Pierre Bourdieu e a moda

O texto “Por que ler Pierre Bourdieu”, escrito por Ana Paula Cavalcanti Simioni, apresenta uma análise do artigo “O costureiro e sua grife” (1975), de Pierre Bourdieu e Yvette Delsaut. A autora utiliza esse estudo como ponto de partida para discutir os principais conceitos bourdieusianos aplicados à moda, destacando a complexidade das dinâmicas simbólicas que estruturam esse campo.

Estrutura do valor na moda

Bourdieu e Delsaut propõem uma teoria para explicar como certos objetos da alta-costura adquirem valor simbólico e econômico extraordinário. Eles criticam duas explicações predominantes:

  1. A ideologia carismática, que atribui o valor das peças à genialidade do estilista;
  2. O materialismo simplista, que reduz o valor à qualidade dos materiais e à execução técnica.

Segundo os autores, a peça de moda se torna valiosa não apenas por sua confecção, mas principalmente por estar associada a um nome consagrado. A assinatura do estilista funciona como um ato simbólico que transforma o objeto comum em algo excepcional. É a raridade do produtor, e não do produto em si, que confere valor.

O conceito de campo

Para explicar a origem dessa raridade, Bourdieu utiliza seu conceito de campo, entendido como um espaço social estruturado por posições desiguais, determinadas por diferentes volumes de capital (econômico, social, simbólico e cultural). Nesse campo, o reconhecimento e o prestígio de um estilista resultam de sua trajetória, suas alianças e seu acúmulo de capitais ao longo do tempo.

Por exemplo, estilistas como Cardin e Saint-Laurent ocuparam posições de prestígio por terem passado pela maison Dior, acumulando autoridade e legitimidade antes de construírem suas próprias marcas.

Modos de distinção: dominantes e dominados

O campo da moda é estruturado por duas estratégias:

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  • Conservação (dominantes): marcas já consagradas como Dior e Balmain mantêm-se no topo sem grandes rupturas;
  • Subversão (dominados): novos estilistas precisam romper com convenções, propor ousadias e parecer geniais para conquistar espaço.

A genialidade, portanto, é socialmente construída e não um dom individual. É produto da validação coletiva de um sistema que envolve críticos, jornalistas, instituições culturais e os próprios consumidores.

A moda como sistema coletivo

A análise de Bourdieu mostra que a moda deve ser compreendida como um sistema coletivo. Compreender esse sistema exige considerar a atuação de diversos agentes que legitimam a criação de valor: estilistas, imprensa especializada, instituições, discursos acadêmicos, e o público consumidor. Isso exige uma abordagem que vá além da análise da peça de roupa em si, incorporando também a produção simbólica que a envolve.

Atualidade da análise: do luxo ostentatório à distinção sutil

Embora o texto original date dos anos 1970, os autores já apontavam transformações na estrutura da moda com o surgimento do prêt-à-porter e a democratização do consumo. A chamada “crise da alta-costura” não representaria um colapso do sistema, mas uma reconfiguração das estratégias de distinção social.

A nova elite, segura de sua posição social conquistada por mérito (e não por herança), passa a adotar formas mais discretas de distinção. O luxo ostensivo cede lugar à “simplicidade ostensiva”, em que pequenos detalhes, como a capacidade de identificar o “detalhe que muda tudo”, tornam-se marcadores sociais importantes.

O corpo como marca de distinção

O corpo é apresentado como o novo foco de distinção. Em vez de moldado pela roupa (como nos corsets ou nas cinturas marcadas de Dior), o corpo passa a ser valorizado por sua aparência “natural”. No entanto, essa naturalidade é construída por meio de dietas, rotinas de exercícios e investimentos em cosméticos, práticas que demandam tempo e dinheiro.

Trata-se de uma forma de dominação mais sutil, pois transforma um esforço socialmente condicionado em aparência de dom natural, reforçando a legitimidade da posição de classe das elites.

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