O Pavilhão da Venezuela na 59ª Bienal de Veneza, em 2022, apresentou Tierra, País, Casa, Cuerpo, coletiva com curadoria de Zacarías García. A mostra reuniu a pintora Palmira Correa, a dupla Mila Quast e César Vázquez e o fotógrafo Jorge Recio para pensar o corpo como terra, país, casa e microcosmo.
Tierra, País, Casa, Cuerpo (Terra, País, Casa, Corpo) foi a representação oficial da República Bolivariana da Venezuela na 59ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, em cartaz de 23 de abril a 27 de novembro de 2022, na edição The Milk of Dreams, com curadoria geral de Cecilia Alemani. A exposição teve curadoria de Zacarías García e comissariado de Paola Claudia Posani Urdaneta, e ocupou o pavilhão venezuelano nos Giardini. A coletiva reuniu três conjuntos de obras: La casa de Palmira, da pintora autodidata Palmira Correa, apresentada como artista convidada; a videoinstalação Dislexia, de Mila Quast e César Vázquez, ligada à experiência da pandemia de covid-19; e uma série de fotografias de Jorge Recio feitas durante os acontecimentos de abril de 2002 em Caracas. O fio condutor era a ideia de que um país pode ser pensado como um corpo, capaz de atravessar dificuldades por meio da adaptação física e mental e da resiliência, e de que a arte funciona como uma disciplina que orienta a vida cotidiana. As fotografias dos textos de parede que acompanham este conteúdo foram feitas pelo Arte como Assunto durante a visita ao pavilhão, em 2022.
A presença da Venezuela na Bienal de Arte foi irregular nas últimas décadas, em razão da instabilidade política e econômica do país. Em 2019, o pavilhão não abriu as portas durante os dias de pré-abertura, em meio à crise política daquele ano. A partir de 2022, com Tierra, País, Casa, Cuerpo, a participação se tornou mais regular. Em 2024, o país apresentou uma individual de Juvenal Ravelo, artista ligado à arte cinética e sociólogo da arte formado na Sorbonne, com obras sobre ilusões ópticas criadas a partir de luz, cor e forma. Em 2026, o pavilhão de Carlo Scarpa permaneceu fechado durante a Bienal, com o aviso de que voltaria a funcionar em breve. Nesse percurso, a edição de 2022 marcou a retomada do pavilhão como espaço de exposição, com uma coletiva que combinou pintura autodidata, videoinstalação e fotografia documental.
O pavilhão venezuelano de Carlo Scarpa
O edifício que recebeu a exposição é uma das obras mais importantes da arquitetura moderna nos Giardini. O Pavilhão da Venezuela foi projetado pelo arquiteto veneziano Carlo Scarpa, por iniciativa de Graziano Gasparini, arquiteto italiano radicado na Venezuela, aluno e admirador de Scarpa. O anteprojeto foi entregue em janeiro de 1954, com a previsão de que a obra estivesse pronta em maio daquele ano para a abertura da 27ª Bienal, mas o pavilhão só foi concluído em junho de 1956. Foi o terceiro projeto de Scarpa nos Giardini, depois de intervenções no Pavilhão Central e no Pavilhão do Livro, e se destaca pela austeridade deliberada, com concreto aparente e uma forma geométrica marcante. O arquiteto trabalhou nele ao mesmo tempo em que ampliava a Gipsoteca Canoviana, em Possagno, com uma abordagem experimental semelhante. O pavilhão fica entre o da Rússia, de Aleksei Shchusev (1914), e o da Suíça, de Bruno Giacometti (1952). Pesquisadores e arquitetos têm chamado atenção para seu estado de conservação: poucos meses depois da inauguração, em novembro de 1956, o edifício já teve a cobertura de chumbo retirada, e nas últimas edições o pavilhão permaneceu fechado em diferentes ocasiões.
O que significa Tierra, País, Casa, Cuerpo?
O texto curatorial propõe compreender o corpo como uma presença que atravessa quatro níveis, que dão nome à exposição. No primeiro, a terra, o corpo aparece como metáfora e como vida, a partir da dimensão cósmica e ecológica do planeta, que faz a mediação entre o ser humano e um macrocosmo sempre desconhecido. No segundo, o país, o corpo é entendido como corpo social em sua ação política, aquele espaço-tempo da geografia humana em que a pessoa, a comunidade, a consciência histórica e os valores da independência e da autodeterminação são postos em disputa no debate das ideias e dos projetos de sociedade. No terceiro, a casa, o corpo se torna uma coisa só com o lugar onde se vive, projeção do próprio ser que, como refúgio e esfera da vida mais íntima, reproduz as funções biológicas e os comportamentos delicados da psique. No quarto, o corpo é visto como microcosmo, ator da vida, às vezes carregando um saldo de feridas que o ser humano saberá redimir com sabedoria. A exposição articula esses níveis por meio das três propostas artísticas, que tratam da forma como as transformações sociais afetam esse corpo-país e da capacidade de resistir às perdas de valores, de memória e de autonomia.
La casa de Palmira: a pintura de Palmira Correa
O núcleo de Palmira Correa, La casa de Palmira, ocupava um ambiente de paredes amarelas e corresponde ao nível da casa na proposta curatorial. A mostra reuniu pinturas em que a artista exalta a Venezuela em suas figuras históricas, em sua natureza e na presença do povo, como na paisagem de Caracas apresentada no pavilhão. O texto de parede destaca o frescor e a graça de suas imagens, capazes de transmitir otimismo e vitalidade, e afirma que a pintora consegue interpretar o país em sua dimensão histórica e política e também na vida simples e cheia de sentido das pessoas em seu cotidiano. Para a curadoria, a presença de Palmira Correa na Bienal representa o reconhecimento de uma criação que nasce do imaginário popular, dimensão em que o ser e a identidade se manifestam plenamente, naquilo que o texto chama de “a beleza necessária”. O núcleo era apresentado com uma citação do poeta e humorista venezuelano Aquiles Nazoa (1920-1976), para quem, entre todas as coisas inventadas pelo ser humano, nenhuma o reflete de modo tão completo quanto a casa, réplica quase perfeita do próprio equipamento vital. A frase liga a pintura de Palmira ao eixo da exposição, em que a casa aparece como extensão do corpo e da vida interior.
Quem é Palmira Correa?
Palmira Correa nasceu em 1948, em Cumaná, capital do estado de Sucre, no leste da Venezuela, e é considerada uma importante artista autodidata do país. Cresceu nos anos 1960 e foi influenciada pela cultura artística daquela década. A partir dos anos 1970, assumiu a vocação de pintora e passou a se dedicar à criação artística enquanto enfrentava dificuldades motoras progressivas. Segundo o texto da exposição, a pintura se tornou para ela refúgio, redenção e razão de viver, e foi a partir desse momento que desenvolveu a obra em que celebra o país, sua história, sua paisagem e sua gente. Sua produção se aproxima da tradição da arte popular e autodidata, com cores vibrantes e cenas que unem personagens históricos, natureza e vida cotidiana. A curadoria apresenta sua trajetória como sinal da capacidade de superar limitações físicas por meio da criação, e sua participação em Veneza levou ao circuito internacional uma artista cuja obra estava ligada sobretudo ao contexto venezuelano.
Dislexia: a videoinstalação de Mila Quast e César Vázquez
O segundo núcleo do pavilhão foi a videoinstalação Dislexia, criada em dupla por Mila Quast e César Vázquez. A obra é uma proposta ligada à pandemia de covid-19 e às transformações que ela provocou nos corpos, nas rotinas e na forma de habitar o mundo. Dentro da estrutura curatorial, o trabalho se relaciona aos níveis da terra e do corpo como microcosmo, ao tratar da vulnerabilidade física e da relação entre o ser humano e um ambiente que se tornou ameaçador durante a crise sanitária. O título remete a uma dificuldade de leitura e de organização da linguagem, o que pode ser entendido como imagem da desorientação coletiva vivida naquele período. As informações públicas sobre a obra e sobre a trajetória dos artistas são escassas, e o material oficial do pavilhão apresenta o trabalho principalmente por sua relação com a pandemia.
Jorge Recio e as fotografias de abril de 2002
O terceiro núcleo reuniu fotografias de Jorge Recio feitas durante os acontecimentos de abril de 2002 em Caracas. Em 11 de abril daquele ano, uma marcha da oposição em direção ao Palácio de Miraflores terminou em confrontos e tiroteios nas imediações da avenida Baralt e da passarela conhecida como Puente Llaguno, com cerca de 19 mortos e dezenas de feridos. Os episódios levaram ao golpe de Estado que afastou o então presidente Hugo Chávez do poder por pouco menos de dois dias, até seu retorno em 13 e 14 de abril. Jorge Recio trabalhava como assistente do fotógrafo independente Nelson Carrillo e foi um dos profissionais da imprensa atingidos por disparos naquele dia. Segundo organizações de defesa da liberdade de imprensa, a bala atingiu sua coluna vertebral e o deixou paraplégico. No mesmo dia, o repórter fotográfico Jorge Tortoza, do Diario 2001, morreu baleado enquanto cobria os protestos. O pavilhão apresentou as últimas imagens que Recio registrou antes de ser ferido, e, na estrutura da exposição, a série corresponde ao nível do país, o corpo social em sua ação política e na disputa pela memória histórica. Os acontecimentos de abril de 2002 continuam sendo objeto de versões divergentes na Venezuela, e as fotografias do período tiveram papel importante nesse debate.
Pavilhão da Venezuela – Tierra, País, Casa, Cuerpo (Terra, País, Casa, Corpo)
59ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, The Milk of Dreams
Artistas: Palmira Correa (artista convidada), Mila Quast, César Vázquez e Jorge Recio
Obras: La casa de Palmira, de Palmira Correa; Dislexia, videoinstalação de Mila Quast e César Vázquez; fotografias de Jorge Recio sobre abril de 2002
Curadoria: Zacarías García
Comissária: Paola Claudia Posani Urdaneta
Curadoria geral da Bienal: Cecilia Alemani
Local: Pavilhão da Venezuela, Giardini della Biennale, Castello, Veneza
Período: 23 de abril a 27 de novembro de 2022

