Resenha livro | Manual do Artista-etc, Ricardo Basbaum

Resenha do livro Manual do Artista-etc (2013), de Ricardo Basbaum.

Ricardo Basbaum não escreve um manual no sentido tradicional. Manual do Artista-etc não ensina técnicas nem traz fórmulas para “ter sucesso” no meio da arte. O que ele faz é muito mais radical: propõe que a figura do artista seja repensada como um campo de experimentação aberto, expandido, movente.

Logo de início, o termo “artista-etc” já nos convida à quebra: um artista que é artista e também outra coisa, produtor, ativista, curador, pensador, organizador de espaços, articulador de redes. Basbaum parte da constatação de que o artista contemporâneo já não cabe apenas na imagem do sujeito que produz obras em seu ateliê.

“Artista-etc é aquele que se move na dobra entre a produção artística e os circuitos da arte, ocupando diferentes posições, negociando papéis, contaminando campos.” (Basbaum, 2013)

Diagramações do pensamento

O livro se divide em blocos de texto que não seguem uma linearidade tradicional. Há ensaios, reflexões curtas, fluxogramas, gráficos, mapas conceituais. É quase como se o pensamento do autor fosse desenhado no espaço da página, uma estética que já é em si uma tomada de posição: a escrita como prática artística, a teoria como forma visual.

Basbaum compartilha fragmentos de suas pesquisas e experiências, articulando ideias que vão de Joseph Beuys à Tropicália, de Lygia Clark ao ativismo global, da crítica institucional ao debate sobre autonomia. O manual também é um arquivo de processos: traz esquemas de projetos artísticos, estratégias de participação e anotações de campo, revelando um pensamento em constante fricção com o real.

Política e micropolítica do fazer artístico

O Manual do Artista-etc está atravessado por uma pergunta central: qual o lugar do artista no mundo hoje? E mais: como a arte pode ser um campo de reinvenção da sensibilidade, do convívio e da linguagem? Ao invés de responder, Basbaum tensiona. Aponta que o artista não é apenas quem “faz obras”, mas quem organiza modos de existir.

“A arte é uma forma de mediação entre modos de vida.” (Basbaum, 2013)

Nesse sentido, o livro é também um manifesto por uma arte situada, consciente de seus dispositivos, capaz de criar outros circuitos de afeto e percepção. Uma arte que pode ser ativadora de práticas coletivas, de deslocamentos subjetivos, de novas alianças entre corpo, espaço e linguagem.

O artista como agente experimental

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Mais do que nomear a multiplicidade de funções que artistas hoje assumem, Basbaum propõe que o artista seja alguém que embaralha os códigos, que transita entre campos, que tensiona estruturas e atua como um operador simbólico e político. O “etc” não é um excesso sem direção, é justamente o índice do movimento, da abertura, da crítica viva.

No capítulo em que propõe o uso do símbolo “NBP” (Novas Bases para a Personalidade), Basbaum recupera sua própria trajetória como artista-pesquisador. Fica evidente que o manual também é um dispositivo de ativação: ele não está terminado, mas aberto à reescrita, à apropriação, à tradução por outros artistas-etc.

Para quem é este livro?

Manual do Artista-etc não é uma leitura introdutória sobre arte, mas um livro fundamental para artistas, curadores, pesquisadores e estudantes que desejam pensar o lugar da arte no presente. É especialmente relevante para quem atua em coletivos, circuitos independentes, pedagogias críticas ou práticas de mediação.

É um convite ao pensamento relacional, à experimentação teórica e à afirmação de que a arte pode ser, sim, uma forma de reorganizar os modos de viver em comum.

Uma cartografia em aberto

Ao final da leitura, não se sai com um plano de carreira ou uma lista de tarefas. Sai-se com um vocabulário expandido, com novas perguntas, com um desejo de investigar como cada um de nós pode ativar seu próprio “etc” nas bordas, nas fissuras, nas dobras entre arte e vida.

“O artista-etc inventa seus próprios manuais.” (Basbaum, 2013)

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