O Pavilhão da Bélgica na 59ª Bienal de Veneza, em 2022, apresentou The Nature of the Game, de Francis Alÿs, com curadoria de Hilde Teerlinck. A mostra reuniu filmes da série Children’s Games, que registra crianças brincando em espaços públicos pelo mundo desde 1999, e pequenas pinturas feitas em viagens.
The Nature of the Game (A natureza do jogo) foi a representação oficial da Bélgica na 59ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, em cartaz de 23 de abril a 27 de novembro de 2022, na edição The Milk of Dreams, com curadoria geral de Cecilia Alemani. A exposição reuniu uma seleção de filmes da série Children’s Games (Jogos de crianças), quase todos produções inéditas, e um conjunto de pequenas pinturas feitas pelo artista ao longo de suas viagens. A Bélgica alterna a organização do pavilhão entre suas comunidades linguísticas, e em 2022 a responsabilidade coube à Comunidade Flamenga, por meio do Departamento de Cultura, Juventude e Mídia do governo flamengo. A seleção foi feita em duas etapas: um júri presidido por Dirk De Wit convidou seis curadores a apresentar projetos e, em 12 de junho de 2020, escolheu a proposta de Hilde Teerlinck com Francis Alÿs. A participação estava prevista para 2021 e foi adiada para 2022, com toda a Bienal, por causa da pandemia. O pavilhão belga, construído em 1907, foi o primeiro pavilhão estrangeiro dos Giardini, e a escolha de Alÿs colocou nele um dos artistas belgas de maior projeção internacional, que vive no México desde os anos 1980. O texto de parede fotografado pelo Arte como Assunto na visita ao pavilhão, em 2022, informava em inglês, italiano e holandês que todos os vídeos da série são de domínio público e podem ser vistos e baixados gratuitamente no site do artista.
O pavilhão belga manteve em 2022 a segunda edição do Young Curators Programme, iniciativa criada em 2019 para dar experiência a curadores emergentes baseados na Bélgica. O programa foi organizado com os Estudos Curatoriais da KASK & Conservatorium, em Gante, com a Fédération Wallonie-Bruxelles, o Bureau International de la Jeunesse, a Académie Royale des Beaux-Arts de Bruxelles e a cidade de Bruxelas. Seis bolsistas participaram do desenvolvimento do projeto em Veneza, inclusive da mediação diária no pavilhão, e publicaram pesquisas no site oficial. Uma das atividades foi o workshop Une chasse aux rumeurs, realizado de 29 de agosto a 3 de setembro de 2022, que partiu dos vídeos de Alÿs para pensar a cidade como fábrica de rumores e sons, o próprio pavilhão como espaço acústico e as relações entre presença, ausência e imaginação na obra do artista. A exposição foi acompanhada de um catálogo publicado pela editora DCV Books.
Como era a instalação no pavilhão belga?

A exposição se organizava em dois núcleos. No primeiro, os filmes eram projetados em grandes telas distribuídas pelas salas, formando um labirinto que convidava o visitante a circular como se estivesse no meio de um playground global, ouvindo ao mesmo tempo os sons de brincadeiras filmadas em diferentes continentes. Alguns sons ocupavam o espaço de maneira marcante, como o zumbido de um enxame de mosquitos que atrai a atenção das crianças em um dos filmes rodados em Tabacongo, na República Democrática do Congo. No segundo núcleo, uma série de pequenas pinturas, feitas entre 1994 e 2021, acompanhava os vídeos e oferecia o contexto em que alguns deles foram realizados, de Cabul a Ciudad Juárez e de Jerusalém a Xangai. Entre elas estavam cenas de crianças empinando pipas sob helicópteros de guerra em Bamiyan, no Afeganistão, uma fila de mães com filhos e sacos nas costas caminhando no deserto de Mosul, no Iraque, e uma rua vazia de Coyoacán, na Cidade do México, com dois meninos de máscara durante a pandemia, pintada em junho de 2020. As pinturas, que Alÿs costuma fazer à noite no ateliê, têm formatos pequenos, paleta reduzida e formas simples, e trazem com frequência os contextos políticos e sociais que os vídeos deixam implícitos.
O que é a série Children’s Games?
Children’s Games é a série mais longa da trajetória de Francis Alÿs. Desde 1999, durante suas viagens, o artista filma crianças brincando em espaços públicos, sem interferir nos jogos, revelando suas regras ocultas, a interação engenhosa com o ambiente e a cumplicidade entre os participantes. A série começou por acaso com Children’s Game #1: Caracoles (Cidade do México, 1999), em que um menino chuta uma garrafa ladeira acima, deixa que ela role de volta e a chuta de novo, repetidamente. Desde então, a série cresceu continuamente e passou a ocupar um lugar central na obra do artista, com filmes rodados no México, no Marrocos, na França, na Bélgica, no Afeganistão, na Jordânia, na Venezuela, no Nepal, no Iraque, em Hong Kong e na República Democrática do Congo, entre outros lugares. Os vídeos são curtos, geralmente entre três e nove minutos, numerados e identificados pelo nome do jogo, pela cidade e pelo ano. Alÿs os disponibiliza gratuitamente em domínio público, sob licença Creative Commons, para que possam ser vistos e baixados por qualquer pessoa. Segundo o artista, filmar crianças no espaço público é uma forma de entrar em contato com um lugar e compreender seus códigos socioculturais, e por isso a primeira fase de muitos de seus projetos tem caráter documental e se baseia na observação.
Quais filmes estavam no pavilhão?
Para Veneza, Alÿs apresentou cerca de uma dúzia de filmes novos, rodados entre 2017 e 2022, ao lado de alguns trabalhos mais antigos da série. Os novos vídeos foram feitos na República Democrática do Congo, na Bélgica, em Hong Kong, no México, na Suíça, no Canadá e no Iraque, e cada um resultou de um convite ou de um lugar aonde os acasos da vida levaram o artista. A série congolesa, rodada em 2021, inclui Children’s Game #27: Rubi, #28: Nzango, #26: Kisolo e #30: Imbu, filmados em Tabacongo, e #29: La roue, em Lubumbashi, em que um menino empurra um pneu de caminhão até o alto de um monte de rejeitos de uma mina de cobalto, entra nele e desce a encosta em alta velocidade, repetindo a brincadeira com os amigos. Os filmes de Hong Kong, de 2020, como #22: Jump Rope, #23: Step on a Crack e #24: Pandemic Games, mostram a cidade durante a pandemia por meio das brincadeiras. Da Bélgica veio #31: Slakken (Pajottenland, 2021), uma corrida de caracóis, e da Suíça, #33: Schneespiele (Engelberg, 2022), com jogos na neve. O ponto de partida do projeto foi #19: Haram Football (Mosul, 2017), em que crianças jogam futebol com uma bola imaginária em uma zona de guerra, numa cidade em que o jogo havia sido proibido pelo Estado Islâmico. Vários filmes foram feitos em colaboração com Julien Devaux, Félix Blume e Rafael Ortega.
Por que brincar? A ideia por trás de The Nature of the Game
Para Alÿs, brincar é algo natural, que descobrimos e aprendemos de forma instintiva na infância e que, como comer e dormir, constitui uma necessidade humana essencial. A brincadeira infantil é entendida como uma relação criativa com o mundo em que as crianças vivem, com uma dimensão sociopolítica. Diante de uma interação social cada vez mais virtual, o artista quer registrar esses jogos antes que desapareçam. O curador mexicano Cuauhtémoc Medina, parceiro de longa data de Alÿs, descreve a série como uma espécie de arquivo antropológico de uma experiência compartilhada que está sendo apagada pela erosão das comunidades urbanas, pelo domínio dos carros nas ruas, pela dependência das crianças em relação ao entretenimento eletrônico e pelas preocupações com sua segurança. Alÿs observa que muitos jogos têm caráter universal. O exemplo que ele dá é a amarelinha: com infinitas variantes, sua mecânica se repete em diferentes culturas, partindo da terra, atravessando o inferno até o céu e voltando à terra, renascido, o que faz dela, para o artista, um jogo de redenção. Para Hilde Teerlinck, quando as crianças brincam estão inteiramente no jogo, neutralizam o espaço externo mesmo em situações de conflito e mostram uma capacidade de criar e de se adaptar que a sociedade às vezes perde. O artista resume sua posição em uma frase: os adultos deveriam permanecer fiéis às crianças que foram.
Bruegel e os jogos de crianças
Uma referência declarada da exposição é a pintura Jogos de crianças (1560), de Pieter Bruegel, o Velho, conservada no Kunsthistorisches Museum de Viena, que causou forte impressão em Alÿs quando ele a viu pela primeira vez, ainda criança. Assim como Bruegel quis reunir o maior número possível de brincadeiras em uma única tela, Alÿs transforma seus Children’s Games em um inventário de jogos que atravessa países e décadas. Vários deles aparecem tanto na pintura flamenga do século XVI quanto nos vídeos: as meninas que jogam com ossinhos na borda do quadro reaparecem nas meninas nepalesas de #18: Knucklebones (Katmandu, 2017), os meninos que fazem rodas correrem com uma vara lembram #7: Stick and Wheels (Bamiyan, 2010), e o pula-carniça do centro da tela se repete nas crianças iraquianas de #20: Leapfrog (Nerkzlia, 2018). O material do pavilhão lembra ainda que a pintura de Bruegel foi associada a um poema flamengo anônimo publicado em Antuérpia, em 1530, por Jan van Doesborch, em que toda a humanidade é comparada a crianças absortas em suas brincadeiras. Alÿs, nascido em Antuérpia, retoma assim uma tradição da arte flamenga e a desloca para os espaços públicos do mundo contemporâneo.
Brincar em meio ao conflito
A ideia de que os jogos infantis às vezes parecem não ter regras nem limites fascina Alÿs, especialmente quando colocada em paralelo com situações de conflito. O artista fala de sua luta interior para representar o irrepresentável e acredita que o absurdo da operação artística pode introduzir alguma medida de sentido em uma situação que já não faz sentido algum. Da mesma forma, as brincadeiras que continuam em qualquer circunstância, mesmo efêmeras e com sentido apenas para quem joga, criam uma estrutura universal. Muitos filmes foram rodados em lugares marcados pela guerra ou pela desigualdade: um campo de refugiados no Iraque, as ruínas de Mosul, o Afeganistão, os arredores de minas de cobalto no Congo, onde o trabalho infantil é um problema conhecido. Entre outubro e novembro de 2016, Alÿs acompanhou o exército curdo como artista nos arredores de Mosul, experiência que deu origem a Haram Football. Os vídeos mantêm o contexto no enquadramento e evitam o tom de denúncia, funcionando como episódios sem começo nem fim definidos. A presença de filmes rodados na República Democrática do Congo, antiga colônia belga, no pavilhão nacional da Bélgica foi lida por parte da crítica como uma forma sutil de evocar o legado colonial do país.
Quem é Francis Alÿs?
Francis Alÿs nasceu em 22 de agosto de 1959, em Antuérpia, na Bélgica, e vive e trabalha na Cidade do México. Estudou arquitetura no Institut Supérieur d’Architecture Saint-Luc, em Tournai, entre 1978 e 1983, e urbanismo no Istituto Universitario di Architettura di Venezia (IUAV), entre 1983 e 1986, com uma tese sobre a presença de animais nas cidades europeias medievais e renascentistas. Em 1986, mudou-se para a Cidade do México para trabalhar com organizações não governamentais em projetos de reconstrução após o terremoto de 1985. O contato com os problemas urbanos e sociais da cidade o afastou da arquitetura, e por volta de 1990 ele passou a se dedicar inteiramente às artes visuais, com sua primeira individual naquele ano. Sua obra reúne pintura, desenho, vídeo, animação, performance e fotografia, e aborda questões etnográficas e geopolíticas a partir da observação da vida cotidiana. O caminhar é um dos fundamentos de sua prática, entendido pelo artista como forma de resistência e como método para revelar histórias. Alÿs é representado pelas galerias David Zwirner, Peter Kilchmann e Jan Mot.
Obras e trajetória de Francis Alÿs
Entre as obras mais conhecidas de Alÿs está Paradox of Praxis 1 (Sometimes Making Something Leads to Nothing) (1997), em que empurrou um grande bloco de gelo pelas ruas da Cidade do México durante as nove horas que ele levou para derreter. Em The Loop (1997), viajou de Tijuana a San Diego sem cruzar a fronteira entre México e Estados Unidos, dando a volta ao mundo. Em When Faith Moves Mountains (2002), reuniu cerca de 500 voluntários para deslocar alguns centímetros uma duna nos arredores de Lima, no Peru. Em The Green Line (2004), caminhou por Jerusalém com uma lata de tinta verde furada, traçando a linha do armistício de 1948. A relação com a Bienal de Veneza é antiga: convidado para a edição de 2001, Alÿs enviou em seu lugar um pavão, que circulou pelos espaços da exposição como seu “embaixador”, em uma ação registrada em vídeo. Sua grande panorâmica A Story of Deception foi apresentada na Tate Modern e no MoMA em 2010 e 2011, e ele participou da dOCUMENTA (13), em 2012. Depois de Veneza, The Nature of the Game foi readaptada no WIELS, em Bruxelas, de 7 de setembro de 2023 a 7 de janeiro de 2024, com curadoria de Dirk Snauwaert e Hilde Teerlinck. Em 2023, Alÿs recebeu o Prêmio Wolfgang Hahn, do Museu Ludwig de Colônia, que resultou na exposição Kids Takeover, e a série Children’s Games seguiu crescendo, chegando ao filme #50: Schattenfangen, rodado em Colônia em 2025.
Quem é Hilde Teerlinck?
Hilde Teerlinck nasceu na Bélgica, em 1966, e vive e trabalha em Barcelona. É diretora-geral da Fundação Han Nefkens, que apoia jovens videoartistas de todo o mundo com bolsas de produção, sempre em colaboração com museus e centros de arte internacionais. Dirigiu o FRAC Nord–Pas-de-Calais, em Dunkerque, o CRAC Alsace, em Altkirch, e o Centre d’art contemporain de Perpignan, na França, e coordenou a programação artística do Pavilhão Mies van der Rohe, em Barcelona. Foi curadora de diversas exposições e bienais internacionais, entre elas a contribuição do Palais de Tokyo à Bienal de Lyon de 2015, a Trienal de Beaufort, no litoral belga, em 2015, e a Trienal de Kortrijk, em 2018 e 2021. Para o pavilhão belga, Teerlinck destacou que os filmes de Alÿs registram, de forma etnográfica, tanto a força da tradição cultural quanto a liberdade e a autonomia das crianças, mesmo nas situações mais conflituosas.
Pavilhão da Bélgica – Francis Alÿs: The Nature of the Game (A natureza do jogo)
59ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, The Milk of Dreams
Artista: Francis Alÿs
Curadoria: Hilde Teerlinck
Organização: Comunidade Flamenga da Bélgica (Governo Flamengo)
Colaboradores dos filmes: Julien Devaux, Félix Blume e Rafael Ortega, entre outros
Catálogo: DCV Books
Curadoria geral da Bienal: Cecilia Alemani
Local: Pavilhão da Bélgica, Giardini della Biennale, Castello, Veneza
Período: 23 de abril a 27 de novembro de 2022
Os vídeos da série Children’s Games estão disponíveis gratuitamente, em domínio público, no site do artista: francisalys.com/category/childrens-games
Perguntas frequentes
Quem representou a Bélgica na Bienal de Veneza de 2022?
O artista Francis Alÿs, nascido em Antuérpia em 1959 e radicado na Cidade do México, representou a Bélgica com a exposição The Nature of the Game. A curadoria foi de Hilde Teerlinck, e a organização ficou a cargo da Comunidade Flamenga.
O que é a série Children’s Games, de Francis Alÿs?
É uma série de vídeos curtos, iniciada em 1999, em que o artista filma crianças brincando em espaços públicos de vários países. Os filmes estão disponíveis gratuitamente em domínio público no site de Alÿs.
Quais filmes foram apresentados no Pavilhão da Bélgica?
O pavilhão reuniu cerca de uma dúzia de filmes novos, rodados entre 2017 e 2022 na República Democrática do Congo, em Hong Kong, na Bélgica, no México, na Suíça, no Canadá e no Iraque, ao lado de trabalhos anteriores como Children’s Game #1: Caracoles (1999).
Qual é a relação de The Nature of the Game com Bruegel?
A exposição dialoga com a pintura Jogos de crianças (1560), de Pieter Bruegel, o Velho, que marcou Alÿs na infância. Vários jogos pintados por Bruegel reaparecem nos vídeos filmados pelo artista em diferentes países.
Onde a exposição foi apresentada depois de Veneza?
The Nature of the Game foi readaptada no WIELS, em Bruxelas, de 7 de setembro de 2023 a 7 de janeiro de 2024, com curadoria de Dirk Snauwaert e Hilde Teerlinck.
