Quando a arte é profissão (e não hobby)

Nem sempre é simples afirmar: sou artista profissional. Mais do que uma questão de talento ou vocação, essa afirmação carrega escolhas, renúncias e um desejo firme de transformar a arte em caminho e não apenas em refúgio.

A arte pode ser prazerosa, íntima, libertadora. Mas quando passa a ser exercida com intenção de sustento, dedicação sistemática e visão de carreira, ela deixa o campo do hobby e se consolida como profissão. E é sobre isso que precisamos falar com mais seriedade e também mais coragem.

Quando a arte se torna profissão?

  • Quando você planeja que seu trabalho criativo seja sua principal fonte de sustento
  • Quando se compromete a aprimorar sua técnica, desenvolver linguagem própria e alcançar o mercado
  • Quando passa a ser remunerado por obras, serviços ou performances
  • Quando a arte deixa de ser só lazer e se torna trajetória de vida

Profissão requer dedicação e tempo real

A arte como profissão demanda horário, prazos, ritmo e foco. Não se trata de criar apenas quando “dá vontade”, mas de manter uma prática consistente, muitas vezes mesmo diante de bloqueios, inseguranças e cansaço.

É o compromisso com o processo, com o aprimoramento, com o ciclo de produção e com as exigências que o campo impõe. Não é sobre sufocar a criatividade, é sobre dar a ela espaço concreto para florescer, como se dá a qualquer ofício.

Profissional é quem constrói trajetória

Mais do que técnica, o artista profissional cultiva uma visão de longo prazo: busca aprender, testar, se desenvolver, se posicionar no campo da arte. Isso inclui:

  • Criar portfólio
  • Escrever projetos e propostas
  • Participar de formações, exposições e feiras
  • Construir rede e articulações institucionais
  • Pesquisar materiais, referências, contextos

Tudo isso contribui para que a prática artística não seja episódica, mas um processo em expansão contínua.

A arte como trabalho exige estrutura

Profissão pressupõe planejamento, constância e entrega. Ser artista envolve múltiplas frentes de atuação:

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  • Produzir (com pesquisa e consistência)
  • Documentar (fotos, fichas técnicas, portfólio)
  • Divulgar (redes, site, contatos)
  • Se inscrever (editais, chamadas, residências)
  • Vender (ou buscar formas de sustentabilidade)
  • Administrar (tempo, orçamento, contratos)

Isso sem falar na formação continuada, na leitura crítica, na construção de rede. É muita coisa — mas sim, isso é trabalho.

Profissionalizar ≠ se vender

Um dos maiores medos é perder a essência no processo de profissionalização. Mas esse é um falso dilema. Profissionalizar não significa se moldar ao mercado — significa criar condições para que sua arte exista com solidez, circulação e continuidade.

É possível profissionalizar sem abrir mão da poética, do tempo interno, da crítica, da ética. Ser artista é sustentar esse equilíbrio.

A arte também é campo político

A insistência em tratar artistas como amadores não é neutra. Faz parte de um processo histórico que desvaloriza a cultura, invisibiliza saberes periféricos e precariza corpos criadores. Reconhecer a arte como profissão é também um ato de resistência, sobretudo para artistas racializadas/os, dissidentes e fora do eixo tradicional.

Formalizar é também se proteger

Registrar MEI, emitir nota, redigir contratos e cobrar adequadamente: tudo isso ajuda a profissionalizar e garantir seus direitos como trabalhadora ou trabalhador da arte. E também contribui para o reconhecimento do campo como um todo.

Se a arte é um trabalho, ela deve ser tratada como tal, inclusive nos aspectos legais, burocráticos e financeiros.

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