Notas sobre curadoria em Contra el canon, de Andrea Giunta

Andrea Giunta é uma das mais importantes historiadoras e críticas de arte da América Latina. Professora da Universidad de Buenos Aires, pesquisadora do Conicet e curadora de exposições de grande impacto internacional, sua trajetória acadêmica e curatorial é marcada pela busca de reposicionar a produção artística latino-americana dentro da história global da arte, recusando a lógica de centro e periferia. Entre suas contribuições estão estudos fundamentais sobre arte argentina, feminismos e políticas da imagem, sempre articulando análise crítica com engajamento político e cultural.

Publicado em 2020 pela Siglo XXI Editores, Contra el canon (Contra o cânone) é um livro que se inscreve como intervenção crítica frente às narrativas dominantes que organizaram a história da arte. Giunta questiona os mecanismos de legitimação que transformaram em universais experiências artísticas específicas – majoritariamente masculinas, brancas e eurocêntricas – e que relegaram às margens mulheres, artistas racializados, dissidências sexuais e produções vindas do Sul global. O cânone, para ela, não é uma seleção neutra de obras exemplares, mas um dispositivo de poder sustentado por instituições, discursos críticos e políticas culturais.

A proposta central de Contra el canon não é apenas denunciar exclusões, mas propor um método de leitura atento às fissuras da história, capaz de abrir espaço para narrativas múltiplas e instáveis. Giunta percorre temas como a crítica ao universalismo moderno, a desigualdade de gênero e a emergência dos feminismos, a colonialidade que estrutura o campo artístico e o papel das instituições e da curadoria como arenas de disputa. Ao fazê-lo, convida o leitor a repensar os fundamentos da história da arte e a reconhecer que ela só pode ser escrita em plural, como um campo vivo e em constante revisão.

Curadoria, por Andrea Giunta

Andrea Giunta trata a curadoria em Contra el canon não apenas como um ofício técnico, mas como um campo de disputa política e epistemológica. Ao longo do livro, ela insiste que é por meio das exposições e dos discursos curatoriais que o cânone é constantemente reforçado ou, ao contrário, colocado em xeque. A curadoria, portanto, é um dispositivo de poder que pode tanto manter exclusões quanto abrir espaço para narrativas diversas.

Giunta mostra que, historicamente, muitas curadorias reiteraram a centralidade eurocêntrica e masculina da história da arte. Os recortes privilegiaram artistas homens, brancos, europeus ou norte-americanos, legitimando uma visão universalista que se apresentou como natural. Mas ela também evidencia que, desde os anos 1990, a prática curatorial passou a ser um território fértil para revisões críticas, seja por meio de exposições feministas, decoloniais ou revisionistas que buscam dar visibilidade a artistas e produções marginalizadas.

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Um exemplo que a autora mobiliza é a exposição Radical Women: Latin American Art, 1960-1985, da qual foi cocuradora. Para Giunta, essa mostra materializa o potencial da curadoria como contra-história, uma forma de inscrever na memória coletiva obras e trajetórias de artistas que haviam sido sistematicamente apagadas. A curadoria, nesse caso, não apenas seleciona obras, mas propõe novas genealogias e reconfigura a percepção da produção artística de uma época.

Ela também alerta, porém, para o risco de que essas iniciativas críticas sejam absorvidas pelas instituições como exceções ou modismos, sem alterar profundamente suas estruturas. Por isso, insiste que a curadoria crítica deve ser contínua, desconfiando das “inclusões pontuais” e trabalhando para transformar os parâmetros que organizam coleções, acervos e discursos.

Em síntese, para Giunta a curadoria é um ato político: define quem é visto e quem permanece invisível, quem entra no museu e quem fica de fora, quais narrativas são cristalizadas e quais são relegadas ao esquecimento. Contra o cânone, a curadoria deve se afirmar como prática de abertura, revisando narrativas hegemônicas e ampliando o horizonte da história da arte para incluir experiências feministas, dissidentes, locais e decoloniais.

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