Arte e arquitetura: paralelos estéticos

No Brasil do século XX, arte e arquitetura compartilharam uma urgência: imaginar novos mundos possíveis. Em um país atravessado por projetos de modernização acelerada, essas duas linguagens não apenas dialogaram, elas se fundiram, disputaram espaço, influenciaram uma à outra e, muitas vezes, tornaram-se indistintas. Essa fusão não se deu apenas no plano simbólico. Ela aconteceu nos edifícios que passaram a ser pensados como esculturas habitáveis, nas exposições que tratavam a arquitetura como narrativa, nos ambientes em que pintura, forma e estrutura conviviam como partes de uma mesma experiência.

Os princípios do modernismo internacional – volume em vez de massa, regularidade sem rigidez e ausência de ornamentos – chegaram ao Brasil em meio a um contexto de rupturas. A arquitetura histórica, marcada por colunatas, simetrias e fachadas decoradas, já não dava conta de expressar os anseios de uma nação que queria se afirmar moderna. Nesse cenário, a nova arquitetura encontrou na engenharia e nos materiais industriais, como concreto armado, vidro, aço, suas ferramentas de linguagem. A estrutura, antes oculta, passou a ser revelada. O prédio deixou de ser peso para ser leveza, linha, desenho no espaço. E essa mudança também transformou a maneira como a arte se relacionava com o espaço.

Oscar Niemeyer é figura central nesse processo. Sua arquitetura curva, fluida, monumental desafiou a rigidez do racionalismo europeu ao inserir sensualidade e lirismo no vocabulário da engenharia moderna. Em suas mãos, o concreto ganhou leveza, os vãos se abriram ao vazio, e o edifício passou a ser uma obra plástica em si. Niemeyer não projetava apenas volumes funcionais, mas gestos. Cada edifício era também um manifesto formal, político, poético e, por isso mesmo, dialogava diretamente com a arte de seu tempo.

Enquanto isso, artistas como Hélio Oiticica, Lygia Clark e Lygia Pape traziam a arte para o campo da experiência espacial. Suas obras deixavam o suporte tradicional para ocupar o ambiente, interagir com o corpo do espectador, dissolver os limites entre dentro e fora. O conceito de “obra” tornava-se ambiente, vivência, relação. E essa expansão do campo artístico não apenas acompanhava, mas tensionava o pensamento arquitetônico moderno, abrindo caminho para novas formas de pensar a construção do espaço.

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É nesse ponto que a obra de Lina Bo Bardi se impõe como síntese e transgressão. Sua arquitetura nunca se contentou com a função. Lina via os edifícios como corpos vivos, onde o tempo, a cultura e o afeto se encontravam. No Sesc Pompeia, blocos de concreto se elevam como esculturas brutas, conectadas por passarelas que são tanto percurso quanto dramaturgia urbana. No MASP, os cavaletes de vidro tornam-se dispositivos expositivos que também são afirmações ideológicas. Sua arquitetura não abriga a arte: ela é arte. E é também curadoria, mediação, gesto coletivo.

A partir dos anos 1950 e 60, a ideia de integração das artes ganha força. O modernismo brasileiro se constrói como uma linguagem totalizante, em que painéis, murais e esculturas fazem parte da arquitetura como estrutura simbólica. Athos Bulcão, por exemplo, desenha azulejos que não apenas decoram, mas organizam os edifícios, marcando ritmos e intervalos visuais. A arte se funde ao espaço e torna-se parte do cotidiano, uma arte pública, acessível e presente.

A partir dos anos 1970, porém, essa aliança é colocada em xeque. A crítica à monumentalidade, ao racionalismo tecnocrático e à homogeneização formal leva artistas e arquitetos a buscar outras formas de atuação. A arte se desloca para a rua, ocupa o espaço urbano, propõe intervenções efêmeras. A arquitetura, por sua vez, é chamada a repensar sua função social, a abrir-se ao inacabado, ao improvisado, ao precário. Surge aí uma nova maneira de pensar os paralelos entre arte e arquitetura. Espaço e tempo passam a ser materiais compartilhados por ambas as linguagens.

Ao longo de todo o século XX, a arquitetura brasileira absorveu e reinterpretou, à sua maneira, os fundamentos do modernismo internacional. Mas o fez com imaginação, senso de lugar e vontade de invenção. A arte, por sua vez, não apenas ocupou os espaços da arquitetura, ela os desafiou, os expandiu, os ressignificou. Nesse diálogo, o espaço nunca é neutro: ele é sempre construção poética, campo de disputa e possibilidade de encontro.

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