Adebunmi Gbadebo: a terra, o cabelo e o índigo como arquivo da escravidão

Adebunmi Gbadebo faz arte com materiais que guardam história no próprio corpo da matéria. A artista norte-americana cava a terra vermelha da plantação onde seus antepassados foram escravizados e transforma esse solo em vasos de cerâmica. Fabrica papel com arroz, algodão e índigo, as mesmas culturas que o trabalho forçado cultivou naquela terra. E costura em suas obras cabelos doados por pessoas negras de toda a diáspora africana. O resultado é uma obra que funciona como memorial, arquivo e ritual de cuidado.

Uma artista que abandonou a tinta

Adebunmi Gbadebo nasceu em 1992 em Livingston, Nova Jersey, e vive entre Filadélfia e Newark. Formou-se em artes visuais na School of Visual Arts, em Nova York, e obteve uma certificação em Creative Place Keeping no New Jersey Institute of Technology. Além de artista multimídia, ela se apresenta como documentarista e sacerdote iorubá.

A escolha dos materiais é o centro de sua trajetória. Ainda na faculdade, Gbadebo começou a trabalhar com cabelo humano negro. Ela explica que a tinta foi historicamente usada para construir narrativas da branquitude, e que mesmo pinturas centradas na subjetividade negra continuariam sendo vistas através desse filtro. O cabelo, ao contrário, estava inteiramente ligado à vida, à política e à espiritualidade negras.

No início, a artista combinava encontros em cafés, supermercados e parques para receber doações de cabelo. Hoje, as doações chegam pelo correio, e cada envelope registra quem enviou, de qual cidade e em que data, criando uma espécie de mapa da diáspora dentro do próprio acervo de materiais. Gbadebo usa a agulha como pincel: costura mechas em telas, fura superfícies que tradicionalmente recebiam tinta e usa a linha para amarrar ou destacar um cacho, uma dobra, um fio crespo.

True Blue: a descoberta de uma história familiar

Por volta de 2018 ou 2019, quando ainda era estudante, Gbadebo acompanhou o esforço da família para reconstruir sua genealogia. Foi assim que descobriu que seus antepassados maternos haviam sido escravizados na plantação True Blue, em Fort Motte, na Carolina do Sul. O nome da propriedade vem do índigo que se cultivava na região, e hoje, ao redor, só se veem campos de algodão e terra vermelha, sem nenhum sinal visível do trabalho escravizado que moldou aquele solo.

A pesquisa levou a artista aos documentos do antigo proprietário, Richard Singleton, dono de True Blue e de uma plantação vizinha. Seu testamento incluía uma lista de seres humanos a serem transmitidos à esposa e aos filhos, muitos deles parentes de Gbadebo, e uma das listas de avaliação colocava seus antepassados ao lado de animais. A artista reproduziu esses documentos em serigrafia na série History Papers, feita com cabelo negro, algodão, papel de arroz e índigo. O gesto transforma o arquivo do escravizador em matéria de uma nova narrativa, construída a partir da perspectiva dos descendentes.

Gbadebo também chama atenção para a permanência dessas estruturas. Ela observa que os descendentes dos proprietários continuam lucrando com a terra e chegaram a registrar uma empresa com o nome True Blue Plantation.

Papel de arroz, algodão e índigo

A série Production reúne algumas das obras de papel mais impressionantes da artista. São grandes folhas de papel de arroz feitas à mão, com cerca de dois metros de altura, compostas por camadas de polpa tingida com índigo e por documentos reproduzidos. Production 4 (2022), por exemplo, combina cabelo negro, algodão, papel de arroz, índigo e fotografias impressas.

Para Gbadebo, cada um desses materiais carrega sua própria história de violência. Ela lembra que raramente se pensa em um grão de arroz como algo marcado pela escravidão e pelo colonialismo, e que o mesmo vale para a cor azul. O arroz Carolina Gold, o algodão e o índigo foram mercadorias nascidas do trabalho forçado, e sua presença na obra devolve a esses produtos a memória das pessoas que os cultivaram.

Ao trabalhar com o índigo, a artista pensa em sua dupla herança: descende de pessoas obrigadas a cultivar a planta e também de povos que a cultivaram durante séculos antes da escravidão. No ateliê, ela descreve o próprio corpo como um substituto que dá continuidade a essas tradições e canaliza as histórias guardadas nos materiais.

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A terra como matéria ancestral

A virada decisiva de sua obra aconteceu quando Gbadebo visitou True Blue e sentiu a força da terra vermelha onde seus antepassados estão enterrados. Ela conta que as colheitas cresceram daquele solo e que ele guarda o sangue, a carne e os ossos de seus ancestrais, e foi essa experiência que a levou à cerâmica. Desde então, viaja várias vezes por ano à Carolina do Sul para coletar terra além dos limites do cemitério.

Enquanto aprendia a modelar, a artista se perguntou o que faria com aquele solo. Então percebeu que, cem, duzentos, trezentos anos antes, seus antepassados eram forçados a plantar algodão naquela terra, sem nenhuma escolha sobre o que sairia dela. Poder decidir a forma que o solo tomaria se tornou, para ela, a expressão máxima de liberdade e também o reconhecimento do sacrifício de quem veio antes. A terra deixou de ser apenas material: contém o suor de séculos de trabalho, o algodão que voltou ao chão, o índigo e os pinheiros da região, testemunhas silenciosas do que aconteceu nas plantações.

Os vasos que nascem desse processo ganham traços quase humanos, como dentes afiados e tranças de cabelo, e muitos recebem como título as inscrições das lápides do cemitério. Uma das peças se chama Jane/ Mother of J. H. Lee/ Died Feb 15, 1909/ Age 85 yrs/ Gone to Fairer Land/ of Pleasure & Love/ To Join the Bright Band of Angels Above (2021), feita com terra do cemitério de True Blue e cabelos doados, queimada em forno a lenha. O título transforma a peça em memorial nominal, devolvendo identidade a uma mulher registrada apenas por uma lápide.

A técnica também carrega ancestralidade. A artista mistura a argila à mão, como faziam os ceramistas afro-americanos de Old Edgefield, na Carolina do Sul, e usa um método de acordelado enraizado nas tradições da Nigéria e de Camarões. Ela explica que, no método nigeriano, os roletes de argila são grossos, a peça permanece no chão e é a artista quem se move ao redor dela, em vez de girar a peça no torno. Em alguns vasos, embute arroz; em outros, cabelo humano e dreadlocks, criando o que ela chama de objetos funerários para homenagear a família e restaurar a terra.

O cuidado com o território se estende para fora do ateliê. Desde sua iniciação como sacerdote iorubá, Gbadebo sente uma responsabilidade espiritual ainda maior em relação a esse chão. Ela participa de mutirões de limpeza no cemitério de True Blue, que ocupa cerca de sete acres, ao lado de outros descendentes e de estudantes voluntários, recuperando lápides, retirando troncos caídos e identificando nomes. Para a artista, sua prática exige cuidar da própria terra, o que significa cuidar dos antepassados.

Do Metropolitan à Bienal de Veneza

A cerâmica de Gbadebo ganhou visibilidade ampla em 2022, na exposição Hear Me Now: The Black Potters of Old Edgefield, South Carolina, no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, que depois seguiu para o Museum of Fine Arts de Boston. A mostra reunia sobretudo obras de pessoas escravizadas, um marco inédito no museu, e colocou os vasos de Gbadebo em diálogo com os ceramistas negros do século XIX que desenvolveram seu ofício sob a escravidão. A artista considera que a exposição se tornou uma forma de ensinar às novas gerações sobre o passado e o futuro.

Em 2023, a individual Remains, na Claire Oliver Gallery, em Nova York, reuniu índigo, papel de arroz, algodão, cabelo humano e cerâmicas feitas com a terra do cemitério, exibidas ao lado de fragmentos arquitetônicos de construções erguidas pelo trabalho forçado de seus antepassados. Gbadebo foi bolsista Pew em 2022 e artista residente no The Clay Studio, na Filadélfia, e hoje é representada pela galeria Nicola Vassell, em Nova York. Suas obras integram os acervos do National Museum of African Art e do National Museum of African American History and Culture, ambos do Smithsonian, do Minneapolis Institute of Art, do South Carolina State Museum, do Museum of Fine Arts de Boston e do Newark Museum of Art, entre outros.

Na Bienal de Veneza, Gbadebo apresenta no Pavilhão Central, nos Giardini, uma instalação que reúne obras produzidas entre 2023 e 2026. Os vasos de terra de True Blue aparecem cercados por serigrafias e trabalhos em papel feitos com tintas e pigmentos preparados pela própria artista, que evocam a paisagem aquática ao redor da plantação. Em In Minor Keys, sua obra dialoga com as de outras artistas que o Arte como Assunto apresentou, como Leonilda González, Marcia Kure, Vera Tamari e Alexa Kumiko Hatanaka, todas atentas à memória guardada nos materiais.

A obra de Adebunmi Gbadebo mostra que a história da escravidão está gravada no solo, nas plantas e nos corpos, e que a arte pode reunir esses vestígios para devolver nome e presença a quem foi reduzido a item de inventário. Cada vaso feito da terra de True Blue é, ao mesmo tempo, um retorno aos antepassados e um gesto de liberdade: a possibilidade de decidir, enfim, o que nasce daquele chão.

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