Cecilia Alemani: a curadora de The Milk of Dreams, a 59ª Bienal de Veneza

Cecilia Alemani é uma curadora italiana nascida em Milão, em 1977, e radicada em Nova York, onde dirige o programa de arte pública High Line Art desde 2011. Foi a primeira mulher italiana a dirigir a Bienal de Veneza, com The Milk of Dreams (2022), edição recorde de público dedicada à metamorfose dos corpos.

Cecilia Alemani é uma das curadoras mais influentes da arte contemporânea internacional. Nasceu em Milão, em 1977, cresceu na cidade e vive em Nova York desde o início dos anos 2000. Desde outubro de 2011, é diretora e curadora-chefe do High Line Art, o programa de arte pública do parque suspenso construído sobre uma antiga linha férrea elevada em Manhattan. Em 2017, curou o Pavilhão da Itália na 57ª Bienal de Veneza; em 2018, foi diretora artística da primeira edição do Art Basel Cities, em Buenos Aires; e, entre 2020 e 2022, dirigiu o setor de Artes Visuais da Bienal de Veneza, responsável pela 59ª Exposição Internacional de Arte, The Milk of Dreams. Foi a primeira mulher italiana a ocupar o cargo em mais de 125 anos de história da instituição, e a quinta mulher a dirigir a exposição, depois de María de Corral e Rosa Martínez (2005), Bice Curiger (2011) e Christine Macel (2017). Depois de Veneza, curou a 12ª SITE Santa Fe International, nos Estados Unidos, em 2025, assumiu a curadoria do Max Mara Art Prize for Women e foi escolhida para curar a 15ª Bienal de Taipei, em 2027, seu primeiro projeto na Ásia. Sua trajetória é marcada pelo compromisso com artistas mulheres, pelo trabalho com espaços pouco convencionais e por uma prática que ela mesma descreve como pouco formal e pouco institucional. Perto dos 50 anos, como observou em entrevista, ela nunca trabalhou em um museu.

Alemani descreve uma prática construída sobre a escuta, o cuidado e o diálogo direto com os artistas e os lugares. Para ela, cada projeto nasce da escuta atenta de um contexto específico e da conversa com os artistas envolvidos. Grande parte de seu trabalho consiste em tornar possível a obra que o artista gostaria de fazer, acompanhando não só a exposição, mas todo o processo de produção. A curadora define a função como a de alguém que facilita relações, entre o artista e uma instituição ou entre o artista e um contexto, para que a obra se realize da melhor forma, antes ou depois de existir. Alemani também se vê como contadora de histórias, em especial quando duas obras ou dois artistas são aproximados, isso nunca é por acaso, e a proximidade forma uma narrativa que lança uma pergunta ao público e o estimula a pensar. A arte, em suas palavras, ajuda a ver o mundo por outras lentes e abre um registro diferente de escuta, visual, perceptivo e metafórico. Ao comentar o Max Mara Art Prize, resumiu que esses projetos exigem escuta, atenção e uma certa humildade, e que um terreno comum nem sempre surge de imediato, mas pode ser construído e precisa ser cultivado.

Formação: filosofia em Milão e estudos curatoriais em Nova York

Alemani formou-se em filosofia, com ênfase em estética, pela Università degli Studi di Milano, em 2001. Durante a graduação, passou por Paris e fez um curso de arte contemporânea na Tate Modern, em Londres. Em 2003, mudou-se para Nova York para cursar o mestrado em Estudos Curatoriais do Center for Curatorial Studies do Bard College, em Annandale-on-Hudson, concluído em 2005. A formação filosófica atravessa toda a sua prática: em The Milk of Dreams, a exposição foi construída a partir de leituras de pensadoras como Rosi Braidotti, Donna Haraway e Silvia Federici, e o Pavilhão da Itália de 2017 partiu de um livro do antropólogo Ernesto de Martino. Alemani costuma começar seus projetos pela leitura, sobretudo de escritos de artistas, e foi assim que chegou ao título de sua Bienal. Ela é casada com o curador italiano Massimiliano Gioni, diretor artístico do New Museum, de Nova York, que dirigiu a 55ª Bienal de Veneza, em 2013, e com quem colaborou em diversos projetos ao longo da carreira.

Os primeiros anos em Nova York: curadoria independente e espaços alternativos

Nos primeiros anos em Nova York, Alemani trabalhou como curadora independente com museus como a Tate Modern e o MoMA PS1, com instituições sem fins lucrativos como Artists Space e Art in General e com fundações privadas como a Deste Foundation, de Atenas. Entre 2007 e 2008, foi curadora de projetos especiais da feira Artissima, em Turim. De janeiro de 2009 a fevereiro de 2010, foi diretora curatorial da X Initiative, um espaço experimental sem fins lucrativos que funcionou por um ano no antigo prédio da Dia Art Foundation, em Chelsea, onde organizou exposições e eventos. Com o artista Maurizio Cattelan e Massimiliano Gioni, criou o festival No Soul For Sale, que reuniu espaços independentes, organizações sem fins lucrativos e coletivos de artistas. A primeira edição aconteceu na X Initiative, em junho de 2009, e a segunda ocupou o Turbine Hall da Tate Modern, de 14 a 16 de maio de 2010, nas comemorações dos dez anos do museu, com mais de 70 participantes do mundo inteiro expondo lado a lado, sem paredes nem divisórias. O festival não era uma feira nem uma exposição, e celebrava as forças independentes da arte contemporânea além dos limites do mercado. Em 2011, Alemani foi curadora convidada da Performa 11, a bienal de performance de Nova York. Também escreveu para publicações como Artforum, Domus e Flash Art.

High Line Art: um museu suspenso no meio de Chelsea

Desde 2011, Alemani dirige o High Line Art, o programa de arte pública do High Line, parque construído sobre uma linha férrea elevada desativada no oeste de Manhattan. Ao assumir o cargo, ela disse que queria que os artistas usassem a cidade como pedestal, conectando a arte a lugares inesperados e alcançando públicos completamente novos, num parque que já recebia mais de dois milhões de pessoas por ano. Em entrevista recente, resumiu a situação dizendo que, no momento, seu museu é um jardim suspenso a dez metros do chão, no meio de Chelsea. À frente do programa, comissionou e produziu projetos de artistas como El Anatsui, John Baldessari, Phyllida Barlow, Carol Bove, Sheila Hicks, Rashid Johnson, Barbara Kruger, Ibrahim Mahama, Kerry James Marshall, Faith Ringgold, Ed Ruscha, Sarah Sze, Nari Ward e Adrián Villar Rojas, e já trabalhou com mais de duzentos artistas. Em junho de 2019, lançou o High Line Plinth, plataforma dedicada a esculturas monumentais, inaugurada com Brick House, de Simone Leigh, e seguida por Untitled (drone), de Sam Durant. O programa inclui ainda os High Line Billboards e as High Line Commissions. A experiência no High Line ensinou Alemani a considerar sempre o espaço em que os projetos acontecem e a trabalhar com ele, princípio que ela levaria para Veneza.

Frieze Projects: novas comissões e exposições históricas refeitas

De 2012 a 2017, Alemani curou o Frieze Projects, a plataforma sem fins lucrativos da feira Frieze em Nova York, realizada no Randall’s Island Park. O programa apresentava comissões inéditas de artistas emergentes ao lado de reconstruções de exposições históricas, uma combinação que antecipa o interesse pela dimensão transistórica que marcaria sua Bienal. Em 2016, por exemplo, a seção reuniu obras de artistas como Alex Da Corte e Heather Phillipson e uma releitura de uma exposição de 1994 que, na época, durou apenas algumas horas e foi vista por pouca gente. Alemani também coordenou o Frieze Sounds, dedicado a obras sonoras, e colaborou com a seção Frame, da Frieze London, e com o programa de conversas da Frieze em Nova York. O trabalho em feiras, segundo ela, também a ensinou a respeitar contextos que não são museus e a construir percursos que dialoguem com espaços difíceis.

Il mondo magico: o Pavilhão da Itália em 2017

Em 2017, Alemani curou o Pavilhão da Itália na 57ª Bienal de Veneza, Viva Arte Viva, dirigida por Christine Macel. A exposição Il mondo magico (O mundo mágico) tomou o título do livro homônimo do antropólogo napolitano Ernesto de Martino (1908-1965), publicado em 1948, logo depois da Segunda Guerra Mundial. De Martino estudou a magia como um conjunto de rituais por meio dos quais as pessoas tentam recuperar o controle em tempos de incerteza e reafirmar sua presença no mundo. A curadora convidou três artistas italianos nascidos entre os anos 1970 e 1980, Giorgio Andreotta Calò, Roberto Cuoghi e Adelita Husni-Bey, que realizaram três projetos novos e ambiciosos nas Tese delle Vergini, no Arsenale. Andreotta Calò dividiu uma sala inteira em dois níveis, com uma superfície de água que espelhava o teto, em Senza titolo (La fine del mondo); Cuoghi criou Imitazione di Cristo, um laboratório de produção de esculturas a partir do texto religioso do século XV; e Husni-Bey apresentou La Seduta, uma instalação com vídeo baseada em uma sessão de tarô com jovens. Para Alemani, os três usam a magia como instrumento cognitivo para reconstruir e reinventar a realidade, ora pela fantasia e pelo jogo, ora pela poesia e pela imaginação. O pavilhão foi muito bem recebido e já trazia temas centrais de The Milk of Dreams: o fantástico, a transformação e a imaginação como forma de habitar o mundo.

Hopscotch: Art Basel Cities em Buenos Aires (2018)

Em 2018, Alemani foi diretora artística da primeira edição do Art Basel Cities, iniciativa da feira suíça em parceria com a cidade de Buenos Aires. A curadora organizou Hopscotch (Rayuela), uma exposição espalhada pela cidade, com 18 obras em diálogo próximo com os lugares onde foram instaladas, conectando arte, espaço urbano e histórias locais. O título remete ao romance Rayuela (O jogo da amarelinha, 1963), do escritor argentino Julio Cortázar. Participaram artistas como Eduardo Basualdo, Pia Camil, Maurizio Cattelan, Gabriel Chaile e Luciana Lamothe. Alemani lembra que, dois dias antes da abertura, o peso argentino desabou e começou uma inflação como ela nunca tinha visto, e conclui que as cidades obrigam os curadores a lidar com suas especificidades e seus problemas, muitas vezes quando menos se espera, e que é justamente aí que a energia criativa costuma surgir. No ano seguinte, para a Art Basel de 2019, comissionou à artista romena Alexandra Pirici uma nova versão de Aggregate na Messeplatz, com mais de sessenta performers.

A nomeação para a 59ª Bienal de Veneza

Em 10 de janeiro de 2020, o conselho da Bienal de Veneza, presidido por Roberto Cicutto, anunciou Cecilia Alemani como diretora artística do setor de Artes Visuais, encarregada de planejar e curar a 59ª Exposição Internacional de Arte. Ao ser nomeada, ela disse entender a responsabilidade e a oportunidade de ser a primeira mulher italiana no cargo e afirmou que pretendia dar voz aos artistas para criar projetos únicos que refletissem suas visões e a sociedade. Poucas semanas depois, a pandemia de covid-19 mudou todo o calendário: a exposição, prevista para 2021, foi adiada para 2022, e Alemani passou quase dois anos preparando a mostra sem poder viajar. Em 2020, durante o adiamento, ela participou, com os diretores dos outros setores da Bienal, da exposição Le muse inquiete (As musas inquietas), no Pavilhão Central, dedicada à história da instituição a partir de seu arquivo, com projeto expográfico do estúdio Formafantasma. Questionada sobre por que a Bienal levou mais de um século para convidar uma italiana, Alemani respondeu que a demora revela um sistema repressivo, sexista e discriminatório, e disse esperar que a instituição continue convidando curadoras mulheres.

Como Alemani pesquisou The Milk of Dreams

Impedida de viajar, Alemani preparou a Bienal de casa, em Nova York, num pequeno canto do apartamento diante de uma tela. Ela analisou milhares de portfólios e listas e fez mais de quatrocentas visitas a ateliês por videochamada, pedindo aos artistas que indicassem outros artistas que ela deveria conhecer. Segundo a curadora, essas conversas tiveram um caráter quase confessional: em vez da visita tradicional ao ateliê, eram diálogos pessoais e até existenciais, em que ela olhava diretamente para as casas e as vidas das pessoas. Esse tom introspectivo acabou moldando o próprio tema da exposição. Alemani percebeu que, naquele momento, poucos artistas tratavam a pandemia ou a crise social de forma explícita e que muitos voltavam a modos íntimos de trabalho, processando o trauma de maneira mais pessoal. Para os núcleos históricos, a pesquisa foi de outra natureza, mais acadêmica, com arquivos e livros, algo de que ela sentia falta. O ano extra permitiu negociar empréstimos de museus, que costumam levar anos, e aprofundar a investigação, incluindo outras figuras culturais, como escritoras, num fio literário que atravessa a mostra. A única viagem que fez nesse período foi à Escandinávia. Ao final, disse com humor que o que mais desejava era ficar em silêncio e nunca mais fazer uma videochamada.

Leonora Carrington e o título The Milk of Dreams

O título da exposição vem de The Milk of Dreams (O leite dos sonhos), um livro de histórias ilustradas criado pela artista surrealista Leonora Carrington (1917-2011) para os próprios filhos, primeiro desenhadas nas paredes da casa da família no México, nos anos 1950, e depois reunidas em um caderno. Segundo Alemani, o livro descreve um mundo mágico em que a vida é constantemente reinventada pela imaginação e em que todos podem mudar, se transformar e se tornar outra coisa ou outra pessoa. A curadora sabia desde o início que queria fazer uma exposição transistórica e que Carrington estaria nela, mas só encontrou o livro no fim da pesquisa, depois de ler muitos textos da artista, a quem passou a admirar também como escritora. Quando o leu para o filho, então com seis anos, o menino comentou que aquilo não parecia um livro infantil. Para Alemani, o livro é ao mesmo tempo lúdico, estranho e um pouco assustador, e essas atmosferas atravessam a exposição, que combina ironia, humor e seriedade. A escolha também se ligava ao interesse crescente pelas mulheres surrealistas, como Carrington, Remedios Varo e Leonor Fini, que até então nunca tinham tido presença de destaque na Bienal.

Os três eixos de The Milk of Dreams

A exposição se organizou em torno de três eixos temáticos, que Alemani preferia chamar de “almas” da mostra, já que não correspondiam a seções fechadas. O primeiro trata da representação dos corpos e de suas metamorfoses, e das próprias definições de humanidade. O segundo examina a relação entre os indivíduos e as tecnologias, do otimismo tecnológico de antes da pandemia, que prometia aperfeiçoar o corpo e prolongar a vida, ao medo de uma dominação das máquinas, numa época em que a tecnologia, segundo a curadora, nos manteve juntos e separados ao mesmo tempo. O terceiro investiga a relação entre os corpos e a Terra, propondo vínculos com outros seres e com o planeta baseados na simbiose e na colaboração, distantes da lógica extrativista. A espinha dorsal de tudo é o pensamento pós-humano, inspirado em Rosi Braidotti e Donna Haraway, que questiona a ideia renascentista e iluminista do homem branco ocidental no centro do universo, e na noção de “reencantamento” do mundo proposta por Silvia Federici, que escreveu para o catálogo. Alemani buscou artistas que rompem com dualismos como mente e corpo, natureza e cultura, feminino e masculino, e daí vem a forte presença do espiritual e do oculto na exposição. A mostra reuniu 213 artistas de 58 países, mais de 180 deles participando pela primeira vez da exposição internacional, com cerca de 1.500 obras distribuídas entre o Pavilhão Central, nos Giardini, e o Arsenale.

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As cinco cápsulas do tempo

Uma das marcas mais celebradas de The Milk of Dreams foram as cinco “cápsulas do tempo”, pequenas exposições históricas dentro da exposição, que funcionavam como raízes do conjunto. Reuniam sobretudo artistas mulheres do século XX, com algumas exceções mais antigas, que trataram de temas ou métodos semelhantes aos dos artistas contemporâneos e que a história deixou de lado. Eram elas: La culla della strega (O berço da bruxa), dedicada às surrealistas, com Leonora Carrington, Remedios Varo, Leonor Fini, Dorothea Tanning, Eileen Agar e Claude Cahun; Corpo orbita (O corpo em órbita), sobre poesia visual e escrita; Tecnologie dell’incanto (Tecnologias do encantamento), sobre a arte programada e cinética italiana dos anos 1960, movimento em que quase só homens ficaram conhecidos; Una foglia una zucca un guscio una rete una borsa una tracolla una bisaccia una bottiglia una pentola una scatola un contenitore, inspirada no ensaio A teoria da bolsa da ficção, de Ursula K. Le Guin, sobre o recipiente como ferramenta primordial; e La seduzione del cyborg (A sedução do ciborgue), sobre o encontro entre corpo e máquina. Alemani explica que as cápsulas não pretendiam reescrever a história, tarefa já feita por exposições acadêmicas importantes, e que funcionavam por analogias e rimas, aproximando surrealismo, Renascimento do Harlem e futurismo. O projeto expográfico foi do estúdio italiano Formafantasma, com papéis de parede, tecidos, tapetes, vitrines e iluminação próprios para cada cápsula, de modo que o visitante se sentisse transportado para outro tempo, como a Paris dos anos 1920 ou uma loja Olivetti dos anos 1960.

Uma Bienal de maioria feminina

The Milk of Dreams foi a primeira edição da Bienal com ampla maioria de artistas mulheres e de artistas que não se identificam com as normas de gênero, entre 80% e 90% segundo a própria curadora, que não pediu aos artistas que informassem sua identidade de gênero. Alemani afirmou que não trabalhou com cotas e que, quando quis convidar um homem, convidou. A seu ver, a exposição reflete a sociedade em que vivemos e também a história da Bienal: nos primeiros cem anos da instituição, as artistas mulheres eram menos de 10% das participantes, e nos últimos vinte anos, cerca de 30%. Ela observa que, em 57 edições, sempre houve uma grande maioria de homens sem que isso fosse problema, e que o gênero só se torna tema quando a proporção se inverte. As cápsulas históricas foram intencionalmente dedicadas a mulheres, porque se debruçavam sobre temas historicamente associados aos homens, como a arte programada, o dadaísmo e o ciborgue. A curadora também disse que queria uma exposição de maioria feminina por acontecer na Itália, onde, segundo ela, muitas dessas discussões ainda estão “na Idade Média”. Ainda assim, insistiu que a mostra não era uma exposição sobre mulheres artistas, e sim uma exposição com o trabalho de muitas grandes artistas mulheres.

O percurso da exposição e o diálogo com os espaços

Alemani concebeu o percurso como uma alternância entre momentos concentrados, as cápsulas, e experiências mais amplas e respiráveis, como as instalações de Delcy Morelos, Barbara Kruger e Kapwani Kiwanga. Desde janeiro de 2020, ela sabia como queria abrir os dois espaços: o Pavilhão Central começaria com Elefante (1987), de Katharina Fritsch, na Sala Chini, a única sala circular do pavilhão, e o Arsenale com Brick House (2019), de Simone Leigh, escultura que ela mesma havia comissionado para o High Line. A curadora lembra que a primeira Bienal que viu foi a de 1999, dirigida por Harald Szeemann, e que o elefante de ratos gigantes de Fritsch naquela edição a impressionou profundamente. Também cita como referências a Bienal de Francesco Bonami, de 2003, pela efervescência e liberdade, e a de 1948, a primeira depois da Segunda Guerra, que marcou um renascimento após vinte anos de fascismo. Na Corderie do Arsenale, um espaço longo e monótono em que não se pode pendurar nada nas paredes, nas colunas ou no teto, Alemani aplicou o que aprendeu no High Line: respeitar o lugar e criar um ritmo, sem tentar neutralizá-lo. A mostra terminava nos espaços externos do Giardino delle Vergini, com obras como as esculturas em pedra-sabão da brasileira Solange Pessoa.

Artistas brasileiras e latino-americanas em The Milk of Dreams

A exposição deu destaque a artistas da América Latina. Entre as brasileiras estavam Rosana Paulino, com desenhos da série Ama de leite (2005), sobre as mulheres negras escravizadas que amamentavam os filhos de seus senhores, Solange Pessoa, Lenora de Barros, com Poema (1979/2014), e Luiz Roque. A colombiana Delcy Morelos criou um labirinto de terra, o argentino Gabriel Chaile apresentou a escultura Mamá Luchona (2021), e a chilena Cecilia Vicuña recebeu o Leão de Ouro pelo conjunto da obra. Alemani também recorreu à cultura mexicana, por meio de Carrington, que viveu a maior parte da vida no México, e de Remedios Varo, espanhola radicada no país.

Prêmios, guerra na Ucrânia e recepção

A abertura, em 23 de abril de 2022, aconteceu dois meses depois da invasão russa da Ucrânia. Os artistas e o curador do pavilhão russo se retiraram em protesto contra a guerra, e a Bienal criou nos Giardini a Piazza Ucraina, um espaço aberto dedicado a artistas ucranianos. Os Leões de Ouro pelo conjunto da obra foram para a alemã Katharina Fritsch e a chilena Cecilia Vicuña. O júri deu o Leão de Ouro de melhor participante da exposição internacional a Simone Leigh, por Brick House, e o de melhor participação nacional ao pavilhão da Grã-Bretanha, com Sonia Boyce, fazendo de 2022 a primeira edição em que artistas negras receberam as duas principais premiações. O Leão de Prata de jovem artista promissor foi para o libanês Ali Cherri, e as menções especiais foram para Lynn Hershman Leeson e Shuvinai Ashoona. The Milk of Dreams recebeu mais de 800 mil visitantes ao longo de sete meses, o maior público da história da Bienal até então, mesmo com a queda do turismo internacional. A revista Apollo escolheu Alemani como personalidade do ano de 2022. A própria curadora previu que a edição seria lembrada como a Bienal da covid, a Bienal das mulheres e, assim esperava, a Bienal divertida do renascimento e do reencontro.

Depois de Veneza: Santa Fe, Max Mara e Taipei

Depois da Bienal, Alemani seguiu à frente do High Line Art e assumiu novos projetos. Em 2023, organizou a primeira retrospectiva nos Estados Unidos do pintor japonês Tetsuya Ishida, na Gagosian de Nova York, e, em 2024, curou no Muzeum Susch, na Suíça, Anu Põder: Space for My Body, a primeira individual da escultora estoniana fora de seu país. Em 2025, curou a 12ª SITE Santa Fe International, Once Within a Time, em cartaz de 27 de junho de 2025 a 12 de janeiro de 2026, em mais de uma dezena de espaços de Santa Fe, no Novo México. O título vem de um filme de 2022 do cineasta experimental Godfrey Reggio, morador da cidade e participante da mostra, e a exposição colocou artistas locais, nacionais e internacionais em diálogo com mais de vinte “figuras de interesse”, reais e fictícias, ligadas à região, como a escritora Willa Cather, a pintora Agnes Pelton e a artista Pablita Velarde, com mais de 300 obras feitas entre 1926 e o presente. Alemani disse que queria uma exposição que nascesse do lugar e só pudesse acontecer em Santa Fe. Em seguida, assumiu a curadoria do Max Mara Art Prize for Women, criado em 2005, e levou pela primeira vez o resultado da residência italiana da premiada para fora da Europa, em uma exposição no Museum MACAN, em Jacarta. Foi também anunciada como curadora da 15ª Bienal de Taipei, em 2027, no Taipei Fine Arts Museum.

Linha do tempo

AnoMarco
1977Nasce em Milão, Itália
2001Gradua-se em filosofia na Università degli Studi di Milano
2003Muda-se para Nova York
2005Conclui o mestrado em Estudos Curatoriais no Bard College
2007-2008Curadora de projetos especiais da Artissima, em Turim
2009-2010Diretora curatorial da X Initiative; cria o festival No Soul For Sale com Maurizio Cattelan e Massimiliano Gioni
2010No Soul For Sale ocupa o Turbine Hall da Tate Modern
2011Curadora convidada da Performa 11; assume a direção do High Line Art
2012-2017Curadora do Frieze Projects, em Nova York
2017Cura o Pavilhão da Itália, Il mondo magico, na 57ª Bienal de Veneza
2018Diretora artística do Art Basel Cities: Buenos Aires, com Hopscotch
2019Lança o High Line Plinth com Brick House, de Simone Leigh
2020É nomeada diretora artística da 59ª Bienal de Veneza
2022The Milk of Dreams, 59ª Bienal de Veneza, com mais de 800 mil visitantes
2023Retrospectiva de Tetsuya Ishida na Gagosian, Nova York
2024Anu Põder: Space for My Body, Muzeum Susch, Suíça
2025Cura a 12ª SITE Santa Fe International, Once Within a Time
2026Curadora do Max Mara Art Prize for Women
2027Curadora da 15ª Bienal de Taipei

Perguntas frequentes

Quem foi a curadora da Bienal de Veneza de 2022?
A curadora da 59ª Bienal de Veneza foi a italiana Cecilia Alemani, diretora do High Line Art, em Nova York. Ela foi a primeira mulher italiana a dirigir a exposição internacional e criou The Milk of Dreams, em cartaz de 23 de abril a 27 de novembro de 2022.

O que significa The Milk of Dreams?
O título vem de um livro de histórias ilustradas da artista surrealista Leonora Carrington, criado para seus filhos no México. A exposição usou essa ideia de um mundo em constante transformação para tratar das metamorfoses do corpo, da relação com a tecnologia e da relação com a Terra.

O que eram as cápsulas do tempo da Bienal de 2022?
Eram cinco pequenas exposições históricas dentro de The Milk of Dreams, dedicadas sobretudo a artistas mulheres do século XX, como as surrealistas. Funcionavam como raízes da mostra e tinham projeto expográfico do estúdio Formafantasma.

Como Cecilia Alemani preparou a Bienal durante a pandemia?
Sem poder viajar, ela analisou milhares de portfólios e fez mais de quatrocentas visitas a ateliês por videochamada, pedindo aos artistas que indicassem outros nomes. O adiamento de um ano permitiu aprofundar a pesquisa histórica e negociar empréstimos de museus.

Onde Cecilia Alemani trabalha atualmente?
Alemani dirige o High Line Art, em Nova York, desde 2011. Depois de Veneza, curou a SITE Santa Fe International (2025), assumiu o Max Mara Art Prize for Women e foi escolhida para curar a Bienal de Taipei de 2027.

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