Bruna Fetter aponta que a legitimação artística hoje é fortemente influenciada pelo mercado e seus agentes – colecionadores, galerias, publicações patrocinadas, museus privados e conselhos institucionais – que direcionam narrativas e moldam as histórias da arte em construção.
O debate sobre os meios de legitimação da arte contemporânea tem se tornado cada vez mais urgente diante das transformações no mercado global. No artigo “O papel do mercado na legitimação artística e alguns reflexos para histórias da arte em construção”, publicado na revista Arte & Ensaios (2020), a pesquisadora Bruna Fetter analisa como fatores externos, especialmente o mercado e os colecionadores, estão moldando os critérios estéticos, as narrativas e até as futuras histórias da arte no Brasil e no mundo.
A autora aponta que, se antes a legitimação passava principalmente pela crítica especializada e pelas instituições acadêmicas, hoje o protagonismo se desloca para colecionadores, galerias, publicações financiadas e museus privados. Essa mudança cria um novo regime de valor, no qual a obra de arte não é apenas expressão cultural, mas também ativo financeiro e instrumento de distinção social.
No caso brasileiro, Bruna Fetter destaca a tensão entre o papel do mercado e da academia, revelando como publicações patrocinadas, conselhos de museus, programas de doação em feiras de arte e o crescimento de instituições privadas como Inhotim e Instituto Figueiredo Ferraz impactam diretamente quais artistas e obras serão lembrados e valorizados no futuro. Essa dinâmica levanta questões fundamentais: que produções estarão legitimadas em 50 ou 100 anos? Quem serão os artistas brasileiros mais reconhecidos? Quais critérios estéticos e narrativos prevalecerão?
Principais pontos abordados pela autora estão:
1. Heteronomia do campo artístico
A ideia de heteronomia (Graw, 2012) descreve como o campo artístico, historicamente considerado autônomo por seguir suas próprias regras internas, passa a ser cada vez mais condicionado por fatores externos, sobretudo econômicos. A arte não se legitima apenas por critérios estéticos definidos por pares, mas pela capacidade de inserção no mercado. Esse deslocamento reflete a lógica do capitalismo contemporâneo, em que a produção cultural é integrada às dinâmicas de financeirização, aproximando-se de outras mercadorias. Assim, mesmo que ainda haja um discurso de autonomia, a prática revela que a valoração estética está intrinsecamente atravessada por lógicas de investimento e consumo
2. Do critic-dealer system ao collector-dealer system
No modernismo, o circuito de legitimação era marcado pelo chamado critic-dealer system: críticos de arte e galeristas estabeleciam os parâmetros do valor simbólico e estético das obras. No entanto, como destaca Maria Lind (2012), hoje esse papel foi em grande parte deslocado para o collector-dealer system, em que colecionadores têm protagonismo na constituição do valor simbólico e financeiro. Isso implica uma mudança na natureza da legitimação: de uma arte que buscava status cultural e capital simbólico para uma arte tratada explicitamente como ativo financeiro. O colecionador não apenas compra, mas influencia exposições, publicações, doações e até curadorias, interferindo diretamente naquilo que será lembrado ou esquecido na história da arte. “Houve uma transposição para um collector-dealer-system […] a arte passou a ser vista como mais uma forma de investimento” (LIND, 2012; VELTHUIS, 2012).
3. Mercado x academia
Fetter recupera a fala de Ivo Mesquita (2013) para mostrar que, no Brasil, a escrita da história da arte se dá em dois polos: o mercado de arte e o colecionismo particular, e a academia. Enquanto a academia se ancora em pesquisa e reflexão de longo prazo, o mercado atua através de publicações patrocinadas, galerias e colecionadores, muitas vezes financiados por leis de incentivo fiscal. Essa dualidade gera bibliografias distintas, mas também assimetrias: a narrativa do mercado circula mais rapidamente, influenciando públicos e consolidando artistas que se tornam referência — ainda que não necessariamente por mérito estético, mas por alinhamento a interesses econômicos. Assim, a academia aparece como contraponto crítico, mas com alcance limitado diante da força difusora do mercado.
4. Publicações patrocinadas pelo mercado
As publicações de arte desempenham papel central na legitimação porque são fonte de referência para pesquisadores, críticos e colecionadores. No entanto, como destaca Fetter, grande parte delas é viabilizada por leis de incentivo fiscal e patrocínios privados, atendendo a interesses de galerias e colecionadores. Isso significa que muitas narrativas históricas são moldadas de acordo com estratégias de marketing ligadas ao valor das coleções particulares. Embora contribuam para difundir a visualidade brasileira, esses livros muitas vezes priorizam artistas e movimentos vinculados a circuitos comerciais específicos, reforçando ciclos de legitimação que deixam outras produções à margem.
- O mercado legitima narrativas através de livros financiados por leis de incentivo, ligados a interesses de galerias, colecionadores e patrocinadores.
- Fetter observa que essas publicações, mesmo que irregulares em qualidade, ajudam a difundir a visualidade brasileira e funcionam como estratégia de marketing.
5. Museus e instituições privadas
O crescimento de museus privados fundados por colecionadores — como Inhotim (Bernardo Paz), Instituto Figueiredo Ferraz, MALBA (Eduardo Constantini), Fundação Louis Vuitton e The Broad — representa uma das formas mais impactantes de legitimação. Com orçamentos muito superiores aos de museus públicos, essas instituições adquirem obras de artistas centrais e determinam, na prática, quais produções serão lembradas como “importantes” no futuro. Além disso, seus programas de exposições, catálogos e arquiteturas assinadas criam uma aura de monumentalidade que reforça sua autoridade simbólica. Como afirma Fetter, a memória institucional que essas coleções privadas constroem não é neutra, mas regida pelo gosto e pelos interesses do colecionador.
- Crescimento de museus privados criados por colecionadores (ex.: Inhotim, Instituto Figueiredo Ferraz, MALBA, Fundação Vuitton, The Broad).
- Esses espaços possuem orçamentos maiores que os museus públicos e, portanto, adquirem as obras mais significativas, influenciando o que será lembrado e legitimado no futuro.
- Citação do Inhotim: “Inhotim é a única instituição brasileira que exibe continuamente um acervo de excelência internacional de arte contemporânea”.
6. Leis de incentivo fiscal
Os colecionadores-mecenas utilizam as leis de renúncia fiscal não apenas para financiar programações culturais, mas também para consolidar suas coleções. Na prática, isso significa que recursos que seriam impostos são convertidos em manutenção de museus privados e valorização de acervos particulares. O ganho é duplo: o colecionador se beneficia como empresário (ao destinar os impostos de suas próprias empresas) e como agente cultural (ao valorizar seu patrimônio artístico). Essa intersecção entre esfera pública e privada revela como o Estado também participa indiretamente da legitimação do gosto dos colecionadores.
7. Participação em conselhos e diretorias
Outra frente de atuação legitimadora ocorre quando colecionadores assumem cadeiras em conselhos de museus públicos. Nesses cargos, eles participam de decisões sobre exposições e aquisições, o que lhes garante acesso privilegiado a informações estratégicas e a possibilidade de valorizar artistas de suas coleções. Um colecionador pode, por exemplo, emprestar obras para retrospectivas em grandes instituições ou antecipar investimentos antes que determinado artista seja alçado à consagração institucional. Esse tipo de poder cria uma relação circular entre o interesse privado e a legitimação pública.
- Colecionadores atuam em conselhos de museus públicos, influenciando programações, retrospectivas e aquisições que valorizam artistas de suas coleções.
- Exemplo: antecipar-se a valorização de artistas devido a exposições em grandes instituições.
8. Patrocínio de curadorias e cargos institucionais
O patrocínio de curadorias é um dos meios mais sofisticados de legitimação artística. Quando figuras como Patricia Phelps de Cisneros e Estrellita Brodsky financiam cargos de curadores latino-americanos em museus de prestígio como o MoMA e o MET, não apenas abrem espaço para artistas de uma região historicamente marginalizada, mas também estabelecem uma forma de curadoria mediada pelo capital privado. Isso significa que o poder de determinar quais vozes e obras entram para o cânone internacional está condicionado à capacidade de investimento dessas colecionadoras.
O impacto é profundo: curadores contratados sob esse modelo têm a missão de incorporar artistas latino-americanos às coleções e narrativas dos grandes museus, o que gera um ganho de representatividade, mas dentro de limites predefinidos pelo patrocínio. A presença de exposições como a de Lygia Clark no MoMA (2014) ou de Lygia Pape no MET Breuer (2017), realizadas por curadores ligados a essas vagas financiadas, mostra como a legitimação global de artistas brasileiros se conecta diretamente às estratégias de investimento privado.
Esse mecanismo deixa claro que inclusão e mercado não são esferas separadas, mas entrelaçadas: a expansão do cânone pode ser vista tanto como vitória simbólica quanto como resultado de disputas de poder econômico. Assim, os curadores se tornam mediadores entre o discurso acadêmico e os interesses privados, e a história da arte que se escreve a partir daí é inseparável do capital que a viabiliza.
9. Doações estratégicas em feiras e instituições
As doações em feiras como a SP-Arte, que desde 2008 promove programas de estímulo à aquisição de obras para acervos públicos, exemplificam a complexidade entre interesse coletivo e benefício privado. À primeira vista, trata-se de uma prática nobre: obras de arte passam a integrar museus como MAM-SP, MAR ou Pinacoteca, fortalecendo coleções públicas com recursos de difícil acesso. Porém, como destaca Fetter, esse processo não é neutro.
Colecionadores tendem a doar obras de artistas que já possuem em seus acervos particulares, o que significa que cada gesto de filantropia é também uma estratégia de valorização de patrimônio. Ao ver um artista reconhecido institucionalmente, a demanda por suas obras cresce, elevando automaticamente o valor das peças que o doador mantém em coleção privada. Além disso, galeristas frequentemente reduzem preços nessas negociações, interessados no prestígio de ver seus artistas legitimados em museus, o que cria um ciclo de reforço mútuo: o museu valida o artista, a galeria se beneficia da valorização e o colecionador amplia o capital simbólico e financeiro do seu acervo.
Esse mecanismo revela como a institucionalização de um artista pode estar vinculada a jogos de interesse, em que os ganhos simbólicos para o espaço público coexistem com lucros privados. A legitimação, nesse caso, não decorre apenas do mérito artístico, mas de arranjos estratégicos que unem mercado, filantropia e política cultural.
10. Influência das grandes galerias internacionais
O último mecanismo analisado por Fetter evidencia a concentração de poder em poucas galerias globais, capazes de definir tendências estéticas e artísticas em escala mundial. De acordo com pesquisa publicada no The Art Newspaper, entre 2007 e 2013 cerca de um terço das exposições individuais nos principais museus dos EUA foi dedicada a artistas representados por apenas cinco galerias: Gagosian, Pace, Marian Goodman, David Zwirner e Hauser & Wirth.
Esse dado revela que a curadoria institucional não é independente, mas frequentemente condicionada pelo apoio financeiro e logístico dessas grandes galerias. Elas financiam transportes, produções e até publicações de catálogos, garantindo que seus artistas ocupem os espaços de maior prestígio. Em contrapartida, a presença em museus reforça a legitimidade crítica e aumenta os preços de mercado, criando um circuito fechado de valorização.
Embora Fetter observe que não existam levantamentos equivalentes no Brasil, é possível inferir que a situação seja similar: um pequeno número de galerias concentra a visibilidade de artistas e determina quem será ou não reconhecido. Assim, a legitimação deixa de ser um processo difuso e plural e se torna resultado de estratégias concentradas de poder econômico, nas quais o acesso a grandes instituições depende da capacidade de mobilizar recursos e redes globais.

