Lygia Pape (1927–2004) foi uma das artistas mais singulares da arte brasileira do século XX. Atuou como gravadora, escultora, cineasta, professora, designer gráfica e, acima de tudo, como criadora de experiências estéticas que atravessaram movimentos e formatos. Sua obra rompe com categorias rígidas da história da arte e aposta em uma produção que se equilibra entre o rigor estrutural e a abertura poética ao mundo sensível. A obra de Pape, ao longo de décadas, se articulou com as transformações culturais, sociais e espaciais do país, operando, assim, como uma forma de investigação estética do mundo.
Lygia Pape começou sua trajetória no ambiente modernista do Rio de Janeiro, nos anos 1950, e logo se associou ao Grupo Frente — coletivo que reunia artistas interessados na linguagem construtiva e na renovação das formas abstratas. Mais tarde, foi uma das fundadoras do movimento Neoconcreto, ao lado de Lygia Clark, Hélio Oiticica e Ferreira Gullar, entre outros. O Neoconcretismo surgiu como reação crítica ao racionalismo excessivo do Concretismo paulista, propondo uma arte viva, sensorial e participativa.
Mesmo após o fim do grupo, Pape seguiu investigando formas de expandir os limites da arte. Sua produção abarca uma multiplicidade de meios: gravura, escultura, performance, instalações, vídeo e cinema. Em todos esses campos, a artista buscou tensionar a fronteira entre espectador e obra, corpo e espaço, razão e emoção. Pape deve ser vista como uma artista que investigou profundamente os processos culturais de construção de sentido, explorando os limites da arte como linguagem e prática social. Ela criou um campo expandido em que estética, política, humor e invenção caminham juntos — revelando que a arte pode ser uma forma de tornar visível o invisível.
A poética da estrutura
Um dos principais temas da obra de Pape é a relação entre estrutura e sensibilidade. Sua série de gravuras Tecelares (1955–1959) é exemplar nesse sentido: combinando formas geométricas a texturas de madeira, cria composições que evocam tramas, tecidos e ritmos visuais, operando uma síntese entre construção racional e pulsação orgânica.
Nos anos 1960 e 70, sua produção assume um caráter ainda mais experimental e político. Trabalhos como Livro da Criação (1959–60), Livro do Tempo (1961–66) e Divisor (1968) colocam em cena a interação do público com a obra e propõem experiências sensoriais e coletivas, muitas vezes em espaços públicos.
Em Divisor, por exemplo, uma grande lona branca com furos é carregada por um grupo de pessoas, que a percorrem juntas — uma metáfora visual poderosa sobre identidade, coletividade e ruptura de fronteiras.
A artista designer
Paralelamente à sua atuação nas artes visuais, Lygia Pape também teve uma produção relevante no design gráfico. Trabalhou com projetos de livros, capas e materiais visuais para instituições como o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ). Seu trabalho gráfico mantinha o mesmo interesse pelo espaço, pela forma e pela interação entre partes — elementos que também se manifestam em sua arte. Pape via o design como extensão de seu pensamento artístico. Era uma forma de organização visual do mundo que se articulava com sua proposta estética mais ampla: criar sentido por meio da articulação entre corpo, espaço e estrutura.
Lygia Pape ocupa um lugar central na arte brasileira e latino-americana por sua capacidade de unir reflexão formal e invenção poética. Ela recusou categorias fixas, desafiou os limites do objeto artístico e apostou na arte como experiência compartilhada. Sua obra influenciou gerações de artistas e ainda hoje é reverenciada internacionalmente — como nas exposições realizadas no Reina Sofía, na Serpentine Gallery e no Met Breuer.
Ao longo de sua carreira, Pape reinventou constantemente suas estratégias, sem perder o compromisso com uma arte viva, sensível e politicamente implicada com o seu tempo. Em tempos em que o contato, o afeto e o espaço público voltam a ser disputados, sua obra se mostra mais atual do que nunca.