Arte Negra no Brasil: identidade, religião e os limites da categorização artística

O texto resenha sobre o livro Black Art in Brazil: Expressions of Identity (2013), de Kimberly L. Cleveland, que investiga a questão complexa e ambígua do que seria “arte negra” no Brasil. A autora questiona se essa definição deve considerar a arte feita por pessoas negras, para pessoas negras, ou que represente experiências e culturas negras no país. Ela opta pelo uso do termo “arte negra” ao invés de “arte afro-brasileira”, argumentando que este último é uma construção acadêmica influenciada por estudiosos norte-americanos e associada mais à cultura e religião do que à raça.

O estudo se concentra na análise aprofundada da obra de cinco artistas: Abdias do Nascimento, Ronaldo Rego, Eustáquio Neves, Ayrson Heráclito e Rosana Paulino. Eles representam diferentes gerações, regiões, origens étnicas e linguagens artísticas, abordando de formas diversas as questões de identidade negra e cultura afro-brasileira. Cleveland destaca que, embora dialoguem com essas questões, a maioria dos artistas rejeita ser rigidamente classificada como pertencente a uma categoria específica, seja “arte negra” ou “arte afro-brasileira”.

O livro traz à tona a tensão entre classificações identitárias e a prática artística, mas segundo a resenha, não integra plenamente uma análise mais ampla das redes sociais, históricas e institucionais que moldam a construção dessas categorias no campo da arte no Brasil. Ainda assim, a obra é relevante para pesquisadores de arte contemporânea latino-americana, especialmente aqueles interessados em raça, identidade e redes culturais.

Discussão sobre a definição e os limites do conceito de “arte negra” no Brasil

O conceito de “arte negra” no Brasil é marcado por ambiguidades e disputas de significado. A questão central é se essa definição deve se basear na autoria (arte produzida por pessoas negras), no público-alvo (arte feita para pessoas negras) ou no conteúdo (arte que representa experiências e culturas negras). Esse debate envolve aspectos históricos, raciais e culturais, atravessando tanto a produção artística quanto a sua recepção pelo público e pela crítica.

Kimberly L. Cleveland destaca que não há consenso sobre o uso do termo e que sua aplicação no contexto brasileiro é ainda mais complexa devido à fluidez das categorias raciais no país. Além disso, a classificação “arte negra” pode implicar um enquadramento que nem sempre é aceito pelos próprios artistas, gerando debates sobre quem define tais rótulos e com quais interesses.

Diferenças entre “arte negra” e “arte afro-brasileira” na perspectiva da autora

Na análise da autora, “arte afro-brasileira” é uma construção acadêmica fortemente influenciada por pesquisadores norte-americanos, associada principalmente a práticas culturais e religiosas de origem africana, como o candomblé e a umbanda. Essa definição tende a enfatizar o vínculo com a herança africana e as expressões culturais ligadas à ancestralidade, independentemente da cor ou autodeclaração racial do artista.

Por outro lado, “arte negra” é um termo mais presente no uso popular e carrega uma dimensão de identidade racial mais direta. Cleveland argumenta que, enquanto a “arte afro-brasileira” se ancora no aspecto cultural e religioso, a “arte negra” trata da negritude como elemento central, envolvendo questões de pertencimento racial, história e experiência social das populações negras no Brasil.

Relação entre identidade racial, cultura e religião nas artes visuais brasileiras

A obra analisada aponta que as artes visuais brasileiras que abordam negritude frequentemente dialogam com elementos culturais e religiosos de matriz africana. O candomblé e a umbanda, por exemplo, aparecem como referências simbólicas e estéticas em obras de diferentes artistas, independentemente de sua cor ou origem. Essas manifestações religiosas são tratadas tanto como patrimônio cultural quanto como elemento identitário.

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Essa relação entre identidade racial e religiosidade não é uniforme. Alguns artistas utilizam símbolos e narrativas das religiões afro-brasileiras para explorar memórias coletivas e histórias de resistência, enquanto outros partem de vivências pessoais ou regionais. Cleveland observa que essa interseção é uma das chaves para compreender como a arte pode expressar experiências negras no Brasil, ainda que nem todos os artistas se identifiquem estritamente com categorias religiosas ou raciais.

Análise de trajetórias e obras de cinco artistas com abordagens distintas sobre negritude e cultura afro-brasileira

O livro apresenta cinco artistas: Abdias do Nascimento, Ronaldo Rego, Eustáquio Neves, Ayrson Heráclito e Rosana Paulino. Nascimento, além de artista, foi poeta, dramaturgo e político, incorporando referências às religiões afro-brasileiras em sua produção, especialmente o candomblé e os orixás. Ronaldo Rego, artista branco do Rio de Janeiro, também trabalha com referências religiosas afro-brasileiras, especialmente a umbanda, sendo incluído em exposições de arte afro-brasileira mesmo sem pertencer racialmente a esse grupo.

Eustáquio Neves, fotógrafo mineiro, parte de um contexto rural e negro, explorando as expressões religiosas e culturais das comunidades de sua região, mas evitando a classificação “afro-brasileira”. Ayrson Heráclito, baiano de herança mista, desenvolve instalações e performances que fazem referência à culinária, história e religiosidade da Bahia, com reconhecimento mais forte em seu estado. Rosana Paulino, de São Paulo, aborda negritude e gênero em suas obras, utilizando fotografia, instalação e gravura para discutir questões históricas e sociais.

Tensão entre categorização identitária e liberdade criativa

A pesquisa de Cleveland mostra que muitos artistas que abordam temas ligados à negritude ou à cultura afro-brasileira rejeitam serem fixados em categorias como “arte negra” ou “arte afro-brasileira”. Essa resistência se deve, em parte, ao receio de que tais classificações limitem a interpretação de suas obras ou as restrinjam a um nicho específico no sistema de arte.

Ao mesmo tempo, as classificações podem facilitar a inserção em certos circuitos expositivos e festivais, mas também correm o risco de reforçar estereótipos. A tensão se manifesta quando os artistas querem dialogar com questões raciais e culturais sem ficarem presos a uma identidade única, preservando a liberdade de transitar por diferentes temas, linguagens e referências.

Crítica à ausência de uma análise mais profunda das redes e instituições que constroem e sustentam categorias artísticas no Brasil

A resenha destaca que, embora Cleveland mencione a influência de redes e instituições na circulação e recepção das obras, o livro não aprofunda a análise sociológica e histórica dessas dinâmicas. Isso inclui o papel de curadores, críticos, galerias, políticas culturais e colecionadores na construção das categorias “arte negra” e “arte afro-brasileira” no Brasil.

Uma abordagem mais abrangente permitiria entender como essas classificações são sustentadas e modificadas ao longo do tempo, assim como seu impacto no mercado e no reconhecimento dos artistas. Essa ausência é apontada como uma oportunidade perdida para contextualizar a produção individual dentro de um panorama mais amplo do sistema de arte e de suas relações com questões raciais e culturais.

Principais Termos e Conceitos

  • Arte negra (arte negra / Black art) – termo que enfatiza a negritude e identidade racial.
  • Arte afro-brasileira – conceito associado a práticas culturais e religiosas afrodescendentes, muitas vezes construído a partir de perspectivas acadêmicas estrangeiras.
  • Identidade negra – expressão de pertencimento racial e histórico através da arte.
  • Candomblé – religião de matriz africana presente na obra de alguns artistas analisados.
  • Umbanda – religião afro-brasileira que influenciou produções artísticas específicas.
  • Orixás – divindades do candomblé, presentes em referências visuais.
  • Fotografia, instalação, performance e gravura – principais linguagens artísticas presentes nas obras estudadas.
  • Classificação racial no Brasil – sistema de categorização baseado em cor e ascendência, com forte componente social e regional.
  • Redes e instituições artísticas – galerias, curadores, críticos, colecionadores e políticas culturais que influenciam a recepção e circulação das obras.
  • Gênero e negritude – intersecção abordada especialmente no trabalho de Rosana Paulino.
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