Livro História da Arte – Ensaios Contemporâneos

O livro História da Arte – Ensaios Contemporâneos, organizado por Marcelo Campos, Maria Berbara, Roberto Conduru e Vera Beatriz Siqueira dentro do Programa de Pós-graduação em História da Arte da UERJ, apresenta uma coletânea de reflexões sobre os rumos da história da arte no Brasil contemporâneo. A publicação reúne textos que evidenciam a multiplicidade de abordagens, objetos e metodologias em circulação hoje, reafirmando a vitalidade da disciplina em meio a deslocamentos epistemológicos, políticos e culturais.

Dividido em seis núcleos temáticos: arte e cultura material, arte, pensamento e forma, arte e religião, arte e política, arte e sistema de arte e arte e vitalidade. O livro propõe uma reorganização dos eixos tradicionais da história da arte. Os ensaios não obedecem a uma linearidade cronológica, tampouco a uma hierarquia de estilos ou escolas, mas operam por contaminações, encontros e ressonâncias. A proposta é atravessar os limites convencionais da disciplina, incluindo práticas populares, ritualísticas e políticas como formas legítimas de produção e reflexão artística.

Os textos revelam um esforço conjunto de problematizar categorias fundantes da história da arte ocidental, como autoria, estilo, gênio, permanência e autonomia, muitas vezes sustentadas por um pensamento eurocêntrico. Através de casos específicos, os autores apontam caminhos para a construção de uma história da arte mais plural, atenta às dinâmicas locais e às múltiplas formas de existência das imagens e objetos.

Outro aspecto central do livro é a atenção à articulação entre arte e vida. Diversos textos destacam a performatividade do corpo, a experiência sensível e a memória como elementos que escapam às taxonomias habituais. As obras são lidas como dispositivos de pensamento e ação, em constante diálogo com o tempo presente, e os textos propõem aproximações entre o campo artístico e os estudos culturais, antropológicos, filosóficos e literários.

Resumos dos Ensaios

Cultura material: vento/mito
Cezar Bartholomeu
O autor propõe uma reflexão sobre a cultura material a partir de imagens que incorporam o vento como presença simbólica. Combinando fotografia, mito e deslocamento, Bartholomeu trata da imagem como vestígio e registro de forças intangíveis, afirmando sua potência poética e crítica.

Obras-arquivos: o efêmero, a memória, a transversalidade
Luiz Cláudio da Costa
Luiz Cláudio discute o estatuto da obra de arte como arquivo, abordando práticas que lidam com o efêmero, a documentação e a memória. O autor propõe o conceito de “obras-arquivos” para refletir sobre a transversalidade entre arte e registro, explorando como o gesto artístico se articula com a construção do tempo.

A constatação de Duchamp: o estatuto do objeto no limiar da imaterialidade
Rafael Cardoso
Cardoso retoma o gesto radical de Duchamp para discutir a dissolução da materialidade na arte contemporânea. O texto investiga os limites entre objeto e conceito, arte e não arte, argumentando que a obra se desloca para o campo da linguagem e do pensamento.

Fragmentos para histórias de formas
Guilherme Bueno
O ensaio reúne fragmentos analíticos sobre formas artísticas em diferentes contextos, destacando sua mutabilidade e historicidade. Bueno articula pensamento e forma como categorias indissociáveis, chamando atenção para a construção plural das narrativas da arte.

Cubos, linhas, caminhos
Roberto Conduru
Conduru parte de formas geométricas para refletir sobre estruturas espaciais na arte e suas relações com deslocamentos físicos e simbólicos. As linhas e os cubos aparecem como figuras que organizam o mundo e o pensamento, revelando caminhos possíveis para a crítica de arte.

A intricação de espaços na arte
Stefania Caliandro
A autora analisa como a arte contemporânea entrelaça diferentes dimensões espaciais: físicas, simbólicas, sociais, rompendo com a noção de espaço neutro. O texto propõe a “intricação” como uma categoria para pensar obras que operam em múltiplas camadas e relações.

Sobre as irmandades de clérigos em Portugal e na América portuguesa
André L. Tavares Pereira
O autor investiga o trânsito de modelos artísticos entre Europa e América no contexto das irmandades religiosas. O ensaio revela como práticas devocionais e arquitetônicas foram apropriadas e ressignificadas, demonstrando a circulação de imagens e formas entre as duas margens do Atlântico.

Sacrifício, mártir e imagem
Jens Baumgarten
Baumgarten discute a representação do sacrifício cristão na arte barroca, analisando como a figura do mártir articula dor, redenção e política da imagem. O texto propõe uma leitura crítica da visualidade religiosa e suas implicações estéticas e sociais.

Entre arte e ritual
Jérôme Souty
O autor examina as relações entre práticas artísticas e rituais ameríndios, defendendo que certos gestos performáticos não se enquadram nas categorias ocidentais de arte. O ensaio propõe um alargamento do campo da história da arte para incluir modos outros de produção simbólica.

Arte e sacrifício: Laocoonte, Michelangelo, Marcus Curtius
Maria Berbara
Berbara analisa diferentes representações do sacrifício – greco-romano, cristão e asteca -, propondo uma reflexão sobre a imagem como campo de negociação entre violência, heroísmo e transcendência. O ensaio conecta mitos e figuras que atravessam culturas.

PUBLICIDADE

A gravura e a religiosidade popular
Maria Eurydice de Barros Ribeiro
A autora explora a gravura A chegada da prostituta no céu, de J. Borges, como manifestação de religiosidade popular nordestina. O texto discute a força narrativa e simbólica da imagem, articulando tradição oral, fé e crítica social.

Uma leitura de gênero possível: o motivo da figura feminina nua
Ana Magalhães
Ana Magalhães propõe uma leitura crítica da representação do corpo feminino nu na história da arte, a partir de uma perspectiva de gênero. O texto evidencia as construções de poder, desejo e dominação que atravessam esse motivo visual.

Paisagem e poder
Claudia Valladão de Mattos
A autora analisa a paisagem como construção ideológica, questionando o mito da autonomia da arte tanto no Ocidente quanto no Oriente. A paisagem aparece como dispositivo que expressa relações de poder e modos de ver o mundo.

A aragem da utopia
Fernando José Pereira
Fernando José propõe o conceito de “aragem” como força sutil que movimenta a utopia na arte. O ensaio é atravessado por uma escrita poética e filosófica, que pensa o desejo de transformação como motor da criação artística.

Arte e política
Paulo Knauss
Knauss reflete sobre a arte como forma de ação e resistência política. Através de exemplos históricos e contemporâneos, o autor mostra como a arte pode intervir nos regimes de visibilidade e reconfigurar o espaço público.

Liberdade, representação e poder
Sheila Cabo Geraldo
A autora discute os vínculos entre arte, liberdade de expressão e regimes de poder. O ensaio articula questões éticas, jurídicas e estéticas, propondo uma crítica às tentativas de controle e censura da criação artística.

Poéticas conceituais e espaços expositivos
Dária Jaremtchuk
Jaremtchuk analisa experiências de arte conceitual e suas relações com os espaços de exposição. O texto investiga como o conceito de obra se desloca e se reinventa em contextos curatoriais diversos.

Localização e deslocamento da obra de arte
Elisa de Souza Martínez
Elisa discute o lugar da obra de arte em relação ao contexto expositivo, pensando o deslocamento como parte da experiência estética. O ensaio propõe uma reflexão sobre a instabilidade e mobilidade da obra na contemporaneidade.

Academia e tradição artística
Sonia Gomes Pereira
Sonia Gomes aborda a construção da tradição artística a partir do espaço acadêmico, analisando a tensão entre inovação e conservação. O texto evidencia como o cânone é formado e reformulado ao longo do tempo.

Álbum de família: coleções e museus de arte
Vera Beatriz Siqueira
A autora propõe uma leitura afetiva das coleções de arte, comparando-as a álbuns de família. O texto questiona os critérios de seleção, permanência e exclusão nos museus, revelando seu caráter ideológico.

Persistência do passado em eterno devir
Viviane Matesco
Matesco discute a presença do passado na arte contemporânea como movimento contínuo de atualização. A autora pensa o tempo como fluxo que atravessa as formas e os discursos artísticos.

Corpos invisíveis, corpos que importam
Alexandre Santos
Santos investiga a invisibilidade de certos corpos na história da arte e defende a urgência de outras representações. O texto propõe um olhar atento às políticas do corpo e às potências da presença.

Tornar-se alferes: declarações do “eu” e autoficções
Marcelo Campos
O autor propõe uma escrita autorreferente que articula arte, vida e ficção. O texto reflete sobre o lugar da subjetividade na crítica de arte e no discurso acadêmico.

A biografia, o gênio e a morte do autor
Maria de Fátima Morethy Couto
A autora revisita as ideias de gênio e autoria na história da arte, problematizando a construção biográfica dos artistas. O ensaio questiona o culto à personalidade e propõe novas formas de escrever sobre arte e artistas.

PUBLICIDADE

RELACIONADOS

CATEGORIAS

PUBLICIDADE

LEIA TAMBÉM