O Pavilhão dos Estados Unidos na 59ª Bienal de Veneza, em 2022, apresentou Sovereignty, de Simone Leigh, primeira mulher negra a representar o país. Com curadoria de Eva Respini, a mostra reuniu bronzes e cerâmicas sobre autodeterminação e histórias da diáspora africana, e a artista recebeu o Leão de Ouro da exposição central.
Simone Leigh: Sovereignty foi a representação oficial dos Estados Unidos na 59ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, em cartaz de 23 de abril a 27 de novembro de 2022, na edição The Milk of Dreams, com curadoria geral de Cecilia Alemani. A mostra foi comissionada pelo Institute of Contemporary Art/Boston (ICA), em parceria com o Bureau of Educational and Cultural Affairs do Departamento de Estado norte-americano, e produzida com a colaboração da Peggy Guggenheim Collection, de Veneza, e da Solomon R. Guggenheim Foundation, de Nova York. Jill Medvedow, diretora do ICA, e Eva Respini, curadora-chefe do museu, assinaram como cocomissárias, e Respini respondeu também pela curadoria. A participação teve peso histórico: aos 54 anos, Simone Leigh tornou-se a primeira mulher negra a representar os Estados Unidos na Exposição Internacional de Arte da Bienal. Todas as obras foram criadas especialmente para o pavilhão e datam de 2022. O percurso começava no pátio externo, com a transformação da fachada e uma escultura monumental, e seguia por cinco galerias internas organizadas como uma sequência de encontros com figuras femininas em bronze, cerâmica e ráfia. A exposição se estendeu ainda para um encontro internacional de pensadoras negras em outubro e para um programa educativo com estudantes nos Estados Unidos e professores na Itália. As fotografias que acompanham este texto foram feitas pelo Arte como Assunto durante a visita ao pavilhão, em 2022.
A cada edição, curadores de museus de todo o país apresentam propostas para o pavilhão, que são avaliadas pelo Federal Advisory Committee on International Exhibitions (FACIE), comitê ligado ao National Endowment for the Arts e formado por curadores, diretores de museu e artistas. O comitê envia suas recomendações ao Departamento de Estado, que decide a representação. A proposta de Simone Leigh nasceu de uma parceria já em curso: Eva Respini havia convidado a artista, em 2019, para realizar sua primeira grande panorâmica no ICA, projeto adiado pela pandemia e depois reorganizado a partir de Veneza. O edifício que recebeu a mostra é o pavilhão neoclássico dos Estados Unidos nos Giardini, projetado pelos arquitetos William Adams Delano e Chester Holmes Aldrich e inaugurado em 4 de maio de 1930. Sua arquitetura de inspiração palladiana remete a Monticello, a casa de fazenda de Thomas Jefferson, construída por pessoas escravizadas a partir da década de 1770. O pavilhão abriu no auge das leis de segregação racial Jim Crow nos Estados Unidos e em meio à ascensão do fascismo e do antissemitismo na Europa. Desde 1986, pertence à Fundação Guggenheim e é administrado pela Peggy Guggenheim Collection, que cuida da montagem e manutenção das exposições oficiais do país. Essa história do edifício é o ponto de partida de toda a intervenção de Leigh.
O projeto se chamaria inicialmente Grittin’, expressão vernacular afro-americana que sugere determinação diante da adversidade, e pouco antes da abertura passou a se chamar Sovereignty. O título remete à ideia de autogoverno e independência, tanto para a pessoa quanto para a coletividade. Segundo o texto da exposição, ser soberana é estar livre da autoridade, do desejo e do olhar de outra pessoa e tornar-se autora da própria história. A artista explicou que escolheu o nome para apontar a ideia de autodeterminação e as afinidades do pensamento feminista negro. Muitas das esculturas do pavilhão investigam a extração de imagens e objetos da diáspora africana e sua circulação como souvenirs a serviço de narrativas coloniais. As figuras de Leigh apresentam suas personagens como autônomas e autossuficientes e voltam a crítica para as condições que tantas vezes obrigam mulheres negras a afirmar a própria humanidade. A escritora e pesquisadora norte-americana Saidiya Hartman descreveu a abordagem da artista sobre o feminino negro como uma “arquitetura da possibilidade”, e seu conceito de fabulação crítica, estratégia que convida historiadores, artistas e críticos a preencher criativamente as lacunas do arquivo, serve de chave para a exposição. A própria Leigh resume o método ao dizer que, para contar a verdade, é preciso inventar o que falta no arquivo, comprimir o tempo, trabalhar a escala e deslocar as formas até revelar algo mais verdadeiro que o fato. Para isso, a artista recorre ao que chama de crioulização da forma, a fusão de linguagens culturais distintas que foram ligadas pelas histórias da colonização.
Façade: o pavilhão americano coberto de palha
A exposição começava do lado de fora. Leigh tratou o próprio edifício como escultura e cobriu a fachada com Façade (2022), instalação de palha, aço e madeira, com uma cobertura que desce baixa do telhado e uma colunata dupla de troncos rústicos que esconde as colunas clássicas. A artista definiu o conceito como um “palácio africano dos anos 1930”. A referência direta é a Exposição Colonial de Paris de 1931, realizada no Bois de Vincennes, em que a França e outras potências, entre elas Bélgica, Itália, Japão, Holanda, Portugal, Reino Unido e Estados Unidos, exibiram as culturas e os povos dos territórios sob domínio colonial. A feira incluía uma reconstrução em escala real do templo de Angkor Wat e aldeias-modelo habitadas por pessoas trazidas de seus países, à maneira dos zoológicos humanos. O modelo específico de Façade é o grande pavilhão do Camarões e do Togo, uma estrutura de madeira com alta cúpula de palha inspirada nas culturas bamoun e bamileke do Camarões. Leigh conheceu essas imagens em 1992, quando encontrou um livro de fotografias vendido como souvenir da exposição, e guardou a referência por três décadas. A Exposição Colonial também foi alvo de críticas na época: surrealistas e o Partido Comunista Francês organizaram a contraexposição La Vérité sur les colonies, e o movimento da Negritude, fundado pelos poetas Aimé Césaire e Léopold Sédar Senghor e influenciado pelas irmãs martinicanas Paulette e Jeanne Nardal, contestou os princípios de diferença racial celebrados pela feira. Ao vestir com palha uma arquitetura que remete a Monticello, Leigh coloca frente a frente duas formas de representação nacional construídas sobre a exploração colonial e a escravidão.
Satellite: o D’mba baga como antena

No centro do pátio erguia-se Satellite (2022), bronze de patina negra com 7,3 metros de altura. A obra parte do D’mba, também chamado nimba, máscara de ombro em forma de busto feminino criada pelos povos baga da costa da Guiné e usada em performances rituais para a comunicação com os ancestrais. Nas cerimônias, a máscara representava as mulheres mais velhas e o espírito do cuidado materno e era usada sobre os ombros por homens jovens em casamentos, funerais e festas agrícolas. O D’mba está entre os objetos mais conhecidos da história da arte africana e fascinou modernistas europeus como Pablo Picasso, que possuía um exemplar, em uma relação típica do olhar colonial, que valorizava esses objetos pela forma e deixava de lado suas funções originais. Um exemplar importante está na própria Peggy Guggenheim Collection, a poucos minutos do pavilhão. Leigh ampliou e abstraiu os traços da máscara, incluindo os seios achatados e caídos que indicam longos anos de amamentação, e transformou as pernas em colunas, permitindo que o público passe por baixo da figura e encontre ali um espaço íntimo. No lugar da cabeça, colocou uma antena parabólica fundida em bronze, que atualiza a função do D’mba como canal de comunicação, capaz de emitir e receber sinais. A escultura funcionava como guardiã da entrada e anunciava o encontro entre tradição ritual, tecnologia e escala arquitetônica que atravessa toda a mostra.
Last Garment: a lavadeira no espelho d’água
Ao entrar na primeira galeria, o público encontrava Last Garment (2022), bronze de 1,37 metro de uma lavadeira curvada sobre a roupa, instalado em um grande espelho d’água. A obra parte de Mammy’s Last Garment, fotografia feita na Jamaica em 1879 por C. H. Graves. Imagens como essa circularam amplamente em cartões-postais que, incentivados pelo governo colonial britânico, ajudaram a promover a Jamaica como paraíso tropical para turistas brancos. A figura da lavadeira estava entre as mais populares dessa iconografia e servia para apresentar a população da ilha como leal, disciplinada e limpa. Esses souvenirs faziam parte de uma economia visual que construiu uma ideia da Jamaica a partir do olhar dos colonizadores e expressavam o desejo de possuir e tocar uma imagem do outro, muitas vezes produzida sem o consentimento de quem era fotografada. Leigh responde a esse olhar com outra forma de toque, presente no próprio processo da obra. Antes da fundição, modelou a figura em argila a partir das fotografias e de uma modelo vestida com roupas de época, pesquisadas e reunidas pela figurinista Niki Hall, e fez à mão, em barro, cada uma das mais de 800 rosetas que formam o cabelo da lavadeira. A artista também retirou do título o termo racializado presente na fotografia original. Filha de pais jamaicanos, Leigh devolve à personagem interioridade e concentração, e o espelho d’água desloca a atenção para o gesto, o tempo e o reflexo dessa mulher absorvida no próprio trabalho.
A galeria seguinte reunia duas grandes obras em grés vidrado. Anonymous (2022), em grés e bronze, mostra uma figura feminina de 1,84 metro sentada junto a uma mesa de quase três metros. A obra parte de The Wilde Woman of Aiken (1882), fotografia de James A. Palmer, autor de milhares de imagens da “vida nas plantations” da Carolina do Sul e da Geórgia. A imagem mostra uma mulher negra sentada a uma mesa com um jarro de rosto de Edgefield que segura um grande girassol, e é a primeira imagem conhecida desse tipo de objeto. Os jarros de rosto foram produzidos no século XIX por afro-americanos escravizados e libertos no distrito de Edgefield, na Carolina do Sul, região conhecida pela cerâmica utilitária em grés, e podem ter tido funções rituais ou religiosas, guardando sentidos cifrados. A fotografia racista de Palmer foi feita como sátira a Oscar Wilde, que visitava os Estados Unidos, e ao princípio estético do poeta de que qualquer coisa pode ser bela. Leigh leva a modelo anônima da pequena fotografia a uma escala maior que a humana e coloca ao seu lado Jug (2022), jarro de 1,58 metro de altura cuja superfície é coberta por formas semelhantes a conchas de cauri, do tamanho das melancias que a artista usa como moldes. A escala monumental eleva o objeto feito por mãos escravizadas e a mulher ridicularizada pela fotografia à condição de protagonistas, e a sala reúne em um mesmo espaço a criação afro-americana e a imagem que tentou diminuí-la.
Sentinel: o objeto de poder na rotunda
No centro da rotunda estava Sentinel (2022), bronze de 4,93 metros de altura. A obra remete aos objetos de poder, gênero fundamental da arte da diáspora africana, que assume formas variadas, muitas delas antropomórficas, e ocupa papel essencial na vida espiritual, por conter energia e conhecimento divinos. Leigh combina uma forma feminina muito alongada a um objeto tradicionalmente usado em rituais de fertilidade, associando o corpo feminino à ideia de ferramenta e de lugar de trabalho e consumo. O título, que designa o ato de vigiar, transforma a figura em uma presença atenta, que observa o público e a própria exposição. Pela posição central na rotunda e pela verticalidade extrema, Sentinel funcionava como eixo do percurso, e a obra se tornou uma das imagens mais lembradas do pavilhão, voltando a ocupar lugar de destaque na etapa de Los Angeles da panorâmica da artista.
Sharifa e Conspiracy: o primeiro retrato e o ateliê como lugar de cuidado
Na penúltima galeria, a escultura Sharifa (2022) e o filme Conspiracy (2022) estabeleciam um jogo de chamada e resposta. Sharifa é o primeiro retrato feito por Leigh: um bronze de 2,83 metros, com o dobro da altura da modelo, a escritora Sharifa Rhodes-Pitts, esculpido a partir de sessões de pose. A figura aparece encostada à parede, com as mãos sobre as coxas e o olhar voltado para baixo, em um corpo em repouso cuja postura evoca estratégias de recusa e a força dos mundos interiores das mulheres negras. A obra é deliberadamente enigmática, e essa opacidade, ligada à ideia de direito à opacidade formulada pelo pensador martinicano Édouard Glissant, é um recurso constante em Leigh, que mantém partes de suas obras e de seus projetos fora do alcance do público. Um pé que surge sob a saia remete à estatuária egípcia. Conspiracy, feito em parceria com a cineasta Madeleine Hunt-Ehrlich, foi filmado em preto e branco, em 8 mm e 16 mm, e registra a criação de Sharifa com closes das mãos da artista socando, raspando, amassando e modelando a argila, além das ferramentas de madeira, do ateliê e da modelo. O filme se inspira em parte no documentário Hands of Inge (1962), sobre a escultora afro-americana Ruth Inge Hardison, e conta com a participação de Rhodes-Pitts e da artista Lorraine O’Grady, mentora de Leigh. A narração reúne trechos de Flash of the Spirit (1983), de Robert Farris Thompson, sobre o espírito que habita os materiais nas tradições artísticas do Kongo, e a descrição de um banho ritual jamaicano feita por Zora Neale Hurston em Tell My Horse (1938), com o álbum Conspiracy (1975), da cantora Jeanne Lee, como referência de fundo.
Cupboard, Martinique e Sphinx: o coro final
A última galeria foi concebida como um coro de figuras em cerâmica e ráfia, dois materiais centrais na obra de Leigh. A argila é a base de quase todo o seu trabalho, inclusive dos bronzes, que são primeiro modelados em barro, e a artista leva o material ao limite pela escala e por técnicas como a queima com sal em forno atmosférico. Cupboard (2022), em ráfia, aço e grés, é uma enorme forma em sino com 3,44 metros de altura, em que a arquitetura se torna extensão do corpo. A obra evoca ao mesmo tempo as arquiteturas vernaculares do Sul global e as vestimentas femininas. Entre as referências dessas formas em cúpula, Leigh aponta a Exposição Colonial de 1931, que fixou a cabana como emblema das colônias, o restaurante Mammy’s Cupboard, aberto nos anos 1940 em Natchez, no Mississippi, em que os clientes entravam literalmente na saia de uma figura feminina negra para comer, e a pintura As meninas (1656), de Diego Velázquez, com suas saias armadas. Essas formas carregam possibilidades de ocultação, acolhimento e invasão e dialogam com a distinção entre corpo e carne proposta pela teórica Hortense Spillers. Completavam a sala Martinique (2022), figura em grés vidrado de 1,54 metro, e Sphinx (2022), que retoma a esfinge egípcia, uma das formas mais reconhecíveis da Antiguidade. Juntas, as obras mostram o uso de técnicas e formatos historicamente associados ao feminino e ironizam ideias essencialistas sobre o corpo da mulher negra.
Loophole of Retreat: Venice: o encontro de pensadoras negras
A exposição se estendeu para fora do pavilhão com Loophole of Retreat: Venice, encontro realizado de 7 a 9 de outubro de 2022 na Fondazione Giorgio Cini, na ilha de San Giorgio Maggiore. O simpósio foi organizado por Rashida Bumbray, diretora de Cultura e Arte da Open Society Foundations e curadora da primeira individual de destaque de Leigh, em 2012, com consultoria curatorial de Saidiya Hartman, da Universidade Columbia, e de Tina M. Campt, da Universidade Brown. Ao longo de três dias, cerca de 60 apresentações reuniram conversas, leituras, performances e exibições de filmes de pesquisadoras, escritoras, artistas, cineastas e ativistas negras de diferentes países, entre elas a artista jamaicana Deborah Anzinger, a cineasta haitiana Gessica Généus, a artista marroquina Bouchra Khalili e a poeta portuguesa Raquel Lima. O programa foi organizado a partir de eixos propostos pela artista e pela curadora, como aquilombamento (maroonage), trabalho manual, realismo mágico, medicina e soberania, e foi transmitido ao vivo. O nome vem da autobiografia de Harriet Jacobs, Incidents in the Life of a Slave Girl (1861), em que a autora descreve o minúsculo sótão onde viveu escondida por sete anos após fugir da escravidão. Jacobs fez desse confinamento um lugar de pensamento, planejamento, escrita e imaginação da liberdade, e o encontro retoma essa ideia como espaço para o trabalho intelectual das mulheres negras. A edição veneziana ampliou um encontro de um dia realizado em 2019 no Museu Guggenheim de Nova York.
Simone Leigh e o Leão de Ouro de 2022
Além do pavilhão nacional, Simone Leigh participou da exposição central The Milk of Dreams com Brick House (2019), bronze de quase cinco metros de altura e cerca de 2,7 toneladas que abria o percurso do Arsenale. A escultura mostra o busto de uma mulher negra sem olhos, com tranças, sobre um corpo em cúpula que combina saia e casa de barro, e foi a primeira obra comissionada para o High Line Plinth, em Nova York, onde ficou de 2019 a 2021. Na cerimônia de abertura, em 23 de abril de 2022, o júri concedeu a Leigh o Leão de Ouro de melhor participante da exposição internacional, destacando a força persuasiva da abertura escultórica do Arsenale. No mesmo dia, o Leão de Ouro de melhor participação nacional foi para o pavilhão da Grã-Bretanha, com Feeling Her Way, de Sonia Boyce, primeira mulher negra a representar o país. Foi a primeira vez que mulheres negras receberam as duas principais premiações da Bienal na mesma edição. Os Leões de Ouro pelo conjunto da obra daquele ano foram para Katharina Fritsch e Cecilia Vicuña.
Quem é Simone Leigh?
Simone Leigh nasceu em Chicago, em 1967, filha de pais jamaicanos que chegaram aos Estados Unidos como missionários, e cresceu no South Side da cidade, em uma família religiosa rigorosa que passava os verões na Jamaica. Estudou no Earlham College, faculdade quaker em Richmond, Indiana, onde se formou em artes, com especialização complementar em filosofia, em 1990. Nunca frequentou uma escola de arte. Na faculdade, teve contato com a teoria feminista francesa pós-estruturalista e chegou à cerâmica por meio de um livro sobre a olaria nigeriana. Depois de formada, fez um estágio no National Museum of African Art, da Smithsonian Institution, onde aprofundou o interesse pela cerâmica africana, e passou cerca de um ano vivendo em uma iurta na zona rural da Virgínia, aprendendo a queimar peças em um forno anagama japonês. Ao se mudar para Nova York, trabalhou em uma empresa de cerâmica arquitetônica reproduzindo azulejos do metrô. Leigh só passou a se ver como artista por volta dos 35 anos e considera que sua carreira começou de fato em 2010, com a residência no Studio Museum in Harlem. Em 2012, realizou a individual You Don’t Know Where Her Mouth Has Been, no espaço The Kitchen, em Nova York, com curadoria de Rashida Bumbray. Durante anos, ouviu de colegas ceramistas que jamais seria aceita no circuito da arte contemporânea, e sua obra, marcada por pesquisa etnográfica, feminismo e política racial, também se afastava das convenções do meio da cerâmica.
Ao lado da escultura, Leigh desenvolveu projetos de prática social dedicados ao cuidado. Free People’s Medical Clinic (2014), comissionado pela Creative Time dentro da mostra Funk, God, Jazz and Medicine: Black Radical Brooklyn, transformou em clínica de portas abertas a Stuyvesant Mansion, casa de 1914 em Bedford-Stuyvesant, no Brooklyn, que pertenceu à médica Josephine English, primeira mulher afro-americana a ter um consultório de ginecologia e obstetrícia no estado de Nova York. O projeto oferecia testes de HIV, aferição de pressão, ioga, acupuntura, fitoterapia e aulas de dança inspiradas em Katherine Dunham e homenageava as clínicas gratuitas do Partido dos Panteras Negras e a United Order of Tents, sociedade secreta de enfermeiras negras. Para a artista, o objetivo era dar visibilidade ao trabalho de cuidado que mulheres negras já realizavam nas comunidades. Em 2016, The Waiting Room, no New Museum, ampliou a proposta com sessões de bem-estar, palestras e oficinas, muitas delas fechadas ao público, em uma programação paralela chamada The Waiting Room Underground. O projeto homenageava Esmin Elizabeth Green, mulher que morreu em 2008 depois de esperar quase 24 horas pelo atendimento na sala de espera de um hospital psiquiátrico do Brooklyn. Leigh explicou que a clínica foi uma forma de viver ao vivo as ideias que já trabalhava na escultura, e essa dimensão coletiva reaparece em Veneza, tanto em Conspiracy quanto em Loophole of Retreat.
Formas e materiais recorrentes na obra de Simone Leigh
A obra de Leigh se constrói a partir de um vocabulário de formas que retornam em diferentes escalas e materiais. Suas figuras costumam aparecer sem olhos, o que evita a individualização e recusa a troca de olhares com o espectador. Os corpos em cúpula unem a saia armada, sob a qual as crianças se abrigam, às arquiteturas cônicas dos batammaliba, do Benin e do Togo, e às casas teleuk dos mousgoum, do Camarões e do Chade, todos espaços de proteção. As conchas de cauri, moldadas a partir de melancias, remetem ao corpo feminino, às trocas comerciais do Atlântico e aos estereótipos racistas associados à fruta. Rosetas de porcelana, tranças, ráfia e grés vidrado completam esse repertório. As cerâmicas passam por várias queimas, em processos que exigem equipes inteiras de acompanhamento e envolvem um grau de imprevisibilidade que a artista incorpora ao resultado. Leigh também reflete sobre a carga orientalista presente na história da cerâmica moderna e usa essas técnicas para produzir outros sentidos. A partir de Brick House, em 2019, passou a trabalhar com o bronze em grande escala, sempre partindo da modelagem em argila. O pavilhão de Veneza reuniu todas essas linhas em um só conjunto, das figuras-arquitetura às cerâmicas monumentais e ao filme sobre o trabalho no ateliê.
Antes da Bienal, Leigh venceu o Hugo Boss Prize em 2018, o que resultou na exposição Loophole of Retreat no Museu Guggenheim de Nova York, em 2019, e participou da Bienal do Whitney de 2019. Realizou ainda Hammer Projects: Simone Leigh (2016-2017), no Hammer Museum, em Los Angeles, a instalação pública inHarlem (2016-2017), com o Studio Museum in Harlem, no Marcus Garvey Park, e participou de Trigger: Gender as a Tool and a Weapon (2017), no New Museum, e de Psychic Friends Network (2016), na Tate Exchange da Tate Modern, em Londres. Sua obra está em acervos como os do Whitney Museum, do Guggenheim, do Art Institute of Chicago, do Cleveland Museum of Art, do Hammer Museum e do ICA/Boston, e ela é representada pela Matthew Marks Gallery. Depois de Veneza, a primeira panorâmica da artista abriu no ICA/Boston, de 6 de abril a 4 de setembro de 2023, com mais de 35 obras, entre peças iniciais, trabalhos recentes e obras do pavilhão. A montagem terminava em uma sequência que evocava o percurso veneziano, com Satellite na entrada do museu e um espelho d’água maior para Last Garment, voltado para o porto de Boston. A mostra seguiu para o Hirshhorn Museum and Sculpture Garden, em Washington (novembro de 2023 a março de 2024), e terminou em uma apresentação conjunta do LACMA e do California African American Museum, em Los Angeles (maio de 2024 a janeiro de 2025). A exposição foi acompanhada da primeira monografia abrangente sobre a artista, publicada pelo ICA e pela DelMonico Books, com projeto gráfico de Nontsikelelo Mutiti.
Pavilhão dos Estados Unidos – Simone Leigh: Sovereignty
59ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, The Milk of Dreams
Artista: Simone Leigh
Curadoria: Eva Respini, curadora-chefe do ICA/Boston
Cocomissárias: Jill Medvedow, diretora do ICA/Boston, e Eva Respini
Organização: Institute of Contemporary Art/Boston, em parceria com o Bureau of Educational and Cultural Affairs do Departamento de Estado dos Estados Unidos
Colaboração: Peggy Guggenheim Collection e Solomon R. Guggenheim Foundation
Filme: Conspiracy, com Madeleine Hunt-Ehrlich
Programa paralelo: Loophole of Retreat: Venice, organizado por Rashida Bumbray, Fondazione Giorgio Cini, 7 a 9 de outubro de 2022
Curadoria geral da Bienal: Cecilia Alemani
Local: Pavilhão dos Estados Unidos, Giardini della Biennale, Castello, Veneza
Período: 23 de abril a 27 de novembro de 2022
Perguntas frequentes
Quem representou os Estados Unidos na Bienal de Veneza de 2022?
A escultora Simone Leigh, nascida em Chicago em 1967, representou os Estados Unidos com a exposição Sovereignty. Ela foi a primeira mulher negra a representar o país na Exposição Internacional de Arte da Bienal.
O que significa Sovereignty na obra de Simone Leigh?
O título fala de autogoverno e independência, individuais e coletivos. Na exposição, ser soberana significa estar livre da autoridade e do olhar de outra pessoa e escrever a própria história, tema que a artista explora a partir da experiência das mulheres negras.
Por que o pavilhão americano foi coberto de palha?
A instalação Façade se inspira no pavilhão do Camarões e do Togo da Exposição Colonial de Paris de 1931. Ao cobrir o edifício neoclássico, que remete à casa de fazenda de Thomas Jefferson, Leigh confronta duas formas de representação nacional ligadas ao colonialismo e à escravidão.
Quais obras estavam no Pavilhão dos Estados Unidos em 2022?
O pavilhão reuniu Façade, Satellite, Last Garment, Anonymous, Jug, Sentinel, Sharifa, o filme Conspiracy, Cupboard, Martinique e Sphinx, todas de 2022.
Simone Leigh ganhou o Leão de Ouro?
Sim. Simone Leigh recebeu o Leão de Ouro de melhor participante da exposição central The Milk of Dreams pela escultura Brick House (2019), instalada na entrada do Arsenale.

