“O ato de criação” de Gilles Deleuze

No texto “O ato de criação”, Gilles Deleuze parte de uma distinção simples: criar não é comunicar. Isso significa que, para ele, a criação não está ligada a transmitir informações, dados ou opiniões. Criar é fazer existir algo que ainda não existia. É produzir o novo, e não reproduzir o que já está disponível.

A criação, nesse sentido, pode acontecer em diferentes campos: na arte, na ciência, na filosofia. Cada um desses campos cria à sua maneira. Mas todos têm algo em comum: só criam quando entram em confronto com um problema. Deleuze diz que a criação começa quando há um problema verdadeiro. O problema, para ele, é aquilo que obriga a pensar. Pensar é buscar uma saída para algo que ainda não tem resposta, evitando repetir ideias prontas ou responder com fórmulas.

Por isso, o ato de criação está sempre ligado a uma urgência. Essa criação envolve não ser concebida por meio da distração ou passatempo. Cria-se porque algo incomoda, porque algo pede forma, porque algo ainda não foi dito ou mostrado.

A criação exige tempo e risco

Outro ponto central no pensamento de Deleuze é que criar exige tempo. O tempo da criação é diferente do tempo da produção. Não se trata de cumprir prazos ou atender demandas, mas de sustentar um processo até que algo aconteça. E, mesmo assim, esse acontecimento nunca é garantido.

Criar também envolve risco. Não há garantias de que algo criado será compreendido, aceito ou valorizado. Mas, para Deleuze, isso não importa. A criação se justifica, por si só, pela necessidade de fazê-la acontecer.

Arte, filosofia e ciência criam de formas diferentes

Deleuze mostra campos criativos como distintos entre si. Cada campo tem seus próprios critérios e modos de operar, mas todos compartilham o desafio de criar a partir do vazio.

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  • A arte cria afetos e perceptos. Ela produz experiências no campo do sensível.
  • A ciência cria funções. Ela constrói modelos e sistemas que descrevem ou explicam certos aspectos do mundo.
  • A filosofia cria conceitos. Ela inventa ferramentas para pensar problemas que ainda não têm forma definida.

O artista como alguém que resiste

Para Deleuze, o ato de criação está ligado a um gesto de resistência. Criar é resistir ao que parece natural, óbvio ou imposto. É recusar a repetição do mesmo. É insistir em dizer algo que ainda não tem lugar, mesmo quando isso parece inútil.

Esse gesto de resistência pode ser silencioso ou ruidoso, individual ou coletivo, mas sempre tem a ver com afirmar a existência de algo novo diante de uma estrutura que tende a apagar ou neutralizar esse novo.

A criação na arte como produção de perceptos e afetos

O ato de criação na arte não visa representar o mundo de forma fiel. Também não se reduz a expressar emoções pessoais. O artista, segundo Deleuze, lida com blocos de sensações. Ele cria perceptos (formas de perceber que não dependem de um sujeito) e afetos (intensidades que não se limitam a sentimentos).

Uma obra de arte pode produzir uma sensação nova, uma percepção diferente, um modo de estar no mundo que não existia antes. E isso é criação.

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