais de duas décadas como um casal binacional do mesmo sexo, e esperam que sua experiência ajude a mudar mentalidades e a ampliar o reconhecimento de artistas de grupos historicamente discriminados na Letônia. Para as curadoras, a confiança que as duas extraíram dos ensinamentos budistas, combinada ao espírito livre californiano e à experiência pós-socialista, ajuda a encontrar saídas para esses conflitos no cotidiano e na prática artística. O projeto também propõe outras leituras da história da região báltica e testa a capacidade da sociedade atual de enfrentar desafios como a crescente polarização de opiniões.
Zen, Califórnia e Letônia: as referências da dupla
A identidade de Skuja Braden se formou entre a Letônia e os Estados Unidos e foi marcada por um período que as duas passaram em um mosteiro zen-budista na Califórnia, experiência que, segundo as curadoras, influenciou tanto a vida quanto a obra do casal. O budismo já ocupava o centro de Samsara (2020), exposição no Museu de Artes Decorativas e Design de Riga, cuja peça central era um altar de inspiração budista dedicado à mãe de Ingūna, Ilga Skuja (1923-2019). Entre as artistas que as inspiram, a dupla cita Louise Bourgeois e a pintora letã Felicita Pauļuka, criança-prodígio que, na mesma época de Alice Neel, mas do outro lado da Cortina de Ferro, retratou amigos e amigas nus, invertendo a tradição do nu feminino, em pastéis de grande virtuosismo. As artistas também elogiam o trabalho do LCCA de pesquisar a história local e redescobrir artistas esquecidos, sobretudo os de grupos sociais discriminados durante muito tempo, num país pós-soviético que enfrentou restrições à liberdade de expressão.
Quem é Skuja Braden?
Skuja Braden é o nome da colaboração artística iniciada em 1999 entre Ingūna Skuja, nascida na Letônia em 1965, e Melissa D. Braden, nascida na Califórnia em 1968. O nome une os sobrenomes das duas. Ingūna formou-se na Academia de Arte da Letônia, e Melissa, na Humboldt State University, na Califórnia. As duas se conheceram em 1999, quando Melissa chegou a Riga para estudar na Academia de Arte da Letônia, mesmo ano em que o país participou pela primeira vez da Bienal de Veneza. Naquele verão, foram convidadas para uma viagem da Academia a Veneza, mas não puderam ir, e combinaram que só iriam quando estivessem expondo na Bienal. Pouco depois, mudaram-se para os Estados Unidos e, anos mais tarde, voltaram à Letônia para cuidar da mãe de Ingūna, instalando-se em Aizkraukle. Atualmente vivem e trabalham em Riga. A obra da dupla, inteiramente em porcelana, combina pintura, escultura e instalação e trata de corpo, gênero, sexualidade, espiritualidade e memória a partir da vida em comum das duas.
Quem são as curadoras?
Solvita Krese vive em Riga e dirige o Centro Letão de Arte Contemporânea (LCCA) desde 2000, onde também atua como curadora. Organizou diversas exposições internacionais de grande escala e foi comissária do Pavilhão da Letônia nas edições de 2015 e 2019 da Bienal de Veneza. O LCCA, organização não governamental criada em 1993, dedica-se aos contextos culturais e políticos da Letônia, dos países bálticos, do Leste Europeu e da região pós-socialista, com atenção especial a gênero, minorias, memória e ecologia, e organiza o festival internacional de arte contemporânea Survival Kit.
Andra Silapētere é curadora e pesquisadora baseada em Riga e integra a equipe do LCCA desde 2012. Sua pesquisa e prática curatorial se concentram em identidade e pertencimento, temas que orientaram exposições organizadas por ela no Museu Nacional de Arte da Letônia (2021), no espaço District, em Berlim (2019), e na James Gallery da CUNY, em Nova York (2019).
Pavilhão da Letônia – Selling Water by the River (Vendendo água à beira do rio)
59ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, The Milk of Dreams
Artistas: Skuja Braden (Ingūna Skuja e Melissa D. Braden)
Curadoria: Solvita Krese e Andra Silapētere
Comissária: Solvita Krese, Centro Letão de Arte Contemporânea (LCCA)
Comissionamento: Ministério da Cultura da República da Letônia
Organização: Centro Letão de Arte Contemporânea (LCCA)
Produção: Kitija Vasiļjeva
Arquitetura: Līva Kreislere
Design gráfico: Rūta Jumīte
Iluminação: Romāns Medvedevs
Em colaboração com: Academia de Arte da Letônia, Academia Letã de Cultura, Coleção Vitols de Arte Contemporânea e Coleção Zuzāns
Curadoria geral da Bienal: Cecilia Alemani
Local: Arsenale, Veneza
Período: 23 de abril a 27 de novembro de 2022
Perguntas frequentes
Quem representou a Letônia na Bienal de Veneza de 2022?
A Letônia foi representada pela dupla Skuja Braden, formada pela letã Ingūna Skuja e pela norte-americana Melissa D. Braden, com a exposição Selling Water by the River. A curadoria foi de Solvita Krese e Andra Silapētere.
O que significa o título Selling Water by the River?
O título vem de um koan zen-budista sobre um mestre que oferece ao discípulo aquilo que ele já tinha e não conseguia ver. Na exposição, a frase sugere que muito do que buscamos já está ao nosso alcance.
O que havia no Pavilhão da Letônia em 2022?
O pavilhão recriou a casa das artistas com mais de 300 objetos de porcelana, entre pratos pintados, objetos domésticos, fontes, mangueiras e corpos, além da cama de porcelana We Made Our Bed, criada para a Bienal.
Quem são as artistas Skuja Braden?
Skuja Braden é a dupla formada em 1999 por Ingūna Skuja, nascida na Letônia em 1965, e Melissa D. Braden, nascida na Califórnia em 1968. Elas trabalham juntas em porcelana há mais de duas décadas e vivem em Riga.
Que temas a exposição abordava?
A mostra tratava das fronteiras entre espaço público e privado, da identidade queer, da espiritualidade budista e da história da região báltica, questionando como tornar a sociedade mais aberta e inclusiva.

