Abstração e política: diálogos entre forma e discurso

A arte abstrata é política? Durante décadas, essa pergunta pareceu contraditória. Afinal, como a ausência de figuração, de temas explícitos ou de mensagens diretas poderia carregar um discurso político? No entanto, um olhar mais atento sobre a história da arte revela que a abstração, longe de ser neutra, sempre esteve atravessada por conflitos, contextos e intenções.

Neste artigo, mergulhamos nos entrelaçamentos entre abstração e política, a partir de entrevistas e ensaios reunidos no livro Abstração informal: diálogos entre artistas brasileiros, organizado por Tiago Mesquita e publicado pela Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Abstração como forma de resistência

Durante o regime militar brasileiro, artistas como Tomie Ohtake, Luiz Paulo Baravelli, Maria Bonomi e Ione Saldanha continuaram a desenvolver pesquisas abstratas mesmo em um contexto em que se cobrava da arte um engajamento mais direto. Para muitos, a escolha por uma linguagem não-figurativa foi, justamente, um gesto de resistência: uma afirmação da autonomia do campo artístico frente às pressões ideológicas do momento.

Em uma das entrevistas, o artista Carlos Fajardo observa: “Fazer arte era, naquele momento, uma forma de afirmar uma certa liberdade. E a abstração permitia isso, porque não se dobrava às narrativas esperadas.”

Essa fala é reveladora: a política da abstração nem sempre está no conteúdo da obra, mas na forma como ela afirma sua existência no mundo, no seu modo de se posicionar frente às convenções, instituições e censuras.

Forma como discurso

Ao analisar a obra de artistas como Lygia Clark e Hélio Oiticica, percebemos que a forma abstrata pode ser também um território de invenção social. O espaço aberto pelo não-representacional permite que o público entre em cena, ative a obra, transforme-a.

“A abstração, nesses casos, é menos uma linguagem e mais uma metodologia de experimentação.”, aponta o pesquisador Tiago Mesquita

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Esse tipo de abordagem desloca a discussão: a política da arte não se reduz à representação de causas ou eventos. Ela pode se manifestar na forma como uma obra se organiza, convida, repele, se comunica ou silencia.

As tensões dentro do campo artístico

O livro também revela embates internos à cena artística. O crítico Ronaldo Brito, por exemplo, é mencionado por seu papel nos anos 1970 ao defender uma arte com implicações mais diretamente políticas, o que gerou tensões com artistas voltados à pesquisa formal.

É nesse ponto que o livro se torna especialmente importante: ele mostra que o debate entre forma e conteúdo não é novo e que a abstração sempre foi um campo de disputa simbólica. Como afirma Paulo Pasta, em uma das entrevistas:

“A cor pode ser tão violenta quanto um grito. O problema é que nem todo mundo quer escutar.”

Abstração na América Latina: uma linguagem de urgência

Nos contextos latino-americanos, a abstração teve características muito distintas das escolas europeias. Como aponta o livro, muitas vezes ela foi uma forma de inserir o Brasil no debate internacional de arte, mas também um modo de lidar com as especificidades locais: repressão, precariedade, urgência.

As entrevistas mostram que, para muitos artistas, a abstração foi menos uma escolha estética e mais uma necessidade expressiva. “A gente não tinha dinheiro pra tinta a óleo, mas fazia cor com o que dava. E aquilo era pintura.”, diz Ascânio MMM, artista e escultor. Esse testemunho revela como os processos materiais também estão atravessados por dimensões sociais e políticas, o que chamamos de forma nunca é “só forma”.

A política da forma

Pensar a relação entre abstração e política é recusar uma visão simplista da arte. Não se trata de definir se uma obra é ou não engajada, mas de perceber que toda decisão formal (o uso da cor, do espaço, do gesto) carrega implicações discursivas. Se a política também é feita de gestos, ritmos e modos de percepção, então a arte abstrata pode ser, sim, um campo político, mesmo (ou especialmente) quando recusa o panfleto e abraça a ambiguidade.

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